o sangue das frutas
a hora cinza
poemas de uma prisão
manhã do século
sangue na aurora


 
A HORA CINZA

SEMENTE

renascerá a hora cinza
em que é preciso viver
submerso


MAIS QUE PRETÉRITO

é preciso conquistar a cidade
ressuscitar meu avô
ele distribuirá carambolas e abius a todos
o bonde nos mostrará os trilhos
o motorneiro virá
à varanda para a assembléia geral
onde se discute o novo equilíbrio
entre o quintal e a rua

dentro da casa precisaremos pedir licença aos pássaros
a casa será uma passangem entre o quintal e a rua
meu avô ficará na cadeira preferida
com o sorriso de sua última fotografia
que não conhecemos

reconstruiremos a cidade térrea
com quartos para todos
meu avô distribuirá o leite de sua própria mãe
as sementes dos abius e carambolas ressurgirão a terra

é preciso conquistar ampliar a cidade
com o sorriso de sua última fotografia
que não conhecemos


A ÚLTIMA MANHÃ

uma navalha rasgando o véu da manhã
algumas bolhas de sabão que ensinaram às crianças
melodias de pássaros também ensinados
a primeira onda do mar automática
o primeiro jardim público com suas babás
(levo comigo algumas pernas roliças)
nenhuma esperança
e a certeza que já passei alguma vez por aqui
como se escrevesse depois de morto
tudo embaçado torpor por detrás da janela
que nem o sangue dos teus olhos acentuará
alguns homens sugando o sangue das frutas
o alto preço do plasma sanguíneo no começo da feira livre
(e de novo a certeza que já passei alguma vez por esta poesia)
nenhuma navalha rasgando o véu da manhã
algumas bolhas de sabão presas nos bicos das aves
algumas crianças já mortas pela onda automática
pernas roliças boiando sobre o mar
etc etc etc embaçado torpor  bruma
brisa marítima nenhuma lembrança nenhuma certeza mais
nesta manhã total como um espaço em branco
que jamais será preenchido


meu avô arrastando o mar atrás de si
este grande rabo de conchas velhas
as mulheres soterradas que amei
as crianças soterradas que amei
os homens soterrados que amei

lápis dos homens utopia íngreme
Baudelaire Rimbaud
Oswald Augusto Andrade dos Anjos
Murilo Mendes Drumond
Joaquim Aníbal Cardoso Machado
Torquato Neto
uma antologia de surrealistas portugueses
Juan Miró me devolvendo o olho
as últimas palavras do enforcado
produzindo a Sagração da primavera

a estrela da manhã rasgada sobre a mesa
fotografias rotas restos de mar
tiradas pela memória
meu avô dando comida aos pássaros mortos
o grito tenebroso do silêncio

do muro do meu avô
vejo passar os primeiros homens e mulheres
condenados à morte
eles gritam nas sombras da minha página


ORFEU

aqui trago
todos os insetos de tua carne
que me corroem

o impaludismo dos frutos
o veneno final das horas
que me oferecestes
em leito fundo

dele recomeço o mundo
com todos os insetos
com todos os insetos
com todos os insetos
 

agora senta-te
tire do bolso
a chave
que ligue
a linguagem
do teu dia
ao que te resta

agora voe
já és leve
e o que levas
é o mais pesado
que te deixou
o dia

agora andes
és uma cordilheira
uma lagarta
agora és dia
que te deixou
mais pesado

agora que teus pés
e com toda a gravidade
que possa advir
do agora és vôo
podes caminhar
até o parque
e amar o primeiro
homem que encontrares
mesmo sem árvores

podes beber
toda a saliva dos poços
toda esta água parada
todas as árvores caídas
e teu hálito de ossos
e teu vômito de flores
faz renascer
tua lança
contra mim

agora podes:
senta-te sobre mim
andes sobre mim
plante sobre mim
esta árvore dos pântanos
e o dilúvio interno dos mangues

agora fiques
como sempre fostes
junto a mim
tão desprovida
com teu olhar inútil
com tua esperança de unhas
agora fiques
literalmente
ortopedicamente
sobre o colchão de luzes
comigo
com ter ar de folhagem
absorta
linguagem

sempre


REVELAÇÃO

quando meu filho atirou-me sua lança no meio do pensamento
que o sol manchava o mar
a terra rodopiou no seu eixo mudando o nosso caminho
o vermelho escorria-me pela tela da mente
me achei com ele esqueci Copérnico Galileu a física do mar
a ótica das aulas antigas

o espírito quebrou-se
apenas uma onda a mais molhava os nossos sapatos
penetrávamos nas ondas da escuridão
nas vibrações íntimas das aves noturnas de encontro à lua
a lua era nossa mulher (dividíamos a luz)
e falei-lhe que era nossa mãe
perante a lua éramos irmãos
enxergávamos pelo seu lado oculto / pela escuridão da luz

deixando o senso comum das tardes
a lança feria o útero da noite
cravando em seu ovário um navio fantasma
a lua era um pássaro de asas íntimas

revelava-se a cidade submersa
.

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