Uma  pequena introspecção feminina pós-ato. rbp leva tudo de novo para o começo.


De como Renata mergulha nas sombras e deixa a história pendurada em um estampido.

Mas o tempo de partir sempre chega e, chegando, levou-lhe o macho (não foi mais do que isso, um macho, um garanhão) e ela, ainda na cama, esperava que os nervos mergulhassem da pele para outros recônditos de seu corpo. Na moleza do sexo satisfeito, se deixava tomar de novo lentamente pela razão (razão?). E a mente desenevoava tentando buscar uma lógica que não há, causa e efeito que justificassem o que não precisa. 

Uma trepada... ora direis, com quantos paus? E eu respondo, com todos os paus e línguas e dedos e coxas e pés. Tudo que roça o corpo e afasta a razão (que razão?) nesta hora vale. 

  
Deixar de lado o tempo e mergulhar no corpo, sentir cada nervo vibrando harmonicamente com uma corda de violão na mão de um bom tocador, a voz cantando árias que se escondem em gemidos e gritos, no rosto o trejeito e a mímica dos esgares que o prazer desperta desde o primeiro toque até o descontrole do orgasmo. Ela era uma artista. 

E a peça acabou. Quem era o macho? Tanto faz, apenas mais um entre tantos, nas cidades que o carrossel da vida a fazia visitar. Agora... despir a fantasia e vestir outra. Voltar à realidade...

Levanta cambaleante e sem escolha começa a obsessiva tarefa de catalogar, classificar, organizar e reorganizar os seus parceiros. Pronto, começou de novo; não é dona dos seus pensamentos. Esse Maldonado lembra o... como é mesmo? Sim! Aquele com um pinto grosso e bom de se pôr na boca, mas não tem a pegada tão forte como a do... Ai, pensamentos meus, uma pausa pode ser? 
Consegue enfim chegar ao banheiro; se olha no espelho e rápido muito rápido num flash preto-e-branco a cena: ela corre levando nas mãos a parte mais linda dele. Sangue quente ainda pingando, sua vulva ainda latejando. Como raio veio, como raio foi. Viu-se de olhos arregalados. O que foi isso?
Deus o que foi, por favor? ... sim, é... lembra agora; aquele filme japonês... mas como, se tinha a lembrança clara do pedaço morno da carne linda nas mãos? Apoiou-se na pia com a sensação de se derreter pelo ralo. O estampido!
Não eram os adolescentes! O revólver quente nas mãos. Preciso jogar, preciso jogar. Corre nua afundando os pés na areia e lança tudo ao rio, tudo ao rio. Está salva e agora pode adormecer à beira d'água que canta com voz trêmula imitando Piaf. Esse rio que corre, corre... essa corrente de elos tão irregulares, para onde a levará?