![]() |
|
Ele precisava saber de tudo, pôr um fim àquela dúvida angustiante. Já era madrugada. Olhei a cidade de ponta a ponta e senti um nó apertando meu peito. Era bonito demais! O terraço no 17o andar me punha no teto do mundo, São Paulo a meus pés, a silhueta irregular dos prédios recortada contra a noite azul-marinho. As poucas luzes que ainda brilhavam nas janelas confundiam-se com os néons e os vermelhos e os azuis de imensos out-doors. A lógica do mundo invertia-se em minha cabeça. Eu sentia Lauro me observar. Debrucei-me no parapeito, o cigarro se apagando entre os dedos. Ouvi quando ele retornou à sala e a deixou em penumbra. O lamento de um saxofone invadiu o espaço que me separava dele. Sentia-me confuso, embora não houvesse angústia. Como foi que tudo começou? Lembrei-me do dia em que conheci Lauro... A festa estava no auge. O calor sufocante levou-me a abrir caminho entre os que dançavam na sala e fui procurar uma cerveja na cozinha. Fiquei por ali, esticando o papo, bebendo. Foi assim que nos vimos. Os olhos de Lauro tinham um jeito arrogante de medir-me dos pés à cabeça enquanto Márcia nos apresentava: — Este é Lauro, meu companheiro. Lauro, este é um amigo. Pouco nos falamos.
A conversa girava circular como um carrossel, subindo e descendo; dissecávamos
tudo e nada, das grandes tragédias à mesquinhez dos dias.
Márcia brilhava, como sempre. Lauro, em silêncio num canto,
acompanhava tudo com os olhos ágeis. Sempre que me virava, lá
estava, os cabelos negros e crespos, emoldurando um rosto estranho, que
não se desviava de mim. Esse mesmo rosto que eu via agora.
As lembranças vinham fortes, trazendo à tona toda a verdade Acendi outro cigarro e fui esticar-me nas almofadas. Lauro estendeu-me a mão e fingi não o ver. Faltavam algumas peças no quebra-cabeças. Tentava pensar, enquanto meu corpo começava a arder, insuportável. Antes precisava reconstruir meu espelho e reconhecer sua verdade. Fechei os olhos, mergulhando inteiro nas ondas que o sax traçava no ar. E foi o rosto de Márcia que se desenhou em minha lembrança. O sorriso de Márcia. Não saberia dizer quando o notei pela primeira vez, aquele riso inquieto, de quem domina e seduz. Começamos a sair depois de seu rompimento com Lauro. Márcia ansiosa, carente, faminta. Mergulhando em meus braços, incapaz de pronunciar as palavras que eu sabia presas em sua garganta. Nossa primeira noite de amor e sufoco, nossas primeiras descobertas de vôo e queda. Márcia tinha um jeito de franzir a testa e apertar os olhos quando alguma coisa mordia fundo. Márcia dizendo entre os dentes: Odeio a palavra "relações". Me lembra "relar", não é fundo, apenas raspa a superfície do lago... Por que as pessoas não dizem "ligações"? Márcia estirando-se na cama como uma gata ou adormecendo agarrada em mim, como se pudesse me perder. Márcia, que me chamava de "coração" quando iniciava a longa rota de ternura que me punha o corpo em brasas. E, depois, Márcia acompanhando minhas longas, intermináveis discussões com Lauro, aquelas conversas nebulosas, onde o desafio ia e vinha, onde às vezes era eu, às vezes ele, o primeiro a pular fora. Os olhos escuros de Márcia presos ao movimento de nossas bocas, as mãos nervosas sempre ocupadas em enrolar uma ponta da toalha ou em destroçar uma caixa de fósforos... Muitas vezes era Márcia a nos conduzir para casa, abraçada aos dois, indicando segura o caminho que mal conseguíamos ver, confundidos com muita coisa a mais que álcool... Ah... o sorriso de Márcia. Como sabia usá-lo, como entendia sua força em fazer-me voltar a seus braços após minhas longas noites de angústia inexplicável... Quanto tempo ele estava em silêncio? Virei-me para Lauro: — Por que Márcia te deixou? — Minha voz estalou como madeira quebrando. Lauro custou a responder. Seus dedos trançaram o cabelo, parecendo medir o que diria. — Fui eu — disse, enfim — eu a deixei. Depois do aborto, algo se desfez. Começou uma tensão, um silêncio áspero... — Você queria o filho? — Não sei — disse ele — não sei... Na época concordei com toda a lógica implacável que ela desfiou... Mas, no fundo, não tive muita chance de optar, você entende? Então fomos nos deixando, acabei indo embora... Ah! Mas por que falar nisso, agora? — Comecei a pensar nela — respondi. — Nela, em nós... — Olhei de novo a cidade. E a idéia de que Márcia fora a primeira a perceber me gelou o corpo, me deixou sem fôlego. Não pude mais segurar a memória. As lembranças vinham fortes demais. Vivas, claras na minha cabeça. Reencontrei Lauro quando eu já vivia com Márcia. Em outra festa, nós dois sozinhos. O sorriso e o olhar de Lauro ainda eram os mesmos, mas havia algo novo. Um passo elástico, uma leveza nos ombros... Senti uma súbita ternura ao pensar que ali bem caberia um par de asas. Não pudemos mais nos afastar. Saíamos constantemente, percorrendo bares pelas noites de São Paulo. Desfilávamos histórias sem fim, em nossa ânsia de mais e mais penetrar no mistério que nos cercava. E foi se delineando entre nós aquela linguagem cifrada, as metáforas, a cumplicidade. Sobretudo, a cumplicidade. Em nunca formular palavras que pudessem definir o que preferíamos ambíguo. Às vezes Márcia junto. Mas nunca tínhamos sido um trio. Márcia fora uma ponte e percebera isso antes mesmo de nós dois. (Márcia pintando os lábios frente ao espelho, sabendo que eu não podia desviar os olhos. Depois vinha, me beijava cuidadosa, imprimindo o batom em minha boca, como um destino, como... Ah, Márcia.) Lauro afastou-se de mim, talvez sentindo, como eu, que tudo vinha inevitavelmente à tona. — Márcia sabia — murmurei. Percebi muito bem a dimensão de minhas palavras. Até ali, nada fora dito ainda. Como dizer, se tínhamos aprendido a nos devorar na segurança da fantasia, do ir e não ir, do querer e negar-se a querer? Eu jogara a cartada decisiva. Tudo estava nas
mãos de Lauro. Ele desligou bruscamente o som e acendeu as luzes.
Encarou-me de frente, com seus intensos, doces, implacáveis olhos
verdes. Fui eu a estender-lhe a mão. Sorrimos, ao mesmo tempo. E
comecei a entender o que mais me fascinara em Márcia. Ela sorria
como Lauro.
—————————————————————— publicado em Carícia nº 111 / janeiro 1983 |
|
|
|
|
|
|