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Feriado

Enfileirou tantos pares de calçados quanto 
encontrou pela casa, a pedido.
Lado a lado, a um canto da sala, denunciavam
presença de gente, de diversidade, gostos e
tempos diferentes, enquanto alguém fazia uma cuia
roncar, à espera de parceria.
Para a mãe dele, isto era descansar.

A BORDA DO MINGAU

 Todos os dias devem ser inventados minuto a minuto. A quem trate com indiferença o seu destino, cabe deixar que o tempo passe e que as horas se entupam de qualquer coisa, daquilo que há quem considere que esteja apenas na ordem do es muss sein, do tem que ser.
 Os domingos parecem ser dias mais complicados, à medida em que a criatividade do sujeito é posta à prova de modo especial: não há obrigatoriedade de cumprimento de horários nem filhos a serem levados e trazidos nem compras a serem feitas nem contas a serem pagas, coisas que comem a vida da gente e que fazem a gente comer para estar vivo.
 Pra quem leva a vida a sério, estar vivo geralmente não é óbvio. Então, cada território do coração há que ser atravessado com o que estiver: solidão, ausência, recolhimento, festa, orgasmos, gargalhadas.
 Depois de um sábado forjado a duras penas, não me parecera inteligente percorrer aquele domingo fazendo companhia a mim mesma, já que eu própria estava pobre demais para qualquer vôo mais leve.
 Criei coragem - sempre é preciso muita coragem quando a decisão é de romper com o narcisismo que envolve a dor do abandono - e rumei para a casa de uma amiga a quem não via fazia tempo.
 - Vim para dividir com você o que esteja presente no dia de hoje - propus quando ainda estava no portão.
 - Por enquanto, tudo o que tenho é um mingau.
 A primeira risada daquele domingo nasceu assim. 
 Muitas outras se sucederam e a síndrome de abstinência da nicotina, do cigarro na boca, do peito da mãe, do beijo daquele homem, derreteu-se entre histórias e vontades que foram inventadas para a semana que começava.

Setembro/99

Fazia mais de ano que Raimundo Nonato não via os pais, o açude  e o céu  de onde dizia ser o lugar de céu mais estrelado do mundo.
 Precisou atravessar quase três dias de estradas para rever a porteira de arame que separava vacas e cabritos na propriedade paterna, da estrada de cascalhos, no sertão nordestino.
 Então, a cara cansada se desfez e os olhos brilharam. Abraçou-se com a mãe que abraçou-se com ele e nenhum dos dois viu a alegria que estampavam na face.
 Há quem sinta prazer em apreciar prazer.
 Por isso, depois que se abraçaram muito, contou-me ela na fila em que estávamos:
 - Fui junto para testemunhar aquela emoção.
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Cabe num dia

Um dia é tempo demais
pra ser atravessado
na mesma linha
Cabe muito num mesmo dia
o grito da louca
a pauta vazia
a comida boa
a comida fria
Cabe tanto num só dia
dor de cabeça
orgasmo
frase de amor
garoa no trânsito
batom apagado
meia boca da noite
mundo da lua
Cabe muito e tanto falta
tanto faz ou nem ou quase
viver na vida um dia
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O Sol

O Sol se sustenta
na sua solidão?
tem dia que sim
tem dia que não.
O Sol é grande
mas a chuva de
antes e depois
diz que o sol
não é dois.
E se acaso fosse
ainda assim
não estaria liberado 
do inverno.

A solidão do sol
é a solidão de
qualquer um
de quaisquer dois
de qualquer estação.
Ainda bem que
um dia chove e
no outro, não.

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