De como Maneco Dias batiza os personagens em meio a violáceos e vermelhos de um quarto de janelas fechadas.


Alguém teria de abrir a janela. O forte cheiro de sexo tinha de dissipar-se, assim como o pesado e insuportável silêncio. A mão de Maldonado (sim, era esse o nome e se você, leitor, não for lacaniano, não se deixará perturbar por um mero nome; Maldonado, um nome como qualquer outro, ora), a mão de Maldonado, repita-se, jaz sobre a vulva ainda quente de Margarida (sim, Margarida, e daí?).
Ela ouve o leve ressonar do macho conduzi-lo a um sono profundo. Olha, então, para sua própria mão esquerda. Quase não a reconhece. Há algo de insólito na cor violácea das unhas, nos dedos crispados, no incessante tremor do polegar – fazendo reluzir a tênue ponte de sêmen que, precária e provisoriamente, liga-o ao indicador, onde, ironicamente, um pernilongo tenta ingênuo pouso. Não, também não será sua mão que haverá de abrir a janela.
 
Abruptamente, o ar se avermelha. Mas está claro que o fulgor nada mais é que a tradução visual do forte estampido que ela ouve, precedido de um grito lancinante. Logo Margarida percebe ser também falsa a sensação de que participa de um folhetim barato. Os sons, obviamente, são produzidos por adolescentes que brincam na vizinhança.
 
 
Perguntava-se como podia ser uma e ser outra, ser tantas e não ser ninguém, estar tomada e plena diante de si mesma, abandonada ao sentido máximo que da existência já provara.

Ficou por longos minutos mansa, quieta, frente ao vazio do fim da festa bem-celebrada a acolhê-la, de modo que experimentava um daqueles momentos da vida em que nada se reclama nem espera nem deseja.

Cor de Mar vira gata dengosa e mostra o que realmente importa em questão de língua e linguagem.
Pouco depois de entregar-se à petit mort, deixou que lhe viessem os rumores de mundo afora, mas antes que a lua confundisse a nascente de seus gemidos e seus ais – romance é de outro departamento? –, ouviu mais uma vez a voz do homem, a dispersá-la da inércia, da preguiça.

Feito gata dengosa, cadela safada, começou a acariciar-lhe o corpo com os pés, enquanto falava baixinho coisas que nunca ousara antes. Movia-se languidamente e agia como quem reconhecesse estar capturada pelo calor de seu macho. Para ela, isso era liberdade. 

Não permitirei que a palavra "menas" atrapalhe o prazer dos dois. Todo mundo erra. Meu homem – gostoso, tesudo – fala degrais. E já cansou de me dizer que não se fala no telefone mas ao telefone. Há um tempo na vida em que se aprende sobre o caráter possível do que chamamos perfeição: uma bela gozada, dessas que faz bom humor no dia seguinte.

 
Assim, para além do que podia compreender da própria linguagem, a fêmea da nossa história queria língua enrolando língua, em bom português de quatro paredes, de rede pendurada em varanda, água de mar, esconderijos e becos onde se pode deitar e rolar. Queria ouvir e dizer as maiores barbaridades, tudo outra vez.

A chance de novos arrepios, a mão daquele homem apertando-lhe as pernas e pedindo-lhe que fosse beijado, abraçado, invadido, mamado, de todas as maneiras, anunciavam que ainda não era tempo de partirem...