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***
Acende a lâmpada
sobre o espelho do banheiro. A luz ilumina todos os poros do rosto ainda
sem maquiagem. Preciso cuidar da pele, pensa. Pelancuda e despencada estou
fodida. Pega a pinça, vai arrancando um a um os pêlos que
apontam. Já nem dói mais. Como ele mesmo, aliás. Não
dói? Pára um segundo, o gesto cortado ao meio, a pinça
no ar. Dói, tem de admitir. Às vezes a dor volta inteira,
aquela sensação de peso apertando-lhe a cabeça.
— Merda
— resmunga.
Acelera
os movimentos. Espalha a base, depois a sombra, o rímel, o batom.
Tira a peruca da cabeça de pau, escova-a mais do que necessário.
Ajusta-a e afasta-se do espelho, olhando-se de todos os ângulos.
Liga o rádio, acende um cigarro, tentando decidir que roupa usar.
— Jingolbel,
jingolbelllll — acompanha com o falsete bem acentuado.
Suspira.
Vai até a janela, olha os prédios iluminados. Pode ver nas
salas em frente grupos conversando, a mesa posta da ceia, pinheiros. Fragmentos
de música. Merda. Movimento hoje só com os gringos. Empresários
a negócios, presos num quarto de hotel. Esses vêm. Pagam bem.
O saco vai ser ouvir a ladainha. Natal-longe-de-casa-os-filhos-uma-data-como-essa-e-a-puta-que-pariu.
Decide pôr a mini de cetim negro. A fenda na altura da coxa, ousada.
Valoriza. Arruma-se. Pega a bolsinha de strass. Antes de sair lança
um último olhar ao espelho. Bela. Belíssima. Como deve ser.
Como previa,
nenhum movimento. O ponto está deserto, as outras nem vieram. Encosta-se
no poste, levantando bem o joelho. Acende outro cigarro. Quase meia-noite.
Um bêbado põe a cara na janela, lá em cima:
— Cadê
Papai Noeeeelllll?
Passos.
Vira-se, na expectativa. É só a Ritinha.
— Tá
uma merda — ela vem dizendo.
— É
— responde. — Natal, meu bem.
— Tou aqui
mas a cabeça tá em casa — continua a Ritinha. — Lá
em Minas, sabe? Tenho um filho lá, mora com a minha mãe.
Lá
vem fossa, pensa. Saco.
— Meu filho
— Ritinha repete. E começa a chorar.
É
demais, pensa.
— Olha,
Ritinha. Vou andar, tá?
Sai para
o meio da rua e vai descendo, exagera no rebolado. Um carro diminui a marcha
no semáforo; vai aproximar-se, percebe que é uma mulher.
Droga. Melhor rodear o Hilton. Procurar os gringos. Passos. É a
Ritinha de novo.
— Jesus,
mulher! Você não dá folga não? — Mas tem algo
morno na voz, desmentindo a dura.
Ritinha
nem liga. Caminha junto.
— Você
não tem família? — pergunta.
— Não,
nasci da terra, dei em árvore — responde mal-humorado.
Ritinha
ri. Fica bonitinha quando ri, essa puta.
— Não
é triste estar sozinho no Natal?
A Ritinha
não se manca!
— Desgruda
um pouco, tá? — diz irritado. — Teu ponto não é lá
na Consolação?
— Já
desisti. Não tem movimento hoje. Vou tomar um conhaque e ir embora.
— Continua andando ao lado. Miudinha, mal lhe chega ao ombro.
— Ninguém
até agora? — pergunta para quebrar o silêncio que já
vai pesando.
— Ninguém.
— Daqui
a pouco melhora — tenta consolar. — Lá pelas duas, três. Chegam
bêbados. Querem esquecer e vêm.
— É...
O ano passado ganhei a maior grana de um doutor. Vestiu-se de Papai Noel
e tive de aturar minha filhinha daqui minha filhinha dali, eu no colo dele
que nem bebê. Tive de dar fingindo que era criança. Me deixou
a roupa, depois mandei pra Minas, meu irmão vai usar agora pra fazer
o Natal dos meninos. Queria só ver a cara do meu filho... Comprei
um robô pra ele, lá no Mappin. Anda, fala, acende umas luzinhas.
— Quantos
anos tem seu filho?
— Sete.
Fez sete agora em dezembro.
— Não
tem mais bar aberto nesta merda — resmunga. A Ritinha se cala. Continuam
andando.
— Diana
— ela pergunta de repente. — Como é seu nome de verdade?
— Francisco.
— O mau humor começa a voltar.
— Quando
você era pequeno tua mãe te chamava como? De Chico?
Merda!
Mas a Ritinha, quando encarna.
— Não
enche, tá Ritinha?
Ritinha
nem ouve.
— Meu filho
chama Roberto. Por causa do Roberto Carlos, sabe. Quando fiquei grávida,
sonhei que era do Roberto Carlos. Lá em Bom Repouso o pessoal pensa
que o pai dele morreu, que sou viúva. Minha mãe pensa que
eu trabalho em casa de família. — Ri. — Se descobrisse, acho que
me matava.
Pronto.
A Ritinha conseguiu. Conseguiu me estragar a noite. Mulher é foda!
Aí franze a testa. O frio na barriga. E não consigo me livrar
dessa putinha! Ela sempre gruda desse jeito. Lembra a vez que o rapa levou
a Ritinha. Achou que ia ser até bom. Mas acabou indo pagar a fiança.
Burra. Burra que é.
— Lá
tem um bar aberto — aponta a Ritinha.
Foram.
— Dois
conhaques — pede.
Um bêbado
roncando no canto do balcão. Mais ninguém. A Ritinha fica
com o olhar parado, bebendo aos poucos, fazendo pose. Entra uma mulher.
Cara de quem chorou ou dormiu demais. Ritinha comenta:
— Essa
daí tá na maior fossa, coitada. Deve ser sozinha.
— Um hollywood
— pede a mulher, pondo uma nota no balcão. Enquanto espera o troco
olha para as duas. Mas o olhar é de vidro. Transpassa.
Parece
cilada, pensa. Não vou conseguir escapar. A Ritinha já destampou
de novo:
— Passar
o Natal longe da família é foda, né? Saí hoje
mais pra andar, mesmo. Não ia agüentar aquelas quatro paredes.
A Solange queria que eu fosse com ela num baile da Moóca, mas detesto
sair com a Solange. Ela é tão pé-frio, sempre dá
encrenca.
A mulher
do hollywood recolhe o troco, sai. Não é de michê,
se vê.
— Outro
conhaque — pede. Começa a sentir uma desesperada vontade de beber.
Ou de dar uma porrada na Ritinha.
— Vamos
pra minha casa? — pergunta Ritinha de repente.
— Pra sua
casa pra quê? — assusta-se.
— Vamos,
vá! Não vai dar movimento nenhum, mesmo. Pelo menos a gente
não cansa de tanto rodar calçada. Vamos, Diana! Tem conhaque,
a gente bebe, conversa... Lá pelas três a gente sai de novo.
Devia era
dar uma porrada nessa cara de sonsa, mas em vez disso topa. A Ritinha paga
o táxi.
Quando
se vê na sala, a Ritinha tirando o sapato e abrindo a janela, não
acredita. Caralho! Que vim fazer aqui? Ritinha já vai colocando
o CD do Roberto.
— Ouvi
o dia inteiro. Cada vez que ouço, choro, porque lembro o Robertinho
lá em Bom Repouso...
— Por que
não foi passar o Natal lá? — interrompe, enchendo o copo.
Conhaque vagabundo, pensa, vai dar a maior ressaca. Ritinha de novo com
aquele olhar longe, meio estrábico, que até que não
fica feio.
— Não
sei. Acho que é medo. Enfrentar a mãe, as perguntas... Inventar,
inventar, contar mundos e fundos da minha 'patroa' aqui de São Paulo...
Acho que não tava a fim de encheção. — Ela se estica
na almofada. A saia sobe, descobrindo uma coxa morena, lisinha. Calcinha
vermelha.
— Não
te entendo, mulher. Fica aí toda nhemnhemnhem porque o filho, o
filho, a droga do filho, e não vai vê-lo? Há quanto
tempo não vai?
— Dois
anos — responde a Ritinha, baixando a cabeça. E começa a
chorar de novo.
Levanta,
indeciso. Agora já é efeito do conhaque. Só pode.
Mas o frio na barriga é outra coisa. O menino. Desde os cinco anos
que não vê a mãe. Conhece bem essa história.
E a mãe é essa Ritinha. Essa daí. É o conhaque.
Claro que é.
— Pára,
saco!
Ritinha
soluça mais alto, o corpo começa a tremer.
Bota o
copo na mesinha, senta ao lado dela.
— Tá
bem, Ritinha, pára. — A voz sai mais mansa. Quis um gesto de tocar-lhe
a cabeça, mas impediu-se a tempo. — Não adianta esquentar,
piora. Vamos pra rua, é melhor. Vai mulher, anda! Vai retocar essa
cara, tá um lixo.
— Você
é tão boa — diz a Ritinha, erguendo os olhos. — Como uma
irmã pra mim. — E sorri.
— Você
até que fica bonitinha quando ri — ouve-se falando. Força
o falsete. — Anda, mulher! Você está hor-ro-roo-sa com esse
rímel escorrendo!
A Ritinha
continua olhando, nem se mexe.
— Tá
olhando o quê, ô múmia?
— Teus
olhos — diz a Ritinha, sem entrar no jogo. — Teus olhos. Você olha
igual o Roberto.
— O Roberto
Carlos? Credo! Isola! — Levanta a mão traçando um longo vôo
que vai terminar alisando o cetim negro.
— Não.
O Roberto, meu filho.
Merda.
— Ele tem
esse jeito de encarar, meio triste, como querendo e não podendo,
sabe?
Putinha!
Merda de putinha! De novo. A sensação na boca do estômago.
Indecifrável.
— Ah, Ritinha!
Pára com essa conversa mole! Vamos trabalhar, anda!
Ritinha
nem se abala. Cruza as mãos sob a cabeça, levanta mais o
joelho. Igual falar com pedra.
— Você
seria um homem bonito, se quisesse — diz ela, depois de um silêncio
abafado.
— Mas não
quero! — berra. — Saco! Porra! Pára com isso, Ritinha!
— Você
tá mal da cabeça, não tá? — Ritinha implacável.
— Está aí dando uma de durona, mas está mal pra caralho,
né?
— Não
estou! — Está berrando. Sabe que está berrando, mas nem tenta
parar. — Ritinha, chega! Pára com essa merda de uma vez! — Sente
escorrer algo pela face. Rios pretos de rímel. — Odeio você,
sua puta! Odeio essa fungação de meu-filho-Bom-Repouso-minha-mãe-pensa.
Porra, Ritinha. Você, eu, todo esse lixo. Natal? Saco! Qual a diferença,
me diz? Qual? Essa e as outras noites, não é bater perna
na calçada, arrancar grana desses porcos, todos cheirozinhos, engravatadinhos,
esses, esses... — Está agarrando Ritinha. Sacode a outra pelos ombros,
músculos retesados.
— Diana,
me deixa, me deixa — Ritinha choraminga. — O que você tem, o quê?
Pára
de repente. Larga a Ritinha, que desaba na almofada.
— Você
me machucou — reclama ela, esfregando o ombro.
Levanta-se
e fica em silêncio, dando as costas a Ritinha, mexendo na bolsa.
Pega os cosméticos, vai ao banheiro, os soluços ainda soando
na sala. Ouve foguetes. Sirenes. Freada brusca na rua. Porcaria de luz.
— Por que
não bota uma lâmpada fosforescente nesta droga de banheiro?
— grita.
Nenhuma
resposta. Interrompe a pintura, tira a peruca, pega outro cigarro. Resolve
urinar. A Ritinha na porta, olhando.
— Você
mija em pé?
— Não,
voando, não vê?
Ritinha
ri. Bonitinha, rindo.
— Por que
você não põe silicone no busto, como os outros? — ela
pergunta. — Ia ficar melhor que eu. Você acha que eu tenho o peito
caído? — Abre a blusa, mostra os seios.
Pequenos,
nota. Quase como um rapaz.
— Não
— consola. — Você tem seios lindos.
Ritinha
encolhe os ombros.
— Sou muito
magra...
Retorna
à maquilagem.
— Quer
que ajude? — pergunta a Ritinha.
— Não,
estou acostumada.
Mas a Ritinha
já está com o blush na mão.
— Senta
aqui no bidê.
Obedece.
Ritinha vai passando o pincel, compenetrada, aproximando-se, aproximando-se.
A blusa ainda aberta.
— Pára!
— corta, segurando o pulso da outra. — Pára, me faz cócegas.
Ritinha
olha bem dentro dos seus olhos. Faz um muxoxo.
— Tá
bem. Larga meu pulso.
Relaxa,
percebendo a força que fazia. Silêncio. Ritinha começa
a abotoar a blusa, pensativa.
— Deixa
— diz.
— O quê?
— pergunta a Ritinha.
— Deixa
assim — repete, estendendo a mão, puxando de novo aquele pulso frágil.
— Vem cá — murmura, sem nenhum falsete na voz.
A luz fraca
do banheiro vai sumindo. O som dos foguetes, a sirene, Ritinha, a maquilagem
borrando dois seios pequenos como os de um rapaz. Amanhã mudo de
ponto, pensa. Amanhã vou pro Morumbi, decide, antes de rasgar a
última máscara.
***
Sampa
24/12/1983
Obs:
menção honrosa no concurso Mulheres entre Linhas da Secretaria
de Estado da Cultura do ESP, de 1986
ilust: l. c. cruvinel
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