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| Negra.
Atraente. Mulher. Boa mulher, por sinal. Marido alemão. Dez anos
de casados. Mas a felicidade sempre precisa lembrar do que não é
feliz para poder ser. Daí o rio volta e meia fazendo a travessia
entre o real e o sonho. No trajeto, todas as fantasias. Medos. Desejos.
Pecados. Burlas. Vontades ocultas. Rebeldias acumuladas. As águas
onde ninguém se banha duas vezes fazendo a necessária limpeza
para dar lugar aos mundos sem fim que habitam a imaginação.
O marido, na sua placidez germânica, confortável porto, sexo
bom, teto seguro, abraço garantido. Mas quem agüenta tanto
final feliz todos os dias? Precisa muito controle e doma interna para aceitar
a felicidade simples como um copo d'água. Volta e meia Margarida
sentia uma vontade ancestral de desafiar o escuro. Queria o imprevisto.
Queria ter medo do demônio. Não o medo passivo, que congela
e embota. Queria testar os limites. Adrenalina. Queria ser elementar. Maniqueísta.
Essa história de entender que o bem contém o mal que contém
o bem e que tudo é uma coisa só, ara! Me deixem ser primária,
pô! Daí as trepadas ensandecidas com ciganos em dentes de
ouro, Maldonados furacões. Daí as escatologias escandalosas
com Freitas, ele, pretenso diabo, ela, Angela, o exercício do fundo
do poço. Daí recepcionistas oportunistas, Alices autofágicas.
Se não fosse o rio e as escapadas sãs das travessias para
o inimaginável, como suportar a felicidade dos seus dias aparentemente
tão iguais, tão normalmente felizes? Parada na porta aberta,
cara a cara com as personagens das suas últimas fugas e antifugas,
Margarida vacila um instante só. Olha para eles. Olha para o marido
real. Olha para eles de novo. E decide. Quer cruzar o caminho do seu rio
com o caminho do rio do seu homem. – Maldonado, Freitas, Angela... este é o Helmut. |
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ilustração de red cat sobre desenho de Overtake |
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