Diz a lenda que Penélope, não a charmosa mas a fiel, enquanto esperava seu marido Ulisses, que há quase vinte anos não escrevia nem dava notícias, tecia durante o dia e desfazia tudo durante a noite. Era a forma de engabelar suas dezenas de esperançosos pretendentes, com a promessa de tomar uma decisão final dolorosa por um deles, quando seu serviço de fiandeira estivesse concluído. Tanto ela estava certa, que ele um dia chegou. Não foi buzinando o carro, nem tocando a campainha, nem com flores na mão, mas disfarçado como andarilho, maltratado e maltrapilho, como quem se prepara para comer um angu quente. Com muito jeito, pela beiradinha, devagar, manhosamente. Ela não o reconheceu inicialmente, mas vendo-o como naquele tempo se via um caminhante, como uma figura misteriosa que sabia muitas coisas de outras muitas terras, contou-lhe um sonho angustiante que tivera. 

Num resuminho, mais ou menos assim: Uma águia descera em seu quintal e arrancara as cabeças de uns vinte de seus gansos. Não é preciso nem dizer que ele não só matou a charada para ela, como aí mesmo preparou depois seguiu à risca a vingança sobre aquela cambada de príncipes folgados que deitavam e rolavam na sua casinha. E viveram felizes e morreram bem velhinhos, como vovó contava. Mas esta historinha nunca terminava para mim. 


Me enchia de interrogações, questões que eu era incapaz até de elaborar mas sentia que existiam, desde menina. Será que naquele tempo vinte anos voavam mais rápido que agora? Que garantia, que certeza podia ter um homem que larga a mulher com filho pequeno, por mais nobre que seja a causa, de voltar pimpão, tantas décadas depois, achando que tem todos os direitos? Nós mulheres já naquele tempo éramos bobonas assim? Era deixá-los ir sempre, se voltar (não importa quando) é porque é meu e se não voltar é porque nem quando estava comigo me pertencia? Será que nunca vai sair da moda a tal eterna desventura de viver à espera de viver ao lado teu; que a emoção suspensa e o desejo aliado à cada dia continuarão no elenco do velho drama que leva o título: "em nome da paixão"? O tempo é de fato o grande professor que mata todos os alunos mas limpa, cura e ensina mesmo a gente... a ter cada vez mais dúvidas. 

Numa Ítaca virtual os Ulisses não somem e retornam com novos nicks, cheios de dedos, todos os dias e noites para suas Penélopes? E nessas sumidas elas enredaram e deram linha (as Parcas que cuidam do fio do destino são três de nós, não?) para todos os prínsapos possíveis e imagináveis ou apenas esperam cada uma o seu Ulisses? Onde está o Uli?... Uli, onde está você?... Atualmente eu ando concluindo que ela, na historieta, não só queria voar com a águia para o infinito do céu, das ilhas gregas, como acabou ficando com quem conseguiu entender o sonho dela. É a vida!

Vera Rezende

março 2000

Psicóloga clínica , com formação lacaniana/Clínica Freudiana de SP. Pioneira no Brasil na adaptação de Psicomotricidade para adultos psicóticos, de 86/98, no exercício profissional em Hospital Psiquiátrico. Em 97 participação no PROGESQ - Projeto Progama de Esquizofrenia do HCFMUSP - na área de Psiquiatria. Participação na Luta Antimanicomial 98/99. Atualmente elabora projetos para HD (Hospital Dia). Gosta de literatura, mais pela leitura que pela escrita, de vez em quando se atreve a escrever alguma coisa, sempre estimulada por situações que pintam....

e-mail: verezende@uol.com.br