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No começo é tudo uma grande brincadeira. Os papos, todos, sem exceção, representam novidades que vêm ao encontro de anseios há muito sufocados dentro do peito. A maturidade impôs uma reserva, que castrou nuanças da juventude, outrora tão profícua, e agora se tem a chance de ampliar horizontes, derrotar a solidão, reencontrar o mundo. As pessoas aos poucos vão mostrando suas faces, tornam-se amigas. Isso numa faixa etária onde, dizem os compêndios, dificilmente se angariam amizades novas. A virtualidade rompe tabus e as pessoas se encantam ao descortinar possibilidades nunca sonhadas. E então começam os romances... Uns tão intensamente virtuais que jamais transcendem a tela, outros que se concretizam em encontros fortuitos, viagens furtivas, com as naturais seqüelas dos amores irrealizados que se vão quase sem deixar marcas. Mas são as grandes paixões inacabadas, que transcendem a tela, invadem a vida e nunca se tornam concretas, que mais nos chamam a atenção. Encobertos, escondidos, com segredos trocados em reservados sem fim, incentivados pelo mistério e pelo perigo. Os reservados sempre permitem que amores paralelos se desenvolvam. Mas as histórias desses amores, principais e paralelos, mais cedo ou mais tarde se tornam conhecidas porque há o momento em que as pessoas aprendem efetivamente a se comunicar entre si. É o momento em que, checados os nomes e outros fatores de identificação, descobrem-se "os grandes amantes do chat". Aqueles que ao mesmo tempo que juram amor eterno, ou nem tão eterno assim, a um determinado parceiro, marcam encontros para a concretização de desejos virtuais surgidos de frases colocadas na hora certa por outros parceiros aleatórios. Grandes declarações feitas nos reservados do chat, sabe-se então, não passam de meras cópias já extenuantemente utilizadas. Porém aquele que é o alvo da tal declaração no momento, achando-se único, deita por terra qualquer reserva que ainda lhe reste e se entrega ao outro, abrindo mão do mínimo resquício da própria personalidade, para ser em tudo e por tudo, o outro. A perda da identidade chega a ponto de extasiar os envolvidos diante de comentários do tipo: "Esse texto não pode ser do outro, esse texto é seu, é seu discurso!" Oh! Felicidade suprema! Somos um só em pensamento. Prazer orgásmico maior é impossível de ser alcançado, mesmo todos tendo consciência de que o paralelismo das relações virtuais continua grassando. Por ter atingido o ideal supremo de afinização, nada mais conta. É impossível que tamanho entrosamento possa, de alguma forma, não satisfazer plenamente o outro. Sem dúvidas! A entrega é mútua! E o castelo de sonhos vai tomando contornos cada vez mais reais..... Falta apenas um detalhe. Falta olhar os olhos, sentir a pele, sentir o toque dos lábios, a entrega da matéria a acompanhar o espírito que há muito já se entregou. Idas e vindas, marchas e contramarchas, problemas técnicos do equipamento, problemas pessoais e o tempo vai rolando. O desejo cada vez mais aumentando. Então o telefone se faz meio de aproximação. A voz!!!! Ah! A voz!!!! Doce, suave e envolvente voz! Dias e dias de sonhos pela magia da escuta! Ah! O respirar ofegante do outro lado da linha mostrando que a vida está presente e que a natureza se manifesta corroborando todos os sentimentos nascidos da afinização das palavras. A expectativa maior do encontro pessoal toma corpo e os impulsos não mais se refreiam. É hoje! É agora! É urgente! Ah! A distância........ Quando o desejo fala mais alto a distância inexiste. Quilômetros são vencidos em poucas horas a fim de atender as necessidades da realização intelecto-carnal e finalmente o encontro tão desejado acontece! Olhos nos olhos, corpos trêmulos de emoção, rubores adolescentes, gagueiras. Tudo em nome da ansiedade contida há tanto tempo. Mas... Nem tudo nesta vida é como a gente quer... Aquela chama tão intensamente acesa no decorrer dos papos e dos telefonemas arrefece repentinamente. O amor não se concretiza e pessoas machucadas retornam a suas casas buscando razões, que nunca encontrarão, para o fracasso! Como entender que tamanho entrosamento, acompanhado da troca de fotos, pudesse padecer da química da pele? Sim, essa a única razão plausível.... Mas a vida
continua e novos relacionamentos despontam. De repente, numa discussão
inflamada sobre temas atuais, surge um novo parceiro, cujo discurso atende
plenamente às cobranças do intelecto e daí para frente,
dia após dia, vão se dando a conhecer. Vão se mostrando
cada vez mais sedutores um ao outro – ainda que conscientes da existência
daquele universo de relações que se desenvolvem
Mas obstáculos outros se interpõem no desenvolver da relação, um dos dois não goza de plena liberdade, ainda mantém vínculos com uma terceira pessoa, que completamente à parte do processo das relações virtuais, provavelmente olhe para o micro e tranqüilamente diga: "Não sei como você possa gostar tanto desse brinquedinho!" Sim, para aqueles que estão de fora, os chats talvez sejam considerados como mero passatempo! Antes ter um teclador dentro de casa, do que um botequeiro ou coisa que o valha! Aqui, dentro de casa, nada de mal poderá estar fazendo. O raciocínio é esse. E assumindo a esteira desse raciocínio as pessoas passam a se utilizar do brinquedinho, agora que o pijama e a TV foram completamente abandonados a um canto. Absorvidas na idéia da brincadeira, passam a brincar umas com as outras, esquecendo-se de que do outro lado da linha possa existir alguém, cujos sentimentos sejam reais e não mero brinquedo. Assim, aquele parceiro, cujos obstáculos pessoais não permitiam o encontro tête à tête, mascara toda uma situação de paralelismo proporcionada também pela necessidade do sigilo absoluto ante o ato de adultério que se está a praticar. Adultério sim, mesmo que não haja a conjunção! Por conta desse decoro pessoal, a ninguém é dado conhecer o objeto da paixão contida dentro do peito! Madrugadas sem fim se esvaem em conversas extremamente envolventes, mas que devem se conter ali mesmo e não transcender os limites do teclado. Encontro pessoal inimaginável e impossível! Uma palavra solta no ar desencadeia a tempestade de dúvidas! O espírito questionador fala mais alto! A identidade pessoal se manifesta e a busca pela verdade acontece. Tristes constatações, talvez de há muito pressentidas, se confirmam e aquele amor idealizado sucumbe em meio às ruínas do castelo tão docemente arquitetado. O tempo perdido com tamanha paixão nem conta mais. As oportunidades que se apresentaram pelo caminho, algumas até devidamente aproveitadas, não geraram frutos, a não ser o de outras decepções e cobranças íntimas pelo deslize cometido. Seria castigo pela traição cometida? Não se soube, nem se saberá...... Aqui cabe também destacar que nas relações de chat é constante se verificar que as mulheres assumem o papel de empreendedoras, ao passo que os homens, a maior parte das vezes, têm atitudes meramente contemplativas, em nome da preservação da relação estável que mantém fora da tela. Aquiescem a encontros, como se prestassem grande favor à humanidade – e à dama em questão... Aquele grande garanhão dos reservados, quando colocado à prova, assume ares de salvador da donzela carente até conduzi-la à cama, para logo em seguida recolher-se sob o manto protetor de um casamento que antes não fora respeitado e que agora passa a ser apanágio da sua hipocrisia, até que nova presa se apresente! A história das relações virtuais é a história do mundo! O que é certo, porém, é que a pedra basilar da amizade é a sinceridade e que esta, se devidamente cultivada, evitará tantas e maiores dores aos incautos que ainda hoje traçam castelos de sonhos embalados nas juras doces de amor dos reservados dos chats. Manter a própria identidade, enfatizando os valores individuais, permitirá relações mais sadias e elidirá de vez personalidades doentias que buscam através da tela a realização de desejos mórbidos de dominação e controle dos sentimentos alheios. Fica a questão
a ser debatida, preferencialmente em aberto, nas salas dos chats, com a
participação de todos os que tiverem a coragem de assumir
uma conduta mais leal com o próximo, a fim de que se possa restabelecer
a sanidade de cada um.
Thelma
& Louise
ilustração baseada em trabalho de Marcos Fernandes |
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