De como Zuca resgata a voz e a intimidade de uma heroína quase perdida


Anjinho, meu amor, mergulha dentro de
mim até chegar ao afeto de mim, no hálito que invade esse quarto e sustenta o sangue, o sal e os grãos da nossa história. Porque nada é eterno, mergulha agora no meu olhar andante e rouba minhas paisagens também, meu círculo sonoro, meu Schubert e o meu consentimento. Amo você porque suas latências precedem seu corpo. Mais que nunca necessito dessas pulsações para seguir vivendo nesse abschleppen kantiano, nesse atentado ao pudor, úmido e peludo. Fecha a cortina e fica olhando a devassidão através de mim. Essa mulher que você vê e que tem sua verga envolvida pelos lábios mornos sou eu mesma. Que lhe rouba dos lábios o instante do frêmito, o intervalado das emoções, sou eu mesma. E respira e se esforça para não sucumbir ao esguicho perolado que corre na minha face, sou eu. Me dá um beijo anjinho, e afasta de vez a memória muda da minha consistência básica. Não, não afasta porra nenhuma. Deixa esse fluído escorrer pelos espaços abandonados do meu corpo, por entre os meus orifícios ásperos, em tudo, para depois eu me espraiar em você. Assim é que tem de ser. Assustado? Não liga não, isso é vício de amor e que em nós não se esgota. E fica e dura uma eternidade oblíqua e profana e fudida. Nessas horas o meu tema predileto é qualquer coisa que possa subir pelas paredes do quarto e existir; ardências e fragmentos atingindo tudo e a todos despudoradamente, isso é que me interessa.

puxe a cortina, tem mais uma>>>>