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PARA
NÃO OXIDAR ORQUÍDEAS
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FOI SÓ QUANDO ele começou a roncar e ela relaxou, esticando-se na cama num longo espreguiçar, que percebeu o quanto estivera tensa, ali encolhida, sem ousar um gesto que pudesse atrair-lhe a atenção. Mantivera os olhos no teto, acompanhando o rápido flash do farol de um ou outro carro a espocar na escuridão. Enquanto isso — enquanto esperava que por fim ele adormecesse e a deixasse em paz com o vulcão que lhe assombrava a alma — ficara urdindo planos assassinos, vinganças exemplares. Venenos sutis no conhaque, desses que queimassem lentamente num inferno íntimo e doce sabor de desforra. Reduzir a pedacinhos a coleção de CDs, começando, é claro, pelos importados. Cozinhar trezentos e sessenta e cinco dias do ano o mesmo cardápio, sem uma única mudança sequer, nem mesmo uma pitada de sal a mais. Esconder-lhe as cuecas na gaveta de calcinhas — como ele odiava não encontrar sua sacrossanta ordem como a havia deixado, minúcia por minúcia decorada à espera do vitorioso "quem mexeu aquiiiii!" Ou então, simplesmente pegar o carro e dirigir até as docas, por que não? Sugestão dele, não fora? Parar o primeiro estivador, oferecer-se sem pudores — sem palavras — apenas escancarando o sexo num convite a orgias inimagináveis. Inimagináveis mesmo. Não se excitava nem um pouco ao inventar a cena, ao contrário, o que lhe vinha à cabeça era a imagem de uma triste criatura, rude e inexperiente por ter primeiro de cuidar da sobrevivência e jamais poder desfrutar dos "requintes da carne". E depois, onde seria? No chão lamacento da beira do porto? Num hotelzinho de quinta, iluminado com aquelas deprimentes e soníferas luzinhas vermelhas? Porque, é claro, nenhum estivador poderia oferecer-lhe mais do que isso, a ela, acostumada aos lençóis de cetim e jacuzzis negras dos motéis cinco estrelas. Talvez um tombadilho engordurado, em meio ao pixe e ouvindo o guincho dos ratos... Riu baixinho, agora sem medo — o ronco lhe garantia que o efeito do álcool o manteria em coma pelo menos até o amanhecer — e virou-se na cama, dobrando um joelho e repousando a cabeça no braço. Talvez ele se excitasse trepando com um estivador, um negro de dois por dois com um caralho do tamanho do empire state! Como era estranho esse espécime a quem se acostumara a chamar de marido... Por que ainda insistia em manter-se ali ao lado, naquela convivência sadomasô que a sufocava tanto? Ele se achava o máximo na cama, e ela, com aquela piedade que nunca levava a lugar algum, deixava-o viver na ilusão. Gozava, sim, algumas vezes, mas outras não e aí não lhe custava nada fingir, imitar a si mesma, representar a cena de fêmea que toda mulher conhecia de trás para a frente, praticamente desde o berço. Claro que percebia que ele se negava sempre, jamais chegando ao orgasmo completo; claro que percebia de que se tratava, o narcisismo exacerbado impedindo-o de se revelar e se fragilizar até naquela hora, o momento que teoricamente — teoricamente! — deveria ser o encontro de dois seres. Encontro assim mesmo, sem adjetivo na frente, sem etiquetas, simplesmente combustão em busca do prazer maior. Sabia disso quando se casaram, não sabia? E então viera aquele lento destruir de personalidades, a guerra surda se armando, Felipe enovelando-se em seu tonto machismo e ela... Suspirou exasperada e deitou-se de costas, afastando as cobertas que ele acabara de amontoar em cima dela na brusquidão do sonho bêbado. Por que fora lhe mostrar o texto e entrar naquela conversa de orquídeas? Não era óbvio que iria ouvir o que não queria, confirmar uma vez mais a distância de códigos, a impossibilidade de contato? Mas tinha sido um impulso, algo assim como "Alô, alô, câmbio, fale comigo, ET!..." Lembrou-se de repente da adolescência, o grupinho sempre a deixá-la de lado e curtiu o travo amargo na língua, os quinze anos revividos de supetão, a cruel primeira lição de descobrir-se estranha num mundo estranho. Merda, suspirou. Até quando iria carregar aquela sombra grudada na alma, uma craca sugando sua fome de vida, sua sede de gente? Não era culpa de Felipe, admitiu. Tanto quanto ela, ele também era uma vítima das próprias circunstâncias, dos próprios medos e impossibilidades... Alguém poderia dizer que eram felizes? Felicidade. Chegar ao supermercado e tirar da prateleira as embalagens brilhantes: "Felicidade" "Amor" "Ficaram juntos para sempre". Um quilo de príncipe encantado. Duzentos gramas de bruxa malvada pra usar de tempero. Virou a cabeça e observou o rosto dele, torturado mesmo em meio ao sono. Felipe não tinha de estar ali, partilhando um leito conjugal num casamento que mais parecia o conflito árabe-judeu. Ela sabia. Ele também. Por que continuavam? Uma súbita ternura quase a fez acariciar-lhe o rosto num gesto de mãe, mas se conteve a tempo, sabendo que carinho nenhum diminuiria aquela dor de ser homem num mundo que exigia gigantes. Ele a magoava — sempre — a espezinhava, humilhava, tripudiava. Mas como se tornava transparente em seus silêncios emburrados, no olhar nostálgico posto na janela enquanto ouvia pelos fones suas preciosas sinfonias... Talvez fosse isso, pensou. O que os mantinha juntos era essa semiconsciência de náufragos numa jangada em meio à imensidão do oceano. Não iam embora porque não tinham para onde ir e quando nada mais restasse, um devoraria o outro sem remorsos, o instinto da sobrevivência mais forte do que qualquer grande sentimento de AMOR ou SOLIDARIEDADE. Ela, provavelmente, pois sabia-se a mais esperta, a mais capaz de resistir, a mais imune às porradas da sorte. A mais cruel também. Não hesitaria em destruir Felipe, se disso dependesse sua vida. Sua sobrevida. Pensou de novo no estivador, o negro imenso que seu cérebro construíra naquela hora da briga, naquela hora de palavras afiadas ferindo cegamente. Por que negro?, perguntou-se, um pouco surpresa de se flagrar assim de capuz branco e sede de sangue num remoto sul norte-americano. Passou a mão entre os seios, tirando-a molhada de suor. Como odiava o calor! Levantou-se e foi até a janela, abrindo uma fresta para sentir a brisa da noite. O sono se fora. Ou nem chegara a vir... Num impulso escancarou as venezianas de par em par e debruçou-se, espiando a rua de asfalto, sem graça na ausência de árvores. De novo veio da infância a memória inesperada: o embriagador perfume de jasmins subindo da trepadeira sob o quarto, a terra recém-lavada de chuva, ao longe o barulho das ondas quebrando nos arrecifes. Férias no Brasil, quando ainda morava em LA. E o avô lhe contando a história do cisne, um deus disfarçado seduzindo uma outra Leda... Fora por isso que vivera o resto da vida procurando reconhecer Zeus sob a face dos simples humanos por quem se apaixonara? Era por isso que ainda buscava em Filipe um poder que ele jamais conhecera? "Eu lhe dei esse poder", reconheceu num suspiro. Eu lhe dei o poder de me tornar uma larva. Ficou ali um longo tempo, olhos fechados, deixando que as emoções continuassem em sua corredeira infindável. E então, de súbito, endireitou-se, um riso se formando no canto da boca ante a súbita descoberta. Ora. Voltou devagar para a beirada da cama, olhou longamente para aquele Felipe infeliz, depois se vestiu e saiu na ponta dos pés. Na porta da rua, chegou a erguer o braço para apanhar as chaves, mas então meneou a cabeça e deixou a mão pender ao longo do corpo. Não olhou para trás, não precisava. Fosse o que fosse que ficava — o lago de Leda, o oceano de náufragos, a longa mesa posta com seu cardápio de orquídeas sutilmente oxidadas por Felipe — era tudo uma intrincada ficção que se esfumava no ar com o acender das luzes. E era atrás das luzes que ia, o primeiro nascer do sol, o primeiro vôo das asas recém-descobertas. As luzes do cais. JOHN FITZGERALD KENNEDY SMITH nasceu no dia 22 de novembro de 1961, às 19 horas, num quartinho úmido e sem ventilação de um prédio no Bronx, tendo se anunciado no momento em que sua mãe, com lágrimas nos olhos, acompanhava na TV em plantão permanente o noticiário do assassinato do Presidente. Não houve tempo de se chegar ao hospital, o bebê veio ao mundo de um só golpe e isto se tornou uma constante na posterior existência de JK: tudo que lhe aconteceu chegou assim, como uma lufada de vento, fazendo sua existência adernar para cá e para lá ao sabor de formidáveis coincidências. Cresceu solto nas ruas, conhecendo segredos e aprendendo o que nenhuma outra escola lhe ensinaria: o mundo não se apiedava dos fracos nem dos pobres de espírito; para demarcar um espaço era preciso ter garra. Garra ele sempre teve: já na infância, mesmo com seu porte mirrado, um negrinho de grandes olhos arregalados, não teve nenhuma dificuldade em desbancar o líder da gangue do bairro numa memorável madrugada de verdadeira guerra civil entre os meninos de rua. O negrinho ficou para trás nos anos da adolescência. JK cresceu em altura e largura, ganhando bíceps de causar inveja entre iguais e terror aos demais. Continuou na senda em que enveredara desde quase o berço: era mais fácil ter a carteira recheada de dólares com a colaboração de incautos que não hesitariam em lhe entregar até as cuecas do que pelejar oito horas por dia em troca de míseros cents a que chamavam "salário". Então, JK contava na época seus vinte e poucos anos, o destino o fez topar com um ruivo marinheiro dinamarquês, um ser a seu modo tão estranho quanto aquele blackisbeautiful que jamais deixara as ruas do Bronx. A bem da verdade, JK surpreendera o dito sujeito dormindo de bêbado sob um viaduto, como um presente dos céus para quem naqueles dias não tinha tido muita sorte em suas andanças pelos bolsos alheios. JK não hesitou em revirar as roupas do dinamarquês, e, depois de jogar longe documentos e identidade encontrados no bolso posterior, estava ali, pronto a esvaziar uma carteira gorda e apetitosa, quando sentiu no pulso verdadeira torquês de dedos lhe estralando os ossos. Surpreso, mais pela força insuspeita daquele nórdico corpo esguio do que pela reação inesperada, baixou a guarda e de repente viu-se arremessado a distância, todos os músculos reclamando da queda nunca antes conhecida. JK pela primeira vez na vida apanhou até sangrar. Nenhuma de suas tentativas de esquivar-se do ruivo obteve sucesso, o homem era ágil como um coelho e escorregadio como óleo no asfalto. Perdida a chance de faturar os dólares, a auto-imagem espatifada, o orgulho reduzido a titica, JK permaneceu estendido na calçada, ouvindo os passos gingados se perderem na escuridão. Lágrimas de ódio e frustração ameaçaram reduzir ainda mais sua empáfia de macho, mas ele as segurou, respirou fundo e começou a pensar. Os anos de sobrevivência tinham sido à custa de muita esperteza — e aí JK ainda não conhecia a verdadeira dimensão do talento — portanto, também agora era preciso ser esperto. Levantou-se capengando, arrastou-se até onde jaziam os documentos de sua ex-quase-vítima e com novos olhos estudou a foto e as letras da língua ainda desconhecida. JK não sabia, mas tinha acabado de encontrar seu primeiro ídolo. Guardou a identidade como a um talismã e saiu de sob o viaduto com um novo andar e um sonho incipiente: ia ser marinheiro. Pois de agora em diante já não lhe bastava ser o melhor em terra; tinha de ser o melhor também no mar. JK contudo jamais conseguiu entrar para a Marinha. Dez anos se passaram desde o encontro com o dinamarquês e nesses dez anos ele chegou mesmo a esquecer os planos traçados naquela viela escura onde se vira de corpo inteiro no espelho da humilhação. Porém, mais privilegiado do que muitos que tal como ele um dia acalentaram esperanças de glória e ressurreição, JK chegou por caminhos tortuosos a se tornar estivador. Tinha trinta anos E foi aos trinta e dois, corpo esculpido à beira de um porto, que pensou pela primeira vez em destino. Não se deteve muito nisso, não era de grandes elucubrações cerebrais, mas veio-lhe à mente a imagem de um marinheiro ruivo adormecido sob um viaduto e teve a certeza de que ali, bem ali, fios secretos de seu caminho tinham começado a se unir, para conduzi-lo àquele instante em que se descobriu capaz de salvar orquídeas raras de irreversíveis processos de oxidação. Ninguém
deu a menor atenção à nota que durante vários
dias circulou na imprensa algum tempo depois, referindo-se ao desaparecimento
de certa Leda de tal. Quando, em um dos jornais, apareceu ao lado um aviso
de que John F. K Smith abandonara o emprego, não houve sequer meia
dúzia de leitores. Nem mesmo Felipe, que numa noite de fúria,
depois de uma briga cheia de farpas, golpes baixos e jogar na cara ressentidas
meias-verdades, dissera à mulher que fosse trepar com um estivador
de beira de cais, quem sabe assim
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