APENAS UM NAVIO GASTO  
UM POUCO ALUCINADO  
UM DIÁRIO DE BORDO  
ENGORDURADO  
& UM PAR DE OLHOS  
PRONTOS  
PARA O IMPOSSÍVEL   
PORTO.
 
.
 .
.
em ritmo de filme francês

1.  
você pensa que  
                  e percebe de imediato que todos eles estão aí, a seu redor, no seu quotidiano e no seu passado. estão aí, misturados, sem tempo e lugar precisos. Um labirinto que talvez valha a pena recuperar, porque construir caminhos é um pouco saber voltar.  

os grilhões apertando, destruindo músculos e ossos, o sangue manchando os porões, a grande ferida se abrindo inexorável  

    NAQUELA MADRUGADA os luminosos da cidade vinham todos refletir-se na sala em penumbra. Um vermelho acendia-se no rosto do amigo, um azul explodia no copo, um intervalo e amarelos transformavam seus rostos em fantasmas assustados. Ele lhe passa a câmera para que olhe o mundo. Você o fotografa, mas só destroços a rodeiam. A chuva começa a cair forte na cidade, a luz do dia entrando aos poucos para clarear impiedosamente esse beco sem saída. E você, envergonhada por sentir-se tão jovem e viva, sai logo, deixando sobre a mesa um poema, como um afago leve, como um pedido de desculpas  

(poucas ruas calmas e aquela casa de portas fechadas, o fundo do seu infinito, o começo do seu labirinto? A casa fechada, que só se abria aos outros, aos escolhidos a dedo, o quê, afinal, ligava aquele punhado de jovens que se reunia nas madrugadas, quase clandestinos, sem que você pudesse partilhar?)  

AS MÃOS revoavam inquietas do copo ao cigarro. Tento decifrar teu olho por dentro, tua palavra no avesso. Ao redor as pessoas falam e riem, debruçadas em canecos de cerveja. O Café lembra Paris que não conhecemos. Lembra São Paulo dos anos vinte, quando ainda não sabiam de nossa vinda. E penso que dos anos vinte  

       eles nos envolvem, a olhar-nos pelas paredes. E te falo dos nossos medos e do sol, mas minhas asas batem na vidraça e caio ferida. Ao redor ninguém se lembra mais  

       mas ainda posso pressenti-los, a correr entre as mesas. Perdem-se nas sombras, desfazem-se na noite. Te falei do passado, do grupo, do teatro. As peças que ensaiávamos, anos a fio, que ensaiamos ainda. Os textos que decoramos linha por linha, o aprendizado, a resistência e depois, o pouco que restou  

       cicatrizes, tropeços, essa barreira erguida aos poucos, o rosto ganhando pequenas linhas duras. A sensação de que tudo será sempre transitório, mera passagem, sem tempo de apagar a memória. A certeza de que nada há em seguida e mesmo assim você tenta, recomeça, insiste:  
 

2.  
como num filme, a tela toda tomada pela paisagem. Câmera imóvel sobre uma fotografia. Um postal. Praça Roosevelt à direita, o Redondo à esquerda. Não, a praça Roosevelt não aparece. Ela está atrás da igreja da Consolação, não é visível deste ângulo, para quem desce a Consolação. A câmera vai se afastando até que se perceba que alguém segura o postal por instantes antes de virá-lo e ler o verso. Foco nas palavras. Não, foco apenas na assinatura. A história começa com esse nome.  

e assim se recupera e se recompõe a memória. Sempre a partir de um sinal, de um agora, que remete ao que já foi. E o que resta do passado? Apenas marcas, sensações, impressões. Nada mais é real, palpável, a não ser a lembrança e a dor que ela desperta. Mas até as lembranças não são retocadas, acrescidas, transfiguradas? As marcas são reais. A porrada que marcou já não existe mais.  

inverter a cena. A câmera focaliza o nome, a assinatura. A seguir a pessoa olha a fotografia; foco na paisagem, que vai se aproximando até tomar a tela inteira. A igreja da Consolação, o Redondo, o asfalto. E súbito, tudo se põe em movimento. Os carros começam a fluir lentamente em direção à praça Dom José Gaspar. As pessoas andam apressadas, começo a descer a Consolação  

passo diante da igreja, olho o relógio da torre. São seis horas da tarde. Não, já são sete. Pois saíamos da USP às seis e a carona nos deixava lá em cima, no Belas Artes. Descíamos a rua contando os minutos e apertando os passos; eu entrava às sete e vinte e não podia me atrasar. Você me acompanhava por mera solidariedade. Então já são sete horas da noite, escurece rapidamente, preciso me apressar porque ainda resta cercar um ônibus que me deixe na João Mendes. Passo em frente a teu prédio, tão espremido nos seus três andares antigos e um tanto misteriosos. A primeira vez que fui à tua casa me imaginei dentro de um policial londrino. Outra vez pensei na França, que nunca conheci, a não ser nos filmes e nos relatos da nossa professora de francês. Thérese nos falava dos prédios de Paris, que não têm elevador, nas infinitas escadas que eu imaginava o quanto deveriam ser penosas para as velhas de casaco preto carregando seus sacos de papel pardo. Thérese nos falava dos Cafés? Acho que não, não havia essa lição no nosso curso audiovisual. Os Cafés vieram antes, das nossas leituras de Sartre e Simone, e nos reconhecemos quando sonhamos cúmplices com o Quartier Latin  
    e as pessoas cercando nossa solidão na mesa de algum Café, onde escrevíamos sobre a solidão envoltos na fumaça de muitos Gauloises. E principalmente nos reconhecemos ao descobrir nossa Paris na praça Roosevelt e arredores; nossos Cafés eram o Redondo, o Planeta, a pastelaria ao lado do cine Bijou. Nosso Quartier Latin era uma decadente Vila Buarque, onde a Maria Antonia -- nos diziam -- havia sido praça de guerra entre a Filosofia e o Mackenzie. Mas isso eram histórias de 68 e não estávamos em São Paulo, não nos conhecíamos, não sabíamos sequer que um dia seríamos capazes de conquistar essa cidade de cinza e pedra e fazer dela nosso quintal, nosso coração. Nossa solidão.  

aperto o passo e já estou só. Deixei você, como todos os dias. E tua porta divide minha caminhada diária em duas etapas distintas. Como me parece longo esse trecho até a Dom José Gaspar! Eu te amava, nessa época? Tenho muitas marcas espalhadas pelo corpo. Nenhuma dói quando recupero você neste cartão postal. Nunca nos tocamos, e me pergunto hoje se não tivemos vontade de nos descobrir além das palavras, além dos olhares cúmplices, além do brilho no olho quando nos encontrávamos inesperadamente. Nunca tivemos o sonho secreto de rolar na cama nossos corpos úmidos de desejo?  

(Não vejo teu rosto. Mas ter-te aqui ao lado, pressentir teu corpo, já inunda minha vida de auroras. No entanto, não pronuncio as palavras, antes escondo-as, pretendo indiferença por puro medo de perder-te. Conduzo este carro pela Consolação, respeito semáforos para prolongar o instante. Por acaso estás em minhas mãos, poderia continuar e continuar, ignorando teus protestos, levar-te comigo. Mas não. Respeito as regras do jogo. Deixo-te no lugar de costume, pronto, perdi mais uma vez, volto só e de novo descubro o estilete frio varando de um lado a outro o coração.)  

e desço de novo a Consolação, alguns anos mais tarde. Chove e já é noite. Não estou só. Saímos do Belas Artes, onde vimos um filme de Jacques Tati. Às vezes escondemo-nos sob toldos e marquises, depois corremos. Alguma coisa voa ao redor, uma ternura contida, talvez um medo. Procuro teus olhos, você os desvia de mim. E a você eu desejo, intensamente, e quero falar disso, mas não sei como. Paramos numa esquina. Te aponto o luminoso de um hotel. Te aponto e digo: "Queria que estivéssemos ali". Não lembro mais o que você respondeu. Na cena seguinte tomamos um café‚ num bar mais adiante e você me diz que precisamos combinar, que qualquer hora, que hoje é impossível, que  
        depois te vejo num ônibus, me acenando, me acenando, acenando  

e talvez pensasses assim  

mas como, menina, poderia saber que havia em você uma liberdade impossível ainda para mim, preso em horários, filhos, mulher esperando em casa? Eu me perguntava como você podia ser tão livre, tão sempre disponível, tão sempre ansiosa, como se não houvesse nunca os limites, como se não houvesse... te deixei tão desolada sob a chuva, me olhando com enormes olhos molhados; te acenei até perder-te de vista; fui pensando em como te dizer na próxima vez que era melhor pôr um ponto final enquanto era tempo, enquanto era possível você não se machucar muito; em como te dizer que nunca seria mais do que isto, este relacionamento casual; que eu não sei, ou não posso, ou não quero mais deixar que nenhuma paixão me meta as patas no peito. E quando você chorou de novo, na outra vez, como me senti impotente pra te fazer um afago, te pegar no colo como faço com minha filha. E depois, como nos ferimos naquele hotel de 5ª categoria que você descobriu e em que ficamos menos de uma hora e saímos rápido como dois criminosos e ainda fomos tomar uma cerveja quando minha vontade era nunca mais te ver, nunca mais olhar esse olhar ansioso, tão machucado, tão cheio de promessas e expectativas...  

e se me ponho em tua pele e te construo, sinto que te domino afinal. Te controlo, te faço como quero. Posso reconstruir o passado e revivê-lo, pedaço por pedaço, no avesso do nosso desencontro. Posso te deixar viver ou riscar tua presença, e me digo neste instante que nada dói, que as feridas cicatrizaram, mesmo esta sala vazia não me oprime, porque ouço o som da máquina de escrever passando a limpo cenas, imagens, sons, imagens, imagens, imag  

cine Belas Artes, verão. Três horas da tarde. Ela está sentada no degrau da entrada, indiferente aos curiosos. Ele vai caminhando com passos lentos em direção à Paulista. Pára. Muda de idéia, retorna. Aproxima-se dela e pergunta. Se ela vai ficar ali, daquele jeito, sentada. Se está mesmo resolvida. Se é mesmo o fim. "É o fim", responde. "Não se preocupe mais comigo. Quero ficar sozinha. Vá embora. Vá embora." Foi a última vez que se viram. Três anos de tanta paixão e expectativa. Três anos que desembocaram ali, em frente ao Belas Artes, esquina com a Paulista, tarde quente e abafada de verão. Era a primeira vez que ela punha um ponto final num caso de amor. Era a primeira vez que se dizia corajosamente capaz de descer a Consolação sozinha, inteira, sem deixar atrás nenhum pedaço, nenhuma pista. Foi largando as lembranças pelas esquinas. Parava e dizia: aqui fica nossa primeira trepada, cheia de ternura e medo. Mais adiante: que se perca aqui aquela noite em que cheguei tão cansada e te encontrei em casa, queimado do sol do Rio de Janeiro, vindo de surpresa, sem aviso, e me dizendo que me amava, que me queria, que sentia minha falta. Aqui deixo o almoço da Tetê, feijão mineiro e arroz soltinho, que comemos tão felizes, você já trabalhando em São Paulo como revisor do Shopping News, eu já separada, casamento desfeito por você; procurávamos apartamento, eu estudava para o vestibular, você rindo muito da minha incapacidade para aprender matemática, quando na verdade nossas aulas eram só pretexto pra acabarmos na cama, como loucos, como crianças, como... aqui deixo, aqui deixo... Foi largando tudo, abrindo as mãos e assoprando aos quatro ventos; foi ficando vazia por dentro, vazia e sozinha, mas desta vez inteira, inteira. Chegou à praça Dom José Gaspar se sabendo uma pessoa inteira, mas também um pouco irreconhecível.  

mas às vezes todas as imagens se entrelaçam, fundem-se numa só. Os anos perdem sua lógica, resta apenas um fio ligando pequenos detalhes e não reconheço faces e não lembro nomes. Foram tantos, não são mais ninguém. Em cada esquina lembro um detalhe e esqueço definitivamente um rosto. E esta sou eu, uma imensa marca, sombra de tantas outras, espelho e síntese.  

não sei quantos anos tenho, quantos vivi  
mas resta sempre  
este desejo  
este silêncio  
esta febre noturna    este cansaço diário de já saber o desfecho   sem surpresa    sem mais nenhum encanto   a ternura toda espatifada contra a parede e AMOR um néon brilhando na rua da Consolação ente MINISTER COCA-COLA CALCINHAS HOPE cine Belas Artes Riviera Ponto 4 vermelho amarelo verde PARE devagar    novela interminável de tantos desencontros   minha vida daria um romance pensou enfastiada olhando a parede nua do cemitério da Consolação através do vidro sujo do Pça. General Osório às seis horas da tarde engarrafada   VERMELHO AMARELO VERDE   empurre   encoste   desencoste   goze enquanto é tempo   enquanto não chega o próximo ponto   enquanto é possível desistir aqui mesmo e caminhar o que resta sob essa chuva indecisa   tomar uma café no Redondo a essa hora todo encolhido como gato escaldado   apenas famintos office-boys andando apressados pela calçada   como seria bom se   
   teu sorriso não fosse de pedra teu corpo de gelo esse muro invisível a nos separar tão intacto tão solidamente construído como a igreja ali em frente  
    distância  
      distância  

e nunca andou pela Consolação, não sabe onde fica, não conhece a praça Roosevelt; Belas Artes soa como uma vaga academia e academia lembra um gordo e lustroso japonês de sunga ensinando defesa pessoal; pra quê defesa pessoal numa cidade marasmenta como essa, onde às dez da noite não tem mais ninguém pelas ruas? Passa pela rua Antônio Afonso e pára diante do terreno baldio onde antes era o Externato Santa Teresinha e lembra que no segundo ano primário foi reprovada em geografia porque definiu "cidade" como "roda cheia de casas"; castigos exemplares de irmã Aluísia, perder o recreio, ficar sozinha na vasta sala de carteiras duplas e janelões abertos, escrevendo de novo, vinte vezes, a lição mal-aprendida que até hoje não lembra. Lembra, sim, dos tinteiros de latinha que se colocavam no buraco à direita da carteira, e do cheiro acre da tinta e das penas metálicas da caneta que se abriam, deixando a letra cada vez mais grossa, cada vez mais borrada e feia e o sonho de ganhar a caneta-tinteiro parker que o pai usava pra lançar intermináveis números na coluna HAVER do livro-caixa do armazém. Lembra, sim, da enorme escada de madeira rangente que a irmã Ana lavava com  água e sabão e que se subia batendo o salto só pra ouvir o eco ressoando no colégio inteiro, pasta nova sob o braço, lancheira marrom, imensos laços vermelhos no cabelo e a incompetência pra bordar vagonite tricotar sapatinhos pensando no pátio dos meninos separado do pátio das meninas pela figurinha frágil da irmã Ana   irmã Ana burro pra toda carga   irmã Ana atendendo a porta   irmã Ana não ensinava   a melhor  área do pátio era a dos meninos que tinha a imensa árvore   tudo era imenso e no entanto chamavam a escola de Coleginho   irmã Salésia sempre recebendo a mãe com seus inúmeros tratos  retratos  sermões  raspões  sabões  confissões  comunhões   desconfortavelmente privilegiada querendo eximir-se de mãe tão exigente, tantas mesuras, tantos reparos das freiras e todos desforrando "canivete põe no fogo não derrete" rimando sempre com seu nome, rimando sempre com aquele gosto amargo que ainda não sabia definir, sem poder reagir, reagir, reiniciar o ciclo, você  
     no Quartier Latin escrevendo sobre a solidão   pensando na solidão enquanto toma um café no Café Floresta ali no Copan   enquanto lembra  
 

que sempre marcavam encontro no Café Floresta antes de decidir o que fariam. E depois decidiam-se por um cinema ou por percorrer livrarias ou por explorar avidamente os sebos próximos ao largo São Francisco onde descobriam preciosidades como exploradores descobrindo o mapa da mina. E nos intervalos se contando detalhes da própria angústia, sempre um pouco medrosos de estarem avançando além do permitido, camaradagem não era caso de amor, cuidado, cuidado. E falavam de Trotsky e a impossibilidade de se poder esperar, e falavam do sonho da revolução sem aprofundar os mistérios do próprio corpo; uma vez ousou dar-lhe o braço e ele disfarçadamente se soltou sob o pretexto de mostrar-lhe um livro na estante. E outra vez ela vendia o jornal da Organização em frente ao Mappin e colhia assinaturas pela anistia quando deu com ele parado e rindo e largou tudo e foram sentar-se num dos bancos da Barão de Itapetininga; aos companheiros justificou mais tarde que era um simpatizante, e pensava mesmo seriamente que esse era o motivo, era mesmo esse, porque se despediam rápidos no primeiro ponto de ônibus da Consolação ou na praça da República ou em qualquer lugar onde a emoção transbordasse mais que o conveniente e os olhos dela começassem a se encher de  água e ele impotente não soubesse o que fazer.  

3.  
mas eu voltava. Voltava sempre, insistia sempre, lutava com unhas e dentes, me agarrando ao menor fiapo de esperança, não arriscando nunca a deixar o instante escorrer por entre os dedos, o minuto seguinte já poderia ser tarde demais, eu voltava   insistia em voltar   sempre batendo em sua porta   em todas as portas   em tod    

procuro teu olho no avesso, teu gesto por dentro, teu silêncio de palavras. Te falo de ontem e de vinte anos atrás. Teu sangue meu sangue não mancharam os porões. Não sentes meu sangue sob a pele intacta do teu contato. Nada sabes de minhas noites dias esta sôfrega garganta escancarada pelo mundo enquanto  

pedimos mais uma cerveja e comentamos a conjuntura. A greve, as traições. As prisões. Depois falamos dos filmes que começamos a ver com tantos anos de atraso, depois de tanto duro silêncio e solidão. Pessoas falam de novo pelos bares. Se encontram se desencontram  
      pedimos outra cerveja e você me diz que não é bem isso. A dura repressão, as novas sutilezas de se manter intacto tudo aquilo contra o que lutamos e que a necessidade   a direção   a classe operária   São Paulo centro da revolução latino-americana   capital da união das repúblicas socialistas americanas   e que    

procuro teu olho no avesso, tua palavra por dentro, teu gesto entre os dentes  entre veias  meu sangue nunca manchou teus porões   são quatro horas da madrugada e te falo de ontem e de anos escorridos lentos entre dedos enquanto nas sombras as sombras dos ratos devoram toda esta sôfrega vontade de viver e tua porta sempre fechada   todas as portas desembocando neste Café‚ onde    

4.  
há cinco minutos te disse meu nome que pronunciaste como uma palavra secreta contendo na ponta a lembrança de tua amiga mais íntima  

   que me deste como uma carícia porque pressentiste em meu olhar esta sede   

e também me deste a história de tua avó paraguaia que teu avô trouxe como troféu de guerra e teus olhos brilharam tanto quanto me disseste dessa tua avó que aprendeu português e alfabetizou todo um bairro pobre do Recife onde você poderia ter nascido mas foi nascer no Rio de Janeiro   outro país   outro mundo    

   e agora me pedes desculpas porque não te lembras meu nome e te digo que os caminhos da memória se estreitam sempre em tantos inúteis atalhos

e nem sequer supões que tua amiga mais íntima saberia reconhecer este olhar que me dizes não entender

e me perguntas de novo meu nome e te lembro que há cinco minutos me sentei em tua mesa onde bebias esta cerveja gelada como a ponta da lâmina que atravessa de lado a lado meu peito

ainda podes pressentir o sangue escorrendo em minhas costas se passares bem de leve a ponta dos dedos enquanto dançamos este blue

e já persigo teu rosto envolto em sombras

não te reconhecerei não me reconhecerás se cruzarmos de novo pelas ruas

não saberás nunca porque chorei quando me dizias

que te amo que te amo que te amo

cinco minutos depois que me sentei em tua mesa e aceitei aquele copo de cerveja gelada que me ofereceste porque

meu sangue teu sangue derramado sobre tantas inúteis sombras portas fechadas porões

(naquela madrugada te procurei pela cidade pelas ruas te encontrei chorando à mesa de um bar onde me disseste que não voltarias mais para casa onde me disseste de teus anos perdidos em inútil seco amor onde me disseste que também eras uma porta definitivamente fechada onde me disseste que se eu morresse seria bem melhor seria bem mais leve tua nova vida livre onde não sentirás mais o pedaço que falta a parte que nunca te fez falta a parte que te roubei em tantas longas inúteis esperas esperanças onde me disseste)

meu sangue teu sangue só escorrem secretamente. Te digo de novo meu nome que já esqueceste em seguida porque nada te importa além desse sorriso que lês em meus lábios e que já te faz sonhar com meu corpo que tens aqui em tua mesa em teus braços enquanto danças comigo me dizendo

que te amo que te amo que te amo

até que clareie o dia e só reste um sonho bêbado uma mulher que chorava em teu ombro quando a querias apenas um corpo em tua cama


são paulo
1981

 
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