De como Red Cat inicia a história criando uma personagem distraída e uma cena nem um pouco inusitada.

Acordou devagarinho, ainda com uma réstia de sonho diante das retinas. Era uma selva, um rio, um barquinho frágil levado pela corredeira... Alguém indo embora, sem acenos, apenas indo, indo, indo. Abriu os olhos e a mata sumiu, o cheiro de plantas, o ar morno e tropical. Em vez disso, apenas o zumbido do ar-condicionado, as duas camas gêmeas, os móveis impessoais do quarto de hotel. Tinha de se levantar e sair, seria um longo dia. Tinha sobretudo de esquecer aquele barco indo indo indo...
Pulou da cama, sentindo o grosso carpete sob os pés nus, abriu a janela, espreguiçou-se ante a paisagem ensandecida da metrópole. Só então percebeu no terraço ao lado a presença de alguém. Levou dois segundos para se lembrar de que estava nua, mas então era tarde demais. Viu que o sujeito a olhava embevecido, mãos apoiadas no parapeito, o corpo ligeiramente encurvado.
Merda, pensou. O terraço era de uma das suítes da outra ala. O que significava alguém hospedado no mesmo hotel.

De como Noel pega a batata quente e transfere o enredo para o restaurante.

Se a idéia de encontrar com o tal hóspede nos corredores, ou no salão de café-da-manhã, lhe pareceu, a princípio, desagradável, transformou-se em excitante tão pouco tempo depois que o desconforto sumiu por um segundo. 
Piscou os olhos, com a consciência de ter piscado os olhos, sorriu e entrou.... precisava apressar-se.
Tomou uma ducha rápida, sem molhar os cabelos, manteria um certo desalinho, escovou os dentes, vestiu um roupão, e foi , o mais rápido que pôde até a janela, avistar a varanda do lado... claro que ele já teria ido embora, mas ela podia tentar identificar o número do quarto pela posição da varanda...
Respirou um vento fresco que vinha de algum lugar, perto do mar, um vento vindo, vindo, vindo, como um barco a entrar pelas narinas.... vestiu-se. Desceu.
Tempo certinho.
Ela aproximou-se da mesa onde ele estava com mais dois senhores e disse:
– Desculpa o mau jeito...

De como Rô não perde a oportunidade de inverter o ponto de vista e dá uma bela espiada de alto a baixo e de baixo a alto na incauta heroína.

Foi dificil reconhecê-la, assim toda vestida… Um momento de hesitação, e a lembrança daquela surpresa depois da noite de sono mal-dormida, da visão dos seios deixados à vista na sacada, e do tentar imaginar a textura daquela pele molhada de um suor amanhecido, aos poucos conseguiu ouvir as palavras dela: – Desculpa o mau jeito… – Tem nada, não, acontece… – disse ele levantando os olhos pouco a pouco, de onde haviam estado fixadamente detidos até então, próximos da blusa que agora escondia os seios mas não conseguia encobrir a respiração dificil de quem disfarçava com as desculpas um desejo enorme de se sentir inteira mulher… As fantasias que agora lhe vinham à cabeça turvavam-lhe a visão, e ela parecia ainda mais linda, mais perfeita. – Desculpe, mas me pegou de surpresa – continuou, recobrando a consciência por um momento. – Por isso demorei a responder, quer se sentar? Um bom café da manhã fará com que comecemos bem o dia, não acha?

Borges entra em cena pra realizar seu tipo ideal de cafajeste, com direito até a dente de ouro.

Sentados à mesa, ela avalia o homem. Unhas manicuradas, esmalte incolor. Mau. Terno caro, evidentemente comprado pronto, as mangas um tantinho mais compridas do que deviam ser, enchimento demais nos ombros. Gravata de seda pura, com estamparia tendendo levemente para o horrível. Gostaria de olhar as meias, mas como?
Ele tem uns olhos francos, de quem diz a verdade, olhos que desmentem o bigode preto e espesso. É bem-falante, articulado, mas diz “menas”. Subiu rápido na vida, com muito esforço, e nem sempre jogando limpo. Gosta de si mesmo.
Há um momento em ele diz alguma coisa que ela não chega a ouvir, e ri com gosto, um riso de menino, deixando faiscar o pré-molar de ouro. Aquilo a surpreende e excita como se ele houvesse dito uma obscenidade. Por todo o tempo que se segue, ela se deixa levar pelo estigma cafajeste, que já não se vê, mas que está ali, gritando, chamando-a vaca e piranha, rasgando sua roupa, bolinando-a. O fascínio a transporta. Ao mesmo tempo em que a surpreende a cumplicidade com aquele despudor, sente queimar o baixo-ventre na evocação obsessiva daquele escândalo que sua mente faz voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar.

De como .lily pega o enredo e o leva com firmeza em direção ao tema, retocando a paisagem com cores tropicais, ao som de Edith Piaf.

E volta o rio à sua mente. Ela se transporta àquele quarto de pousada, uma só cama, um só corpo... e o azul-negro da chuva dos trópicos entrando pelas janelas a embalá-los no grito infinito do amor proibido. Volta àquela margem, simultaneamente final e começo do mundo. O grau-zero das suas vidas: je commence avec toi, a voz de Piaf ressoando ainda no ar daquelas tardes. 
O exotismo da paisagem os emoldurava, o aroma de frutos ácidos confundia-se, na boca, ao gosto acre da pele. Havia estranhos ritos nas mãos e eles colhiam gemidos. Amavam-se ali, no cálice das flores, nos quadros de Gauguin, na praia marron de areia fina, sentindo o rio na sua deságua... Ali, a liberdade das cores os embriagava, misturando-os. Ah, todo aquele verde a tonteia, a chuva não pára, ela pinga na sua alma, inunda-a, escorre pelas veias. O céu pesado, despencando e ela cai com ele, misturando-se à terra. Ah, a sua boca, a sensualidade da língua refletida na palavra murmurada, suave, perfeita, estonteante.
– Não, eu lamento, e é isso o impossível, é isso que me acaba! – Ouve, alto, o som de sua voz.
À sua frente, o desconhecido, sério, examina seus olhos, curiosamente.

De como Tião, o sensato, não se deixa rolar rio abaixo e traz a personagem de volta à mesa do café.

É aí que ela começa a sentir o absurdo da situação: um hotel estranho, em uma cidade estranha, se forçando a se interessar por um estranho, se comportando de um modo estranho. O desejo de se aventurar, de se fazer diferente do que era, a obrigação auto imposta de ser outra pessoa, negando a si mesma. E aquele sujeito tão obviamente despudorado, despreparado, desalinhado, tão óbvio, aparecia na sua frente, e ela se permitia ser encantada, assim, sem mais nem menos? Nem a idéia que rolava no fundo de sua mente, de que alguma química entre eles funcionaria maravilhosamente ou, pelo contrário, de que ele se esforçava tanto para ser “másculo” que dava para desconfiar daquelas unhas e daquele bigode, poderia devolver o encanto, a excitação com que saíra de seu quarto imaginando cenários e situações maravilhosamente loucas.
 Estava se dando conta, tardiamente, de que estava alí por causa do barquinho do seu sonho, daquela floresta. Estava alí fugindo de e ao mesmo tempo fugindo para aquele sonho...

E eis que entra em cena babylee, a bruxa, e bota os pontos nos is, o tema no conto, o conto na trilha.

Colocou-o imediatamente no sonho. Do ponto em que estava, já não podia mais retroceder. Seu corpo mostrava os efeitos da fantasia.
Aquele homem devorava com os olhos os seus seios, deixados deliberadamente à mostra sob a blusa transparente.
Quem seria aquele ele, que agora enfiava a mão na mantegueira para depois lamber os dedos, um a um, olhando-a fixamente nos olhos?
Transportou-o para a floresta, para o barco, um cenário que melhor condizia coma sua aparência. O cigano no barco era perfeito.
Nem ouviam o que os outros dois senhores diziam.
Por um momento voltou à realidade, e percebeu que repetia o gesto do homem, alisando o açúcar do confeito sobre a mesa e lambendo os dedos, freneticamente.
Viu, então, os efeitos daqueles movimentos no corpo do homem sentado ao seu lado.
a imagem de abertura foi presente de um devasso anônimo
as imagens sobre fundo claro são de Velox
as coloridas sobre fundo escuro foram enviadas por mail pela Milly, são assinadas por Aslay, e foram trabalhadas por red cat
a última foto em p x b foi roubada por red cat de um site pornô
esta página foi feita por red cat
a história continua...