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sujeito da vontade está constantemente preso à roda de Ixion,
colhe continuamente pelas peneiras das Danaides, constitui o eternamente
supliciado Tântalo.
Schopenhauer
Webterapia. Esta nova palavra começa a ser discutida nos chats da
Web e significa, causando certo incômodo, um tratamento especializado
para pessoas viciadas em Internet. Este vício, admitido por muitos
veteranos da rede, se conceitua plenamente, pois envolve um intenso querer
e, na impossibilidade de satisfação, uma síndrome
de abstinência bem definida: sem uma boa dose diária de computador,
principalmente nos chats e no ICQ, o internauta se vê acometido de
uma sensação de vazio, de irritabilidade fácil e,
nos casos mais severos, de franco desespero.
É bem certo que em grande parte do tempo do chamado mundo "real"
esse internauta tem os seus pensamentos voltados para as coisas do chat
e da rede, e não vê a hora de ter os seus olhos iluminados
pela telinha, suas mãos ávidas pelo teclado e o mouse e o
seu ser mergulhado profundamente nesse mundo fascinante, constituído,
a rigor, por palavras.
Viciados em álcool, cocaína, morfina e outras drogas, além
do jogo, vivem fixação semelhante e estão sujeitos
a síndromes de abstinência bem caracterizadas em medicina.
Também, o anseio pela droga, um querer incontrolável, exibe
um padrão comum de busca de prazer: drogas, sejam depressoras ou
estimulantes, agem como sedativos, produzem euforia e excitação,
trazem desinibição, emoções, "sensações"
novas e buscas que, por assim dizer, vão além do princípio
de inovação.
Pode a palavra - esta unidade singular, mônada e mágica, a
quintessência do chat - ser comparada às drogas? Eis uma pergunta
curiosa e pertinente. Pois, participando dos chats sentimos, como na leitura
de um livro, prazer e fruição, de alguma forma pelo amor
à linguagem. O texto, ora superficial, ora profundo e intimista,
torna-se objeto de fetiche e permanecemos ali, mergulhados na verdade da
linguagem.
Já foi dito: a palavra faz o sentido, o sentido faz a vida. E todos
sabemos que vidas têm encontrado o seu mais profundo sentido nos
chats.
Mais: em que
pesem os nicks, as máscaras, o anonimato, as dissimulações,
o relacionamento alcançado assume um aspecto extraordinário
pois, ao contrário do mundo real, onde a relação se
principia por uma visão exterior da pessoa e, somente depois ocorre
a busca do conhecimento do interior, no chat o interrelacionamento parte
de verdades interiores, contadas pelas palavras digitadas. Ora, isso é
extraordinário pela rapidez com que ocorre e mais ainda por ser
um fenômeno cujo grande significado podemos depreender nas palavras
do filósofo do pessimismo: "Existem de fato duas maneiras opostas
de se tornar consciente de sua própria existência: em primeiro
lugar, numa intuição empírica, como se apresenta do
exterior, como um infimamente pequeno, em um mundo ilimitado... Em segundo,
porém, afundando-se em seu próprio interior, adquirindo a
consciência de que se constitui o todo no todo, e o único
ser efetivamente real, a se contemplar adicionalmente nos outros e no dado
exterior, como num espelho."
.
Estaria aí a grande fonte de prazer e poder do freqüentador
do chat, a possibilidade de se ser o eu-total? Creio tratar-se de uma boa
especulação Não seria isto semelhante ao pensamento
dos cabalistas de que a idéia de uma coisa, o nome e a própria
coisa mesma são uma só coisa e, assim a palavra, prenhe de
significado, sob o olhar humano entra em corporificações
que marcam inúmeras camadas de significado?
Estudos neurofisiológicos têm demonstrado a participação
de receptores cerebrais, onde atuam substâncias como a serotonina,
a dopamina e outras, chegando-se mesmo a especular a localização
dos sítios anatômicos de vício.
É curioso como algumas pessoas adquirem amor à leitura de
livros na infância, tornam-se leitores vorazes desses tesouros, avançam
no desordenado rio dos livros como navegantes solitários, com uma
avidez de leitura que não descansa, nem de dia nem de noite. A palavra
"amor" pode, aqui, perfeitamente ser substituída pela palavra "vício".
Não estamos,
portanto, falando do mesmo assunto?
Amigos e companheiros viciados em palavras, eis uma reflexão adicional:
teriam os grandes escritores, os gênios, sítios cerebrais,
sedes deste vício por palavras, bem maiores ou mais complexos, e
aí estaria escondida a fonte da criação - cujo mistério
é ainda hoje absolutamente indecifrado?
Finalmente: a Webterapia deveria nos desintoxicar das palavras?
Thomas
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