Embora muito do que se disse seja verdade, algumas premissas me incomodam, assim como me parece superficial analisarmos as relações virtuais apenas do ponto de vista amoroso. 

Acho que há uma outra grande questão que permeia as decepções nos encontros entre internautas. E saiamos do campo amoroso.  

Como toda relação que se cria, símbolos, signos e rituais são assumidos. Ninguém usa no chat uma máscara maior ou menor que sua máscara social. Ritualizamos um vocabulário a dois, ritualizamos códigos, símbolos, sinais, linguagens. Ritualizamos brincadeiras. mas fazemos isso nessa linguagem chateana (nem oral, nem escrita) que única e exclusivamente por ser expressa por sinais gráficos, compreendemos por documental. Não é. 

Esses ritos entre internautas, baseados nos sinais gráficos, é impossível de reproduzir-se pessoalmente. Imaginem: uma pessoa sentada na frente da outra, num bar, num restaurante, num motel, numa casa. A primeira diz "ex-ato", a segunda diz "ex-ala". Puta coisa chata! Isso tem graça em chat. Só em chat. 

Passar de uma linguagem a outra, transitar por diferentes códigos de comportamento, transformar ritos é uma tarefa muito difícil. Não raro, pessoas que têm um afeto honesto e sincero no chat descobrem que não sabem transpor esse sentimento em outra forma de comunicação. 

Mais, muito mais: o repertório do chat tem uma característica de sedução, um erotismo, que chega quase ao cúmulo. Não é o mesmo repertório que usamos no cotidiano, no que chamaríamos de realidade real. 

O chat é cinema: entramos na sala escura, levamos a pipoca, o refrigerante, e nos deixamos comover e emocionar. Batemos pezinhos, torcemos pelos heróis, avisamos - feito crianças - que a bruxa está escondido do lado direito da tela, choramos, rimos, praticamos catarse. Mas nunca esquecemos que é cinema. Arte é mesmo essa capacidade de nos transportar para uma realidade paralela à nossa. Cinema é arte, e como toda ela, uma das formas de educação emocional, uma das poucas. 

Não podemos esquecer que estamos num chat, comovidos, emocionados, batendo palmas... ainda assim, no chat. Estamos nos comunicando através de uma "arte" muito peculiar, de caráter democrático, sem regras nem técnicas, por isso mesmo um dia seremos folclore. Como alguns de nossos personagens já o são. 

Nada, absolutamente nada do que escrevo aqui, desvaloriza, diminui a dimensão do chat e suas relações. Estamos adentrando uma forma nova de comunicação, não sabemos quais serão suas influências nem as mudanças que delas podem ou não advir. Mas não é nem o começo nem o fim de nada. Uma possibilidade a mais.  

Tratemo-la pois com a honestidade e a sinceridade que raras vezes temos a oportunidade de expressar. Sejamos claros. 

Enfim, olhem-se no espelho, vejam suas imagens. São vocês? São! Com as deformações que o espelho produz. Olhem-se no espelho do chat, vejam suas imagens, vejam a imagem que construímos das relações. São essas as relações como as imaginamos, desejamos? Não. O espelho no chat deforma os objetos pelo nosso e pelo olhar do outro. É preciso ter o olhar muito atento para ver que a interferência do outro existe, e é bem-vinda! 

Fomos feitos do barro, ou assim nos dizem, somos modelados por muitas mãos. Perdemos o controle. Ainda assim: que venham as relações amorosas, afetivas, fraternais. E as inimizades, os desentendimentos, as mazelas.  

A questão é: abriríamos mão do prazer para não levar uma ou duas porradas? Vale a pena não sofrer e com isso perder a capacidade de alegrar-se profundamente? Valorizamos mais a dor que o prazer? Vamos continuar a acreditar que "bendito somos nós, os sofredores, porque nosso será o reino dos chats?" 

Noel, a Rosa
 
 
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