De como Gravata se encanta com o Freitas
 e faz uma salada no café da manhã.





Freitas era mais um na multidão. Freitas era tão mais um, que o era em qualquer multidão. Aliás, todos nós conhecemos um Freitas. Aquele cara que some em boates, que desaparece em praias, que tem a cara dos figurantes do álbum “Onde Está Wally”. 

Ninguém, contudo, sabe das poucas e boas (muitas e ótimas) pelas quais o dito cujo passou. Lembro-me dela como se fosse ontem. Aliás, tenho dúvidas se não foi ontem. Ângela... Que, definitivamente, não era um anjo... E Freitas, dono de pensamentos muito mais individualizados que seu aspecto físico, seguia em seu devaneio nostálgico. Ângela é uma daquelas pessoas em que o nome corresponde exatamente ao oposto do que a pessoa é. Porque sempre vimos aqueles vigias com o nome Guarita, ou então enfermeiras chamadas Socorro. Mas, engraçado mesmo, é reconhecer o diabo pelo nome Ângela. Ele se lembrou da vez em que saíram pela primeira vez. Seus olhos pareciam me devorar, aqueles olhos... E ela disse, no meio do jantar: vamos sair daqui. Vamos para outro lugar. Eu não queria que gastássemos todo nosso romance em uma só noite, mas Ângela não postergava prazer. Seus pés subiram pelas minhas pernas, confesso que achei meio cafona, mas não deixou de ser gostoso. Freitas recorda-se da cena: Faço agora! Não quer me levar daqui, eu faço agora! Tentava ponderar com o pé direito da moça sobre seu pau. Ela não pode passar disso. Então Ângela colocou o outro pé no mesmo local, e tentou abrir a braguilha, mas foi em vão. Isso está ficando ridículo! A paciência dele frente à imperícia da garota (pensando melhor, seria demais se ela conseguisse) foi se esgotando. Além de tudo os pés dela estavam gelados. Definitivamente, Freitas tomou uma decisão. Vamos sair daqui! Foram para um Motel daqueles que tem uma puta cara de Motel. O chamado “motel na cara dura”.  No quarto, quando ele começava seu ritual de tirar a roupa e dar uma lavada nas orelhas, Ângela pulou sobre seu corpo dizendo: quero você inteiro.
Foi uma noite de volúpia. Quase total. Não se entra em detalhes quanto algo é indescritível. Um ato, contudo, merece uma tentativa de descrição. Em dado momento, já após a terceira, a quarta, a segunda ou a primeira, ela lhe disse quero algo diferente. Para Freitas, diferente era ir a um Motel no primeiro encontro. 

Só restava perguntar e o que você quer. Fetiche. Que fetiche. Quero beijar seus pés. Quero mais que isso. Peça tudo, tudo. Quero sua chuva dourada. Ele, em suas épocas de masturbação juvenil, adquirira um conhecimento invejável do jargão pornográfico. 

Sabia muito bem o que significava aquilo. Teve nojo, mas gostou da idéia deve ser bom desde que ela não queira comigo. Colocou-se de pé, e apontou para a cara de Ângela, que abria a boca com um inusitado e realmente estranho prazer. Ele errou a pontaria e acertou o abajur, provocando um curto circuito, que fez queimar a lâmpada. Mas Freitas sabia consertar uma situação. Querida, isso deixou o clima mais romântico. Para Ângela, a noite não tinha fim, agora ela queria algo mais forte, mais pesado, e por que não dizer mais sólido. Ela pediu de um jeito estranho, mas ele logo reconheceu a prática. Coprofagia. Acho bem esquisitão, mas foi lá. Colocou-se quase agachado, tomando o devido cuidado para não errar a pontaria. Após alguns puns, saiu o primeiro tolete, o segundo, e tantos outros.Ela começou a tossir e tiveram que lavar-lhe o rosto às pressas.  Definitivamente, grifo do narrador, alguns fetiches são para quem, antes de ser corajoso, não tem senso de humor.

 Sua cabeça era pura nostalgia. Ângela sempre passeava em seu pensamento. Foi algo acima do bom e do ruim, foi algo que ficou. Foi interrompido, notou que chamavam por ele. Tratou de comer o resto do croissant, e respondeu já vou, já vou, deixa eu pegar minha xícara que já me sento com vocês. Puta merda, ela é a cara da Ângela.

imagem: Overtake, 
especialmente
para a corrente erótica