O cortejo foi
descendo a rua, serpente de molambos, trôpegos sapatos furados ou
pés descalços. À· frente Maria Zilda,
majestosa em sua túnica de andrajos, uma flor murcha na carapinha
desgrenhada. Arrastava o saco de seus mistérios, indiferente ao
lixo que os outros remexiam. Parou diante do bar, a malta em respeitosa
distância enquanto ela mirava com curiosidade o grupinho reunido
à porta.
--
Salve Maria Zilda, eterna rainha da noite! -- zombou uma voz em meio
ao burburinho.
A negra
sorriu altiva, lançando um olhar cobiçoso aos copos de cerveja.
Alguém se aproximou, mostrando-lhe uma garrafa, risos soaram por
perto, outra voz pediu uma canção.
Maria Zilda
suspirou tolerante, puxou um banquinho, ajeitou a flor nos cabelos. Na
esquina, o séquito aguardava, alguns estendidos na calçada,
outros fazendo o inventário do tesouro coletado até ali.
--
Eu já cantei na televisão -- explicou ela, a todos
e a ninguém. -- Vieram uns moços, me entrevistaram,
me filmaram. Mas não me deram nada. -- Virou-se para uma loirinha
e ergueu o dedo sujo. -- Nem um tostão, sabe? Me dê
um copo, minha filha, me deixe molhar a goela.
A garota
riu sem-graça mas um copo chegou logo para Maria Zilda. Ela tomou
a cerveja de uma vez, limpou a boca com as costas da mão, respirou
fundo e fechou os olhos.
Sua voz
rouca e afinada modulou-se num lamento, depois elevou-se numa harmonia
precisa, percorrendo espaços entre uma frase e outra, sustando um
gesto aqui, abafando um riso ali, arrebanhando nostalgias úmidas
de álcool e desamores. Foi tecendo a melodia, brincando com os sons,
flutuando sobre tilintares e espantos, enquanto marcava o ritmo com o quase
imperceptível movimento do pé.
Quando se
calou, os da esquina esperaram imóveis até que o eco da última
nota se dissolvesse. Então Maria Zilda ergueu-se, apanhou o saco
e retomou a caminhada à frente do cortejo, sem um único olhar
para trás, para o bar de repente emudecido.
Liz Mercadante/conto
da oficina
1990 |