POEMAS
DE UMA PRISÃO
SEM TEMPO
& DE
LUGAR IGNORADO
1978 - 1979
pra se escrever
desta prisão sem fundos
há
que se ter
uma ou duas
janelas engatilhadas
apagar o brilho
que vem antes do cristal
afinar a ponta
da cabeça
pra escrever
tumor & ossos
sólido
& carvão
feito um revólver
caminhando no escuro
este poema
traz a carne de uma década
e de uma geração
traz a sua
própria lama
de uma prisão
sem tempo
e de um lugar
ignorado
vem das conversar
noturnas
das mulheres
dos bares
das poças
de sangue
da carne que
sobra
dos seios
que gritam de silêncio
das bundas
que não acendem como luas
dos cus mais
opacos
das oito às
seis e suas conseqüências
pinta este
século
desprovido
de luzes
que nunca
existiram
pinta este
verbo carnal
meu amor
não
te falarei dos séculos de latifúndio
dos aparelhos
de tortura
de Zeferino
de Mariana de Garcia Lorca
não
te falarei
de séculos
de enforcados
do sangue
dos fuzilados
de Vila Maria
de Vila Socó do anonimato
minha baby
minha Krupskaya dos pântanos
não
te falarei
da economia
política
nem da filosofia
da esperança
estou preso
a este quarto verde-musgo de pensão
no silêncio
da miséria
neste limo
das paredes
onde se espremem
todos os mortos da estrofe anterior
estou preso
nesta gosma incolor
da minha solidão
o que equivale
dizer
que só
há um jeito de abrir a porta
reencontrar
os mortos Mariana Garcia Lorca
estou preso
a este pequeno quarto
da solidão
e do exílio
é dela
que escrevo menina
a esperança
de ossos
é dele
que saio
pra te falar
o século
do futuro
está
tudo implícito no esgoto galeria do meu sonho
a terra nova
brota na lama
do meu quarto
gritos de meu
sangue
sintaxe do
meu corpo
sangue imaginário
de meu cérebro
gangrena sobre
a página
as palavras
se deslocam
sem cessar
para o reino
da sensibilidade
penetram a
alma
e reinauguram
o corpo
totalidade
de garras
disponibilidade
de relvas
onde todos
os órgãos
religados
pelas raízes do gozo
& suas
ramificações
são
as asas do corpo
entre a árvore
e o sonho
uma síntese
de gritos
entre brumas
uma síntese
de gritos
ainda nuvem
dispara teu
corpo
contra mim
o poema é
a unidade do fogo
deste fogo
geológico que teceste
por ele seguirás
o dilúvio
chamas desgrenhadas
pelo vento
todas as erupções
todos os deslocamentos
por ele encontrarás
o fogo da
unidade que perdemos
um escuro
mar se lança às docas
na garganta
do caminho
a pedra inscreve
um grito de cidade
deparamo-nos
com o enigma
cabe-nos devorá-lo
por muitos
anos
um grito de
cidade corroeu-me
todas as gargantas
nos rins das
pedras que nos devoram
esta pasta
íntima
dos anos verdes
mortos
um escuro mar
se lança às docas
sobre a lentidão
das cargas cinzas
não
sei quanto tempo
estou neste
porto esquivando-se das sombras
não
sei por quanto tempo
espio aqueles
homens nos cafés
não
sei quanto tempo
escuto esta
conversa entre unhas
mulheres submersas
é preciso
voltar ao início do poema
voltar ao
fogo íntimo do convés
onde vi pessoas
saindo
pra uma festa
que nunca viram
e pensaram
é preciso
medir o tempo
entre poema
e realidade
um escuro mar
se lança às docas
cabe-nos devorá-lo
& vieram
as mulheres mais terríveis
a me arrancar
este vagido escuro
a me fincar
uma manhã incerta
e o medo da
esperança
& tudo
se fez matinal desrítimico
moscas varejando
minha cabeça de café bebido
como num poema
de Octavio Paz
onde sempre
"há abelhas nos teu pêlos"
o incenso negro
do teu colo
a me dizer
azul sem o parapeito dos terraços
planície inóspita
salto de sangue
obrigatório
a legítima
emboscada branca surpresa
sobre a página
levanto a vela
dos meus fantasmas cujos nervos remam
os seus próprios
ventres salpicados de maçãs onde são
sinais de
tuas pernas morenas pela praia ainda in
concebível
onde a fogueira me saúda com gestos íntimos
onde moras
e o diabo interno espinhos do prazer relva
sob a lua
uma ou outra nuvem tenebrosa a maior parte é
clara a tua
imagem vigilante de vulcão pr’o azul mais
irresistível
ainda as velas sem bandeiras o mais
absolutamente
pirata dos azuis ante teu beijo o sonho
& teu
pescoço deslizando sobre a noite
há um
grande pássaro seminu
um meio caminho
andado
árvore
que resta
o fio do silêncio
sob todas as ramagens
síntese
dos suores noturnos
crimes esquecidos
nas grutas
vigília
de bombas de sangue
com unhas
afiadíssimas
nada mais que
o íntimo das sombras
grande pássaro
rachado ao meio
grande gruta
de sangue
estendendo-se
sobre todo o caminho
no íntimo
das nações
nos lábios
carcomidos das morenas
que descem
ladeiras
nas descargas
sombrias do porto
dos óleos
do rios
o teu fantasma
mordido de peixes
com seus alfinetes
noturnos
suor que me
resta
deixaste esta
roupa dentro de mim
voaste pássaro
noturno
com a flauta
do meu crânio
deixaste esta
bomba de sangue
algumas unhas
quebradas
com elas fabrico
a lâmina
do futuro
um poema escorre
de tua boca
mel de sangue
fruto
expondo a
raiz
faro ardente
salto
feito da pele
como agulha
na carne
de tua boca
saindo este
pássaro em chamas
saindo uma
árvore pra voar com o pássaro
de tua boca
que escorre
este fio
que me liga
à energia da página
de tua boca
onde se oculta
o silêncio
das línguas de fogo
onde minha
página
está
cercada de homens por todos os lados
à espera
que esta mancha incolor se dissipe
e que o poema
se encarne
em tua boca
de dentes
pela gosma
dos loucos
pelos lábios
da fome
o romancista
carrega muitas bocas no bolso do sobretudo
elas gritam
nesta noite de frio conseguem dançar mas
têm
suas línguas de carne
o poeta não
carrega mais nada
a língua
é um pássaro de fogo vôo da mudez chamas sem gritos
assando velhos
corações
um lugar onde
a palavra esperança
retorne ao
dicionário
o rio mesclando-se
com o peixe
córrego
das almas
onde posso
te matar suavemente
com meu sorriso
de unhas
onde me devolves
a flauta do meu crânio
onde o saxofone
voa entre árvores
onde danças
livremente macabra
sobre o leite
das mães
onde a maldade
libertou-se do dia
& instaurou-se
nos dentes da aurora
onde a planície
está completa de dedos
de flautas
inesperadas
um lugar onde
a palavra esperança
confunda-se
com o peixe
restitua teu
corpo
me finque
no peito
a flauta das
mãos
um lugar oceano
uma serra
planície
um sorriso
de unhas
sobre teu
corpo cidade
um silêncio
de árvores
onde foi o
esgoto noturno
onde as palavras
são canais subterrâneos
palavras escuras
mas ditas
do ventre
onde se encerra
teu corpo
raiz das almas
onde bebo
teu sangue
mastigo teus
olhos
onde finco
meu sangue
um lugar oceano
uma serra
planície
um sorriso
de unhas
pulsando em
meu crânio
piano do meu
cérebro
flauta nua
que respiro
mãe
dos rastejos
borborinho
dos pântanos
onde metáforas
são chamas
metonímias
salamandras
essências
de fogo
quando passeias
nuas pelo pátio
que é
uma estrada antiga
que é
uma floresta antiga
em tua carne
nova
chama reacendida
pescoço
eterno
nuca dos meus
dentes
fonte dos
meus lábios
rede total
de inter-relações
conciliáveis
inconciliáveis
vulcão
absoluto
nenhuma onda
verde
nenhum mar
típico dos nascimentos
onde nasci
passava um lago escuro como nuvem
.
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