MARLISE BASSFELD
O tempo lógico está
relacionado à carga de sentido
colocada no discurso:
a dimensão do relógio não pode
ser considerada
face à potência do significante
que atravessa o sujeito.
Ainda que se conquiste certa capacidade
de defrontamento com
a diferença e se consiga mudar de tema
antes que o sol se
ponha, algumas horas de angústia
sempre parecem
ocupar o calendário de uma década.
A canga
que veio de longe, estendida na praia, estava misturada de areia e lágrimas
porque era mais fácil reconhecer a dor do instante deitada com a
cabeça escondida do sol, do mar e do barulho das crianças.
Nada era compatível com tamanha ausência de palavras.
Resultado
de um cálculo simples - a constatação do desencontro
-, o problema se constituía em recomeçar novas contas a partir
do nada, daquilo que está sempre presente na condição
humana e em torno do que se faz voltas quando há disposição
de inventar dias e noites: a solidão.
No momento
exato da deriva, privilégio seria compreender que a vida não
se faz apenas com manhãs de ressacas à beira-mar, depois
de uma noite de absoluto vendaval de linguagens divergentes.
Suportar
o caráter provisório da angústia é desafio
impossível porque estar em tal condição é vivenciar
a própria ausência de sustentação. E quando
isso ocorre, a noção quantitativa do tempo fica perdida,
de modo que a dor parece ocupar muito mais tempo do que as horas apontadas
pelo relógio.
Quando se dói, esquece-se a tecnologia da gargalhada e produzir
prazer é tarefa que fica para ser reaprendida no percurso.
Porém,
estar triste aos trinta e tantos marcados pelo calendário pode ser
diferente de uma simples frustração diante das invertidas
da vida. Nesse caso, ao menos, há uma entrega àquilo que
tem emergência - uma certa concessão à angústia,
um espaço a ela conferido, para que reine soberana quanto possa,
e então, de preferência, se dissipe por falta de oportunidade
de permanecer vigendo, já que a responsabilidade com o folguedo
dos filhos e o interesse no banho de mar de alguma maneira retornam.
A causa?
Qualquer que seja. Quando é chegada a hora, não há
escapatória. Chora-se, sofre-se e não se sabe por que cargas
d’água resta no alívio da dor e no pano de Bali um pouco
de sol.
11.09.95
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