De como Blossom, o Breve, coloca o ponto final e mostra que nem sempre é de pequeno que se torce o pepino

Sonhos, sonhos, nada mais do que inúteis sonhos onde tudo é forjado, e sequer os consolos são de boa borracha. Penso. E entro em cena como um antibufão de pau mole entraria na sala pós-orgia, depois de mergulhar na falta de assunto e lugares-comuns daquilo que todos pensamos ser o inconsciente selvagem, irrefreável e criativo. 

Que inconsciente, que nada! Nossa cama e nossos ferinos sonhos de amor são repetições entediantes de fantasias surradas, fruto mais de literatura de décima categoria do que propriamente de nossas fantasias, que raramente são tocadas. 

Mas ninguém é culpado do nosso fiasco erótico. Acontece sempre assim, com todos nós: abrimos a boceta de pandora e dentro existem outras bocetas de pandora como imitações de plástico do quê…? De outras imitações da boceta de pandora, tornada um mito inatingível, dolorosamente fora da nossa realidade. 

Ah, mas um dia… Um dia, eu, a Ângela bunduda (ou talvez a Margarida, ou qualquer mulher do mundo) descubro que somos todas sem fausto. Apenas cadelas carentes de nosso próprio desejo, frustradas, sonhando com um novo caralho, o Caralho-Deus que enfim poderá nos converter naquela Deusa que todas queremos ser, na cama e fora dela: a Grande Boceta de Ouro. Para isso, ao menos, serve a péssima literatura erótica veiculada nos desvãos do tédio, penso agora, tombada aqui nesta poltrona fedida de tanto existir. E suspiro profundo como se puxasse todo a lava do Vesúvio pelo meu nariz adentro. 

Pois é quando acontece o estalo, o fragor, a explosão. Lembro, então, bendita literatura pornô de baixo nível, graças a ela lembro de tudo, repentinamente, depois de estar saturada de baboseiras impotentes. O rio, eu no barco, Helmut caído no convés, o lugar… O lugar não importa. Que fosse na Atlântida ou em Marte, seria sempre aquele mesmo barco com duas pessoas. 

Feridos, atrás de um sentido que há muito tínhamos perdido, eu e Helmut. Pobre Helmut! Viéramos até ali para tentar botar nossa vida outra vez em funcionamento, mas o motor que pretendíamos ativar dentro daquele barco perdido num rio qualquer parecia definitivamente sem chispa nem esperança. Eu estava nua, ele nu. Tentáramos todas as posições e todas as fantasias, em vão. 

Foi quando vi o saco de… ah, eram pepinos, o barco que tínhamos alugado comercializava pepinos vendidos em todos os portos do país. 

Pois bem, quando olhei, havia um pepino saindo sordidamente por um furo do saco de estopa. 

Então compreendi tudo, ou melhor, intuí, como se afinal um Deus misericordioso nos tivesse tocado a alma e, através dela, o ponto mais profundo de nossos corpos. 

O ponto mais profundo, pensei, enquanto puxava o pepino à força, e repetindo incessantemente o ponto mais profundo, puxei Helmut pelas pernas, aquele saco vazio que parecia implorar por um pouco de vida, o ponto mais profundo. 

E fiz. Fiz o que Deus teria feito para ressuscitar um homem. Abri-lhe as pernas e, sem pedir licença, meti-lhe o pepino pelo cu adentro. Houve sim um primeiro grito de revolta, e pernas enfurecidas agitando-se no ar. Mas foi só. Helmut nada poderia ter feito além disso. Suas mãos continuavam amarradas ao leme. E foi assim que seu corpo compreendeu tudo e recebeu de novo a chispa da vida. 

Era um pepino enorme, e de repente eu própria fui tocada por uma dúvida banal mas faiscante, enquanto enfiava-o nas profundezas do meu homem: porra, como é que ele agüenta? Levada por uma ligeira sensação de culpa, comecei a tirar o pepino de onde estava espetado. Mas fui paralisada por um grito espasmódico de prazer: “Não tira, sua puta! Enterra mais, enterra tudo e muito mais”. 

Sabem o que é uma deusa? Foi assim que me senti: Deusa. Penetrava o impenetrável, massageava aquilo que nunca tinha merecido um toque, conquistava um terreno jamais invadido. 

Eu era a primeira estupradora daquele homem, e lhe oferecia um prazer nunca sentido. Deus, empurrando e puxando, Deusa, espumando como uma onça brava, brava Deusa, Afrodite que finalmente possuía seu Apolo. 

Foi quando vi uns resquícios de merda no pepino que me ocorreu misturar tudo, definitivamente mesclar em nome do prazer tudo aquilo que nunca devia ter sido separado. 

Puxei Helmut para o meio das minhas pernas, que arreganhei ao máximo, e me aproximei dele como se fosse pousar no meu porto enfim encontrado. Meti na boceta, com gosto e selvageria, a parte de fora do pepino que saía do seu cu, meio manchado de bosta, a bosta que eu tirara do meu adorado Helmut. Estávamos ali engatados, profundeza com profundeza. 

Então, quando ele olhou e viu de esguelha o fruto que nos unia, emitiu comigo, unissonamente, o grito primal, o primeiro grito da inteira criação. Tinham nascido ali um Deus e uma Deusa. 
 

Graças a um delicioso pepino!
 

PS: é o maior pepino tudo que eu digo que é pepino, mesmo que seja pura abobrinha. Red Cat.
14.7.99


entre >>>