| Baruch Spinoza fala de um sonho em que Margarida caiu... mas todos sabemos que a queda é inevitável. Principalmente a dos outros. |
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| Já
se passavam 32 anos. E também das dez e meia da manhã. Essa
situação era nova (e mesmo nessa lambuzeira em que a deixamos,
ela conseguia perceber isso) em sua vida, que sempre fora marcada pela
absoluta adequação a tudo que lhe fora imposto. Talvez o
leitor considere isso um cliché, mas ela era assim. Juro. Filha
caçula, boa família, educação rígida,
religiosa, casamento. Não... mas também houve os namoricos,
que ninguém é de ferro nem só de pai-nosso.
Seu primeiro foi aos 13, e nunca passava de beijinhos ou da outra dez e meia. Naquela época já se via algo que a distinguia da maioria das outras meninas, nada em seu comportamento ou jeito de ser, mas em seu olhar, sua aura... que bunda. Margarida nunca foi linda.Tinha o famoso algo a mais que todos reconhecem por ninguém saber o que é (a bunda é outro assunto). Sempre teve cabelos longos. Cacheados. Já houve época em que não gostava de ser negra. Mas aceitou. Descobriu as belezas e particularidades de sua raça. Os defeitos também. E ocultou-os para o bem de todos. Casou-se aos 22. E aí mudou bastante sua vida e comportamento. Ele era alemão... por isso ele "gozava gostoso". Não,leitor. Não foi isso que eu quis dizer... Dez anos de casados, e a compatibilidade anatômica afro-ariana era incrível. O desejo também existia. Em doses homeopáticas agora, mas nada que a preocupasse conscientemente. Que o senhor ou senhora me perdoe a digressão, mas acho que nessa altura dos acontecimentos, Margarida merecia um pouco de descanso. Vejamos a cena: cidade grande, hotel, quarto com varanda, marido ao lado. Sonhos com barco num rio de uma paisagem tropical, realidade virtual (um dente de ouro?). Espere um pouco benzinho. Ela precisava andar... pensar... se vestir antes. Droga de campainha. Essa toalha serve, vai... tsc. - Quem é? Silêncio. "Nunca abra a porta para estranhos, querida", era mais um daqueles conselhos que pareciam antiquíssimos. Não seria coisa de outras vidas? A vida é uma só! Abre-se a porta. Cruzam-se olhares. Pensam-se pensamentos. Maldonado (será que ela topa?). Freitas (tomara que ela tope). Ângela (que eu tô fazendo aqui?). Margarida (...).
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