O BAR

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Interessante é que estava mesmo montado o cenário.  Reparei logo que a armação era completa, de tal modo como nunca tinha visto nada igual até então.  Parecia coisa-feita.  Evidente que a mágica estava sendo desencadeada.  Tudo e todos estavam ali.  Completo, sem faltar nada.

Meningite já havia anotado em seu controle o fornecimento para nossa mesa de dezenove garrafas de cerveja, três tubos de aguardente e trinta e sete rolinhas fritas.  Como sempre, demos-lhe um trabalho enorme, em meio a uma galhofa com a qual ele fingia se importar.

E em nosso inventário, àquela altura em que a Serenata se aproximava, estavam contabilizadas para mais de mil e doze saudades, trinta e seis casos de ciúmes, seiscentas e tantas histórias de corno e um número impossível de ser escriturado de pequenas frustrações, grandes paixões e sonhos de média intensidade.

O universo inteiro, do burgo e de nós mesmos, era a grande matéria da nossa ocupação e dos nossos cuidados.  Nada escapava à ferina vigilância que sobre as coisas e as pessoas exercíamos.  Mas, do que mais nos ocupamos naquela noite foi de nossas próprias vidas.

Quem menos disse, mais e mais se esmerou em seu relato, de sorte que não havia um só na roda que não tivesse dado notícias de si e de seus projetos.  Os projetos que não se tinham concretizados e os que não se iam concretizar.  Dissemos de quase todas as nossas ansiedades e angústias, sem quaisquer reservas ou constrangimentos, como acontecia sempre que nos juntávamos para beber.  Esta solidariedade e esta identificação é que nos faziam sermos vistos pelas outras pessoas como um grupo fechado e muito unido.
Olhe que não restou ninguém que não houvesse tido a sua vez!  Todos disseram de si e, em alguns casos, dos outros também.

Eu mesmo já havia dito do tanto que era encabulado por não ter mais aquela vibração dos dias antigos para torcer pelo cordão encarnado; de ter perdido a oportunidade de pilotar um avião pelos ares, de não ter feito carreira nos encantamentos da profissão de camelô, ou de Velho de pastoril, de ter ficado safado demais para quem foi criado no catecismo e de não ser cego dos dois olhos para, assim, tocar com sentimento uma sanfona pelas feiras do Agreste.
E só não disse mais, porque de outras coisas não me lembrei no momento.  Como sempre, todos escutaram com atenção e respeito, do mesmo modo que com respeito e atenção eu ouvia as conversas de todos os outros.

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Tudo era possível no interior do Bar e no encompridado da nossa conversa.  Porque uma vez desencadeado o processo, só uma inabilidade - que eu vigiava para não cometer - seria capaz de detê-lo.  Mas as coisas corriam serenamente, dentro dos planos do destino e sem qualquer atropelo digno de registro.  Ia, assim, cumprindo corretamente a minha parte, com uma normalidade que chegava a me surpreender.

De tal sorte tudo era possível que Amigo Velho inventariou as suas três últimas crises de hemorróidas e detalhou o método que desenvolvera para fazê-las recolher: quando estavam expostas e bem irritadas, ficava de cócoras e, de repente e com coragem, esfregava-as com mertiolato, obrigando-as a contraírem-se e esconderem-se onde de direito.  Fez uma careta para bem traduzir a dor que sentia.  Ficamos todos comovidos com tamanho sofrimento.  "E logo onde........ gemeu Péde-Quilo. "Arde demais", informou Amigo Velho, conformado e heróico.  "É feito lombriga?", perguntou alguém.  Amigo Velho esclareceu que eram vasos, e, a seguir, Agapito começou a mangar de Meningite, fazendo com que o garçom viesse até a mesa e afirmasse que se a gente soubesse o quanto era triste a história do seu nascimento, criação e vida, era bem provável que se tivesse pena de sua sina e não se ficasse - como estava acontecendo - com empulhações e galhofas relativamente a sua pessoa.

As palavras do garçom nos deixaram apreensivos e curiosos, fazendo-nos deitar olhares interrogativos uns para os outros.  Teríamos que decifrar aquele mistério.

"A mais triste das tristes sinas".  Os ares do Bar ficaram pesados.  Tão pesados quanto os ares que surgiam nos finais das tardes chuvosas.  Os tormentos que Meningite trazia no peito deviam ser de tanta monta que ficamos todos com uma ponta de remorso pelas mangações que habitualmente lhe dirigíamos.

"A mais triste das tristes sinas", tornou a repetir, dessa vez nos encarando de frente e nos deixando perceber o brilho forte que as lágrimas punham em seus olhos.  Sua figura estava de cortar o coração, tão transparentes eram sua dor e seu desespero.  E isso nos causou um grande arrependimento e uma grande tristeza, de tal modo intensa e de tal modo sincera que passamos mais de meia hora em silêncio.

Voltamos a nos sentar à mesa, bebendo cerveja e aguardente e mastigando rolinhas.  Ninguém ousava dizer qualquer coisa, tão grande era o constrangimento em que estávamos metidos.  Alguns aproveitaram a pausa inesperada para ir ao banheiro.  Outros se levantaram e foram até a porta respirar um pouco do ar fresco da noite.  Eu continuei sentado, tramando e pressentindo, fundamente tocado pelo barulho dos soluços, que iam diminuindo com a permanência do nosso mutismo.

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Meningite trouxe garrafas cheias, recolheu as vazias e encheu novamente o prato de tira-gosto.  Trabalhava com rapidez e aparentava ter superado o incidente.  Em seu rosto não havia vestígios de que tinha acabado de sofrer uma grande contrariedade.

Pusemo-nos a agir conforme e tocamos em frente, com toda a naturalidade que era possível naqueles instantes.  Procurava-se recuperar o tempo e apagar o constrangimento em que o doloroso hiato nos deixara.
Após a pausa cheia de dó, era como se não tivesse ocorrido qualquer interrupção na conversa.  Verdadeiramente, alguns minutos após, nenhum de nós tinha lembranças do incidente, e todos tentavam, com muito empenho, aprumar a conversa.  Pode-se dizer que havia uma disputa pelo início de um novo assunto, cada um tentando impor o seu enredo aos demais.  Uma disputa saudável e muito rica, que fez aumentar em vários graus a qualidade alta de energia e de vida que transbordava do grupo.

Assim, da ponta da mesa, a voz cortante de Tota - que era cego de um olho - começou a descrever o que se passava em sua cabeça quando abria o olho são e levantava a cara para o sol.  Seu empenho sobrepôs-se às demais vozes e todos nós fizemos silêncio para ouvi-lo detalhar aquela singular atividade.  Afirmou que a hora melhor para isso era o meio-dia e que procedia assim sempre que algum aperreio se instalava em seu juízo.  Tudo sob os protestos veementes da mãe, que via naquilo um passo certo para a cegueira total.

Levantou-se da mesa, cercado do nosso silêncio, e mostrou fielmente a posição em que ficava, enquanto falava gritado, noticiando o que enxergava quando daquela maneira agia.  Alguns viraram as cadeiras para melhor se posicionar e, assim, não perder um só detalhe do espetáculo.  Meningite saiu de trás do balcão e colocou-se em frente à nossa mesa.  Uma curiosidade respeitosa possuiu todo o grupo, enquanto Tota trabalhava a função.

Descreveu, pintou, disse e redisse, gesticulou com as mãos e modulou a voz conforme o trecho que descrevia.  Concentrou-se com a maior seriedade de que dispunha, interpretando-se a si mesmo e esforçando-se demais para nos transmitir a sua mensagem.

E isso tão eloqüentemente, que os ares do Bar como que foram se enchendo de fitas boninas, chuvas de confetes prateados, riscos de arco-íris, trajetórias de serpentinas encarnadas, cintilações miúdas de espelhinhos, espoucares de vaga-lumes, piscares de estrelinhas juninas, coloração de fogos de artifício, quadriculados de balões, azulados de estouros de bomba, labaredas de fogareiros a álcool e, sobretudo, a cor abrasadora do fogo que arrasa os canaviais, desde a base até o cume dos montes.

Boi Brabo encheu as vistas e perdeu a compostura de adulto, passando a bater palmas como uma criança.  Abano soltou um suspiro fundo e, sentimental como sempre foi, deixou escapar uma lágrima que fez um rastro brilhoso em sua face.  Amigo Velho e Pé-de-Quilo riam tão puramente quanto dois meninos recebendo presentes.

Com pouco, todos nós estávamos com a pele brilhando e piscando, conseqüência daquelas claridades que boiavam nos ares do Bar.  O espetáculo era bonito demais, e ninguém ficou imune ao seu contágio.  Alguém apagou as luzes, e as cores ficaram realçadas, ganhando em beleza e suavidade. Tudo o que Tota disse que via se fez presente e pôde ser enxergado pelas nossas vistas.  E vimos mais, muito mais, como se estivéssemos presenciando as evoluções de um caleidoscópio, por via do tanto que era grande a capacidade daquelas cores e daquelas formas se irem combinando e se multiplicando até o infinito.

A partir de determinado momento, cada um de nós passou, também, a enxergar o modo como os demais viam o espetáculo.  E, como cada um via de um modo diferente, a explosão de cores e de formas não mais coube no interior do Bar, e foi se despejando pela rua, até alcançar a parede lateral do mercado....
 
 

(trecho  do livro A serenata - Luiz Berto Filho)
ilustrações de Jô Oliveira

 
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