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Não sei como deixei
escapar
este sonho do meu peito.
Vivia prisioneiro do
meu medo,
não sabia ser
livre e se perdeu.
Nos longes destas noites
de segredo,
pergunto às rimas:
este canto é vida?
O eco repete, ó
ninfa,
o som do adeus.
Ensina-me, ainda é
tempo de morrer...
.
(Fotografia
segundo Roland Barthes)
Eu desejo uma história
dos olhares
De mim mesma acontecendo
como outrora.
Ouvindo o murmúrio
do tempo,
Renasço, revivo-me:
sou essência.
A consciência dissocia
a identidade.
Imito-me e forço
os meus falares,
Quando me olho uma tela
sem verdade,
Na profunda loucura da
aparência.
.
Um momento diamante de
ternura
Revela a vida que existe
na saudade
Nas eternas armadilhas
da verdade
Que se agita nas carícias
dos segredos.
Eu quero o canto, amiga,
o seu desvelo
Quero o passado, o vibrar
da minha pele
Ao toque de veludo das
mãos dele
E volta sempre a pedra
opaca da amargura.
.
Amar é esquecer-se
para o outro.
É a procura da
alma nos sentidos.
É sentir que a
liberdade está perdida,
Nos longes de uma eterna
despedida
Amar é esperar
pelo passado
Que se perde no reverso
das estrelas.
E, se a memória
do tempo é desventura,
A vida é traço
de palavra impura.
.
São mãos
as tuas palavras insensatas
Que tocam reticências
entre beijos.
São lábios
esses silêncios delicados
Que sopram existências
e desejos.
Neste hiato do nosso desencontro,
No infinito cego de nenhum
dizer,
Sinto a pausa dos olhares,
a órbita vazia,
A chaga aberta de um
entardecer...
.
"...à l'ombre
de nous restera
toujours un goût
d'eternité..."
Nas cercanias da minha
saudade,
Um céu flamingo
paira sobre o rio.
Eu tinjo o sonho na cor
da verdade
E teço estrelas
nuas, fio a fio...
Ficas nas dobras deste
pensamento
Como uma pétala
desfolhada e nua.
Enquanto a tarde sopra
o seu lamento,
Cai a lembrança
de que já fui tua...
.
Poeira da manhã
tão rosa e fina
desses cantos e pios
no longe d’alma.
Um céu de névoa
esfria esses pensares.
Espero a hora da cantiga
nos deslizes dos segredos.
Olhos querem o repouso
das existências pálidas.
Soidão de umbrais.
Somente teus dizeres permanecem...
.
Se eu te disser que a
água brilha e morre
em som exangue onde o
céu descora.
Se eu te mostrar que
atrás daquela ilha,
o sol se mata sem nenhum
suspiro,
e o sacrifício
mudo das estrelas
nas ondas falsas de um
rio que chora,
tu voltarias desta nuvem
antiga,
me envolverias com teus
olhos tristes.
Talvez sorrisses no perfil
da tarde.
Talvez lembrasses de
que a vida existe.
.
E na curva da madrugada
com a manhã
Encosto meu cansaço.
Adivinho o pio dos primeiros
clarões,
Revejo o encontro da
alvorada.
É o momento dos
gemidos e da calma.
Mas da fúria deste
ventre em liberdade,
Do afago deste vento
em línguas d’alma,
Desdobro tréguas,
desenrolo a hora.
Resplandece, na luz de
uma verdade,
O anel de teu abraço.
.
Sempre que através
da névoa do sono
Sinto o aroma de teus
beijos,
Beijo-te em pensamento.
Tanto,
Que meus lábios
se machucam da tua falta
E meus dedos encontram
a ausência dos teus.
Sempre que nessa hora
feita de abandono
Aspiro o segredo dos
desejos,
Sorvo o teu alento.
Tanto,
Que meus olhos se alimentam
de lembrança
E minha’alma esquece
a essência do adeus.
.
Toca sem pudor nestas
palavras
E as toma como um beijo
à tua amada.
Retorce-as ao prazer
de teu desejo
E doma os seus sentidos,
força o mito
Deixa escorrer a dor desses
enganos
Que no silêncio
a verdade se transforma.
O poema inunda a face,
o peito invade
E esta página
dilacera como um grito.
.
Entrego meus suspiros
ao teu nome amado,
Compõe a nossa
canção.
Feita de tréguas
e de ternura louca
De cílios se tocando
E de devassidão.
Se deixo meus anseios
assim aos teus cuidados,
Compõe a nossa
canção.
Tecida de espumas e de
ondas roucas,
Cantigas de ninar menino
E preces de paixão.
.
Estendo-me na lua-rede
do teu céu.
E balanço na maré-morena
da tua ânsia.
Desfaço-me em
espumas na praia do teu corpo.
Vivo em ondas o infinito
que me traga.
E no debrum da areia
uma rósea concha
aberta espera o refluir
da vaga. |