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| Diz a lenda que Penélope, não a charmosa mas a fiel, enquanto esperava seu
marido Ulisses, que há quase vinte anos não escrevia nem dava notícias, tecia
durante o dia e desfazia tudo durante a noite. Era a forma de engabelar suas
dezenas de esperançosos pretendentes, com a promessa de tomar uma decisão
final dolorosa por um deles, quando seu serviço de fiandeira estivesse
concluído. Tanto ela estava certa, que ele um dia chegou. Não foi buzinando o carro, nem tocando a campainha, nem com flores na mão, mas
disfarçado como andarilho, maltratado e maltrapilho, como quem se prepara
para comer um angu quente. Com muito jeito, pela beiradinha, devagar, manhosamente. Ela não o reconheceu inicialmente, mas vendo-o como naquele
tempo se via um caminhante, como uma figura misteriosa que sabia muitas coisas de outras muitas terras, contou-lhe um sonho angustiante que tivera. Num resuminho, mais ou menos assim: Uma águia descera em seu quintal e arrancara as cabeças de uns vinte de seus gansos. Não é preciso nem dizer que ele não só matou a charada para ela, como aí mesmo preparou depois seguiu à risca a vingança sobre aquela cambada de príncipes folgados que deitavam e rolavam na sua casinha. E viveram felizes e morreram bem velhinhos, como vovó contava. Mas esta historinha nunca terminava para mim.
Numa Ítaca virtual os Ulisses não somem e retornam com novos nicks, cheios de dedos, todos os dias e noites para suas Penélopes? E nessas sumidas elas enredaram e deram linha (as Parcas que cuidam do fio do destino são três de nós, não?) para todos os prínsapos possíveis e imagináveis ou apenas esperam cada uma o seu Ulisses? Onde está o Uli?... Uli, onde está você?... Atualmente eu ando concluindo que ela, na historieta, não só queria voar com a águia para o infinito do céu, das ilhas gregas, como acabou ficando com quem conseguiu entender o sonho dela. É a vida! Vera Rezende março 2000 |
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