.A FESTA
 

         Tenho nove anos e estou só. Mamãe fica ali, naquele cantinho do quarto, rezando baixinho. De vez em quando tento olhar para ela.
          Sinto muita pena dela, ela sofre, acho que porque brigou com o médico. Ouvi quando ela mandou que ele me salvasse a qualquer custo, de qualquer maneira, ele que arrumasse um milagre, que chamasse outro mais competente, que me tirasse daquela situação, ele que me deixasse morrer prá ver de perto o que era um sangue português, gritou, esperneou, e ele só disse que não tinha mais jeito.
          Amanhã tenho prova na escola. Por que estou chorando? Por causa da prova na escola? Se eu não fizer a prova amanhã, depois vou ter de fazer sozinha, na diretoria, outra vez.
          É quase sempre assim, faço as provas na diretoria, porque nos dias marcados na agenda escolar geralmente estou no hospital.
          Nunca estou quando saem as notas nos boletins, minha mãe sempre vai buscá-las depois. Participo muito pouco das atividades do colégio. Por isso não tenho amigas. Minhas colegas participam de tudo, formam seus grupos, têm suas afinidades, mas estou sempre de fora, que posso fazer?
         Não me deixam jogar Queimada, porque não tenho fôlego. Ninguém me escala para o time, mesmo quando estou bem, porque sou a primeira a ser queimada, já que não posso correr. 
          Para o time de vôlei sou baixinha. 
          Inventaram que eu tinha de entrar para a equipe de natação, porque esse esporte é o que faz bem para o pulmão. Mas só treino no verão, porque no inverno sou proibida de entrar na piscina. É hospital na certa. Então não posso participar das competições, porque não estou treinada.
          Mas da bandinha da escola eu podia participar. Só que me deram o triângulo para tocar. Tem coisa mais imprestável que o triângulo na banda? Ele só dá um ou dois "blins" em cada música. A professora disse que sou fraquinha, combino com o triângulo, apesar de eu ter pedido para tocar bumbo. "Isso, não, é para as mais altas." De qualquer forma, no dia da apresentação eu sempre estava internada mesmo, melhor que a banda ficasse sem o triângulo que sem o bumbo.
          A professora de português tem a mania de me dar leite escondido no refeitório fora da hora do recreio. Diz que eu sou muito franzina. Meu tio até me deu o apelido de estrigumia. Procurei no dicionário, e não encontrei o significado da palavra.
          Sempre que saio do hospital estou gorda, mas mamãe explica que é inchaço por causa da cortisona, e que eu preciso comer. Detesto comer, não consigo respirar e comer ao mesmo tempo

          Mamãe veio me dar um beijo na testa e eu me desesperei. Agora não consigo respirar mais, de jeito nenhum. Agarro a mão de mamãe, não consigo falar, só olho para ela, pedindo socorro. O suor escorre pelos meus cabelos, e não tenho mais forças para respirar. Mamãe sai correndo pelo corredor do hospital. Meu corpo treme, até a cama treme ao meu esforço para respirar. Estou sentada na cama, calçada por uma porção de travesseiros, mas mesmo assim não respiro.

          Todas as meninas da escola moram em casas com números interessantes: 453, 1965, 839, a minha casa, não. É número 100. Tudo que tem zero é sem graça. O número dos telefones das minhas colegas pode ser quarenta e três - vinte e um - treze; ou quarenta e três - dezessete - oitenta e quatro. O meu, não. Tem um zero no meio, que não dá prá falar desse jeito: é quarenta e três - vinte e nove - zero meia. Zero meia não é número! Não podia ser sessenta, pelo menos?

          Na outra vez em que estive aqui, sem ser essa, a outra, sonhei que uma imensa mão feita de nuvem descia do céu, entrava pela janela do quarto, me pegava e me levava de volta com ela para o céu.
          Não sei por que mamãe desmaiou quando eu contei esse sonho para ela, porque eu sempre conto os meus sonhos e ela nunca desmaia. Só dessa vez, que foi a única. 
          Teve uma outra vez que mamãe desmaiou, eu soube, mas não foi por causa de sonho meu. É que eu já nasci em meio à maior penúria, sabe? Meu avô, pai do meu pai, era comerciante. Mas que comércio era o dele, minha mãe só soube depois de se casar. Meu pai foi trabalhar no comércio do meu avô para poder ter dinheiro para se casar com a minha mãe. Um dia, depois das muitas perguntas da mamãe, meu pai respondeu que era comércio de urnas. Só depois de casada, mamãe soube que eram urnas mortuárias.

          - Isso não é urna! É caixão de defunto!

          Mas não foi aí que ela desmaiou. Foi depois, quando eu nasci. Soube pela minha tia, que não queria o casamento de mamãe com meu pai, que meu primeiro travesseiro foi uma daquelas almofadinhas que acompanham o caixão de primeira, para o morto ficar mais confortável. Bom... pelo menos era um travesseiro de primeira. Pelo menos eu penso assim. Minhas camisas-pagão foram confeccionadas com tecido de forro de caixão.
          Minha avó, a mãe de papai, tinha levado meu enxoval de presente para minha mãe, e quando contou de onde vinha foi que ela desmaiou.
          Minha tia sempre fala que mamãe chorava feito uma desesperada pensando que destino teria uma criança que no início da vida já tivesse uma relação tão estreita com a morte.
          Bobagem de mamãe. Só quando eu tinha dois anos de idade foi que me apareceu lá em casa uma irmãzinha e, com ela, a minha doença.
          Dali em diante, só me lembro de cenas brancas: paredes brancas, gente vestida de branco, frascos brancos, algodão...
          Depois disso, vieram os irmãozinhos, coitados. São obrigados a gostar de mim, mamãe é quem os obriga, a eles e à minha irmã também. Até apanham por minha causa, porque não querem minha companhia nas brincadeiras. Mas também, eu não tenho energia mesmo, e eles têm de sobra. Como é que eu posso brincar com eles?
          Sou diferente deles, meu mundo é muito diferente do mundo deles.

          Mamãe voltou com o médico, graças a Deus. Ele grita que eu estou cianótica e eu não sei o que é isso. Sinto uma bofetada no rosto. Depois outra. Não adianta, não respiro e minha camisola está molhada. O lençol também. Apagaram a luz ou estou cega.

           Acho que dormi um pouco, porque agora estou respirando muito bem, e estou calma. Tenho vontade de correr, mas alguém me impede. Não faz mal. Talvez eu possa fazer a prova amanhã. 

          É engraçado. Eu devo estar sonhando, porque eu me levantei da cama, andei até a porta do banheiro. Estou me vendo na cama, cercada de enfermeiros, e também o médico está lá. Estou lá e aqui no banheiro. Tento falar com eles, mas não me escutam. O que eu estou fazendo aqui e na cama ao mesmo tempo? Não estou sonhando porque posso me apalpar. Vou voltar para a cama, então. Mas aqui, sentada em meu lugar, sinto muita falta de ar outra vez.
          Padre Júlio já chegou, como sempre. Passa a mão pelos meus cabelos, esfrega os olhos com o polegar e o indicador da mão direita, como sempre faz, e já-já estará de olhos vermelhos. Ele sempre faz isso. Depois coloca no pescoço aquele xale, e reza por mim. Gosto dele, porque sempre melhoro depois que ele reza.
          Minhas roupas estão encharcadas de suor. Meu corpo é um tremor só. Estão aplicando uma injeção no canal do soro. Estou sufocando, não agüento mais. Ouço muito longe o médico dizer a mamãe que já não há nada a fazer. E eu volto a respirar normalmente. 
         Como é bom poder respirar, que alívio. Estou respirando, e isso é bom. Experimento uma sensação maravilhosa de descanso, como se toda a minha dor tivesse sido retirada de repente. Tenho sono, mas é um sono diferente, tão gostoso... queria falar para a mamãe que estou bem, coitada, anda tão triste e preocupada... saio da cama para procurar mamãe, que não está mais no quarto. Nem o médico. Mas é muito engraçado mesmo. Eu estou lá na cama ainda. Como posso estar aqui na porta e na cama ao mesmo tempo? Será que morri? Começo a rir porque se eu morri, então morrer é gostoso. Fico indecisa entre voltar para a cama e sair para o corredor. É melhor voltar, mesmo, senão vão ficar muito bravos comigo. Mas está tão gostoso aqui, estou respirando aliviada, minhas roupas estão sequinhas. Acho que estou até mais bonita, porque sinto calor em meu rosto. Devo estar corada. 
          Olho desanimada para mim, na cama, os olhos esbugalhados, o cabelo ensopado, toda amarela, cor de cera. Pobre de mim, que feiura!
Volto para meu lugar. Mamãe não vai gostar de eu ter saído da cama.

          Acordo no sofá da minha casa. Acho que sonhei que mamãe gritava com o médico do hospital, tirou-me da cama carregando-me nos braços e desembestou corredor afora. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas acho que mamãe distribuiu tabefe em todo mundo no hospital, aqueles todos que me conheciam tão bem. Só aquele médico desta vez que era novo, o que cuida de mim está viajando, falaram isso anteontem, quando eu cheguei. Não sei por que mamãe briga tanto com eles, era tão amiga de todos eles, os enfermeiros, as enfermeiras, até o vigia, seu Nelson! Mamãe deu nele também, e ganhou a rua!
            Então eu estava em uma ambulância, a mamãe segurando a minha mão, como sempre, arfando, quase que tão cansada quanto eu. Depois me tiraram da ambulância e só me lembro de terem me deitado em um lugar, mas não entendia onde estava, e eu dormi de novo, ou estava sonhando, não sei. 
            Agora estou me sentindo bem, mas com o corpo muito dolorido. As costas, principalmente, pelo esforço da respiração. Não sei quanto tempo se passou. Os médicos - são muitos em minha casa, alguns à minha cabeceira, posso até perceber que estão com a cara do meu pai quando não faz a barba, parecem cansados. Minha casa está parecendo um hospital. Ali está o tambor de oxigênio e a máscara de inalação. Tem todos aqueles aparelhos espalhados pela sala, e em vez da coleção de sinos, na mesinha de centro tem álcool, algodão, seringa, uma porção de ampolas, butterflies, onde estão os sinos?
           Todos estão rindo, gritam só porque eu abri os olhos e falei que estava com fome, que gente esquisita!
           Meu pai está servindo uma bebida forte para os médicos e para aquelas duas mulheres, que acho que são enfermeiras. Elas estão tão descabeladas, coitadas.
           Estão festejando alguma coisa.
 

babyleejones


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email: lbr@portonet.com.br
É autora de um romance e de vários contos inéditos. Alguns de seus contos infantis ("A toupeira e os óculos", "O inventor de estórias", "O sonho de Clara", e "O conversador") foram publicados no Jornal do Sol, de circulação principalmente na cidade de Porto Seguro, com assinantes em todo o país. 
O conto "A Festa" conquistou o 2º lugar no 4º Concurso de Literatura da Fundação Cultural de Canoas, RS.

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