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Muito bem, entramos
em 1999, o último ano iniciado pelo algarismo um e isto, queiramos
ou não, tem lá o seu significado.
Horoscopistas,
tarólogos, videntes e assemelhados terão uma mesa farta a
sua disposição, e certamente surgirão previsões
que irão desde a situação econômica proposta
pelo ministro Pedro Malan Sem Alça até os meniscos de Carla
Perez. De certo, certo mesmo, só temos a certeza de que erraremos
centenas de folhas de cheques, preenchendo-as com data errada.
Mas o assunto
que devemos abordar é outro, afinal não queremos contaminar
o início de 1999 com esse tipo de gente, certamente criada pela
vó.
A verdade
é que nesse ensaio geral da virada do século, podemos perceber
com clareza que as pessoas nascidas ao redor de 1950, como nós,
são as responsáveis pelo maior salto que a Humanidade deu,
desde que Adão pisou na bola e nos condenou ao pão com o
suor do próprio rosto.
Fomos nós
que provocamos os maiores rebuceteios pelos quais o Homem passou, participando
ao vivo de cada um deles. E principalmente porque fomos nós que
exigimos não somente grandes avanços da tecnologia, mas peitamos
o que vimos pela frente, tratando de construir conceitos importantes sobre
a nossa própria existência. Na verdade, as máquinas
foram apenas conseqüência de um novo conceito de costumes que
queríamos impor.
E, se a
maioria de nós não participou diretamente, foi justamente
a nossa presença em meio à massa, expressando a perspectiva
por nós desejada, que impulsionou a roda.
Imaginem.
O rádio ganhou força verdadeira a partir dos anos 50 e a
televisão então, nem é preciso comentar. Do preto-e-branco
às cores, vimos o satélite sentar ao nosso lado no sofá
da sala e chegamos ao requinte de assistir aos últimos bombardeios
de Bagdá ao vivo, com hora marcada, com os devidos intervalos para
os comerciais.
Lembremos
dos apetrechos de cozinha com os quais nossas mães cozinhavam quando
éramos crianças. Sabíamos que o microondas nos socorreria
no decorrer das nossas vidas, não sabíamos ? Ouvíamos
discos 78 rpm em garbosas vitrolas RCA, cuja voz do dono bem podia ser
confundida com qualquer coisa, mas tínhamos consciência de
que o DVD nos traria sons e imagens perfeitos. Do laquê no cabelo
das nossas primeiras namoradas, da calça com botinha Calhambeque,
das rosquinhas de leite São Luiz, do Zás-Trás, do
aparecimento da caneta esferográfica, muita água rolou por
baixo da ponte.
Nos últimos
dias deste século, quando assistirmos às retrospectivas,
constataremos que vivenciamos o que de mais importante aconteceu; fomos
nossos próprios repórteres Esso, a testemunha ocular da história.
Perceberemos então quanta história ajudamos a construir.
Não
foi preciso ouvir falar. Estávamos lá e vimos, ao vivo, o
Brasil erguer quatro vezes a Copa do Mundo. Somos capazes de nos lembrar
de cada uma delas. Vimos outros troféus levantados por gente improvável
para sua época: Maria Esther Bueno, Eder Jofre, João do Pulo,
Mequinho, só pra relembrar um pouco.
Vimos Jânio
Quadros, com a vassoura espetada no rabo, renunciar às esperanças.
E vimos a conseqüência de seu vice, João Goulart, ser
empossado contra a vontade das tais força ocultas que levaram Jânio
à renúncia. Vimos, claro, as tais forças ocultas,
elegantemente trajando verde oliva, resolverem que nós, dali por
diante, só podíamos ver o que eles achassem que podia ser
visto.
Percebemos
que a segunda guerra havia posto fim à morte convencional e que
a partir de então, todos podíamos morrer juntos sempre que
um imbecil qualquer apertasse um botão. Saímos à rua
em passeata exigindo o fim no botão mas, distraídos, jamais
exigimos o fim do imbecil.
Acorremos
aos cinemas, desejando já estar dentro de 2001 e viver imediatamente
a nossa odisséia no espaço. E lutamos tanto por isso que
transformamos a ficção na realidade mimetizada por um singelo
pé 41 pisando na Lua. Pergunto-me se outras gerações
sentirão a mesma emoção que sentimos naquele dia,
ainda que outros pés pisem em lugares ainda mais distantes.
Saímos
da nossa casca. Fomos os primeiros, ninguém tasca.
Mas vimos
também que aqueles mesmos idiotas continuaram de plantão,
enviando um monte de garotos para lugares estranhos, um deles chamado Vietnã.
Garotos como nós, que amavam os Beatles e os Rolling Stones.
Enquanto
isso, o nosso lugar estranho era aqui mesmo, onde idiotas subalternos dos
idiotas chefes continuavam nos impedindo de ver qualquer coisa. Mas a nossa
geração acabou reagindo, ainda que representada por alguns
poucos que continuaram vendo, e até hoje não se sabe onde
o corpo deles está enterrado. Outros sobreviveram à barbárie
a que foram submetidos pelo crime de terem continuado vendo. E acabamos
governados por um sociólogo que à época via, mas hoje,
devido à lentes corretivas comprometidas, vê muito pouco.
Tá
legal, tá legal. Fomos malcriados e mandamos nossos pais calarem
a boca. Mas foi por um motivo justificado. Queríamos revolucionar
os costumes e berramos o nosso independência ou morte, acabando com
aquele negócio do casamento ter que durar até que um dos
dois morresse. Por desgosto. Ficamos mais livres, leves, soltos e acabamos
descobrindo que cada orgasmo podia conter um vírus tão mutável
quanto o nosso tempo. A nossa revolução de costumes adotou
a camisinha como símbolo.
Entretanto,
os costumes que passaram a vigir permitiram-nos continuar o nosso Woodstock
eterno, como se Leila Diniz, de topless, fosse entrar a qualquer momento
na sala do chat.
No decorrer
de todos esse anos, muitos nos influenciaram. Mas sempre nos socorremos
de nós mesmos, e descobrimos entre nós os Nerudas, os Llosa,
os Buarques, as Parras, os Milanez, os Loyola, os Piazola. E continuamos
com saudades de Elis.
Foi assim
que a roda rodou.
Eternamente
insatisfeitos, acabamos achando pouco quando aquela instituição
milenar, hoje comandada por um vigoroso senhor polonês, veio a público
pedir desculpas pelas omissões do passado. Quem diria.
Colocamos
tudo a nosso serviço e transformamos o computador num simples eletrodoméstico.
Progredimos nas telecomunicações, nos transportes, na medicina.
Transplantamos corações, pulmões, medulas, rins. Nos
procriamos em laboratórios. E chegamos a clonar uma ovelha para
alimentar nosso sonho de perfeição. Outros sonhos foram clonados
imediatamente, com plásticas no nariz, nos seios, nas bundas. Alguns
homens fizeram uso do progresso da medicina e se transformaram em mulheres.
E algumas mulheres assumiram com competência coisas que eram dos
homens: Indira Gandhi, Golda Meyer, Margareth Tatcher, Maragreth O’Brian.
Isabelita Peron, gostemos ou não. Algumas delas continuaram fazendo
muito mais que muitos homens juntos: Irmã Dulce, Madre Tereza. E
alguns homens mostraram-se à altura delas: Frei Damião, Padre
Cícero.
Arre, vivemos
demais nesses 40-50 anos.
Dissemos
presente à história da humanidade, com certeza. E o fizemos
de uma forma tão marcante que muito tempo se passará até
que outra geração realize tantas mudanças.
Demos o
pontapé inicial nas grandes e concretas conquistas do Homem. Justamente
as que precisávamos para que a roda andasse realmente para a frente.
Não
resta dúvida que a humanidade, daqui pra frente, tem grande chance
de funcionar. Pegou no tranco, é verdade, mas fomos nós que
ajudamos a empurrar o bonde da história ladeira acima.
E ao vivermos
o último ano da casa dos mil, esqueçamos tudo isto e percebamos
que tudo teria sido em vão se não fossemos nós a entender,
que o verdadeiro motivo de tudo, somos nós mesmos, as pessoas. Todo
o progresso seria absolutamente inútil se não fosse dirigido
aos seres humanos.
Falta pouco
para sermos completos.
Falta apenas
aperfeiçoarmos o conceito de que o ser humano continua sendo a mais
fantástica das descobertas, e a de que a roda deve sempre rodar
em função dele.
E depois
disso, nós que viveremos apenas um pouquinho do próximo século,
poderemos ter a certeza de que fomos os verdadeiros descobridores; os navegadores
que atravessaram o cabo das tormentas, descobriram o verdadeiro caminho
marítimo para o Homem e modificaram completa e conceitualmente o
contrato de aluguel do planeta, fazendo com que ele criasse a perspectiva
de se tornar muito melhor.
Exijo que
a foto da geração 40-50 seja colocada no saguão da
humanidade e todos nós, anonimamente, apareceremos pendurados no
mastro do navio, com a mão sobre os olhos, olhando pra frente e
gritando com certeza:
– Terra a vista.
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