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Eram umas reuniões que nós fazíamos lá em casa e costumavam varar as noites. Em geral, as noites de sábado para o domingo. A vastidão do mundo era o nosso pequeno território de domínio e sobre ele discursávamos com a segurança de viventes calejados e experimentados no ofício de esquadrinhar a vida. Teve uma noite em que meu compadre Tira-Teima, cantador de ofício e rudemente alfabetizado nas letras da vida, fez uma conferência sobre a enormidade de incestos, traições, concubinatos, amasiamentos e mais um sem-número de sem-vergonhices contidas no Velho Testamento que deixou boquiaberto o Prof. Salim Sidhartta, este doutor formado e com mestrado em Lingüística. E fez sua palestra, conforme afirmou então, escudado na sua condição de ex-crente Batista e, principalmente, na sua autoridade de cantador obrigado, por dever de ofício, a ser conhecedor do texto sagrado. (Sobre Tira-Teima, esse iluminado gênio alagoano do final do Século XX, falaremos mais à frente). Conversava-se muito miolo-de-pote e a garrafa de aguardente ficava correndo na roda, sempre temperada por um tira-gosto que eu mesmo preparava. Era um tempo adorável e, no íntimo, cada um de nós sabia que um dia ainda sentiríamos muita falta daquilo. Glória, mulher de Salim, viajou antes do combinado e deixou uma lacuna que envolvia a gente pelos quatro cantos. Meu compadre Tira-Teima também partiu para o infinito numa noite de lua e o silêncio de sua fala estridente me perturba até hoje. Orlando Tejo voltou para o Nordeste e a nossa roda acabou-se aos poucos, restando apenas a lembrança dessas besteiras que tento narrar agora. Quando Orlando Tejo aparecia - o que acontecia sempre - era sinal de que iríamos abraçar o sol com as mãos e ver o dia nascendo entre histórias de cantadores e declamações de poesias dos grandes mestres do repente nordestino. As envolventes conversas de Tejo nunca deixavam a conversa desaprumar e a noite era pequena para conter aquele universo tão rico daquele amigo cheio de enredos e de poesias. A aura iluminada de Orlando conseguia ser infinitamente maior que sua voz pequena, que nos obrigava a um silêncio absoluto para bem ouvir suas histórias. E que histórias! Tenho pena de quem gosta disso e não tem o privilégio de conviver com ele. E no apertado espaço da sala se ajeitavam confortavelmente Pinto de Monteiro, Diniz Vitorino, Manoel Pedro Clemente, Ascenso Ferreira, Dimas Batista, Canhotinho, Carlos Pena Filho, Otacílio Batista e quantos poetas houvesse nesse mundo nordestino que Deus houve por bem criar. O mais fantástico mundo de quantos mundos há em todos os continentes. Mas uma noite, Tejo deixou as histórias de lado e inventou de me desafiar para um jogo de gamão, tentado que foi pela visão do tabuleiro num canto da sala. Falou muito do Clube dos Caçadores, em Campina Grande, sua terra natal, onde era reputado como imbatível Mestre do Gamão, primeiro sem segundo, e deu notícias de uma infinidade de partidas, nas quais sempre terminava arrasando seus adversários. Fiquei bestificado e, resignado, resolvi me submeter ao sacrifício. O embate seria testemunhado pela minha mulher, minha "pata" preferida, e eu notei um sorriso de satisfação no canto de sua boca. Afinal, iria se vingar de um longo rosário de capotes e derrotas inenarráveis naquele tabuleiro, que já era móveis e utensílios dos nosso viver. A platéia se arrumou, ajeitamos as pedras e sacudimos os bozós. Parecia que tudo ia correr nos conformes. Eu nunca havia enfrentado Tejo e acreditava piamente que suas performances em Campina Grande iriam se repetir ali na minha sala. Foi ai que sucedeu-se a desgraça. Bafejado pelos caprichos de algum espírito gozador, massacrei o poeta com uma pisa atrás da outras, dando-lhe gamões homéricos e tirando-lhe o couro em surras de criar bicho. Ele fitava o tabuleiro, sacudia as pachacas e, a cada revés, ia crescendo em inconformismo. - Isso é que é ser um bicho cagado da gota! - resmungava entre uma e outra baforada no cachimbo. E o pau foi cantando de dar gosto, me deixando cada vez mais animado e o poeta com um ar de quem estava sinceramente puto. Retirou-se com o dia amanhecendo e eu pressenti um inédito toque de mau humor nos seus gestos, como que inconformado com a pisa que levara durante a noite. Como que querendo acreditar que aquilo fora uma grande sacanagem do destino. Afinal, suas histórias, para nós, tinham fé de ofício, e ninguém jamais seria capaz de duvidar que ele era realmente o maior Mestre de Gamão do Nordeste e da Paraíba. E, no entanto... Acompanhei-o até a porta e se despediu sem efusividades. Via-se que ruminava. Estava puto. Aquilo era demais para o auto-alardeado valor de grande jogador de gamão. A humilhação era ressaltada pela mangação que eu não podia evitar. Dois dias depois, assunto encerrado e esquecido, Orlando Tejo aparece na minha sala de trabalho com um ar misterioso e me pedindo reservas sobre o assunto que iria me falar. Garanti-lhe sigilo e fiquei curioso com o que viria a partir dali. Ele meteu a mão no bolso do paletó arrancando umas folhas, sussurrando que conseguira, através de um amigo, uma verdadeira preciosidade: uma coletânea de seis sonetos do saudoso poeta pernambucano Carlos Penna Filho, psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier. O poeta havia morrido de acidente de automóvel, na flor da mocidade, em pleno centro do Recife, em junho de 1960. Tejo passou as folhas cheio de mistérios, com recomendações de muito cuidado. O peso da responsabilidade me caiu sobre a cabeça e comecei a tatear no meio daqueles documentos. Iniciei a leitura e fiquei maravilhado, pois tratava-se, inegavelmente, da pena do magistral Carlos Penna Filho, o poeta do azul, o jovem vate que cantava as noites do Recife. Era ele, sem dúvida, o mestre Carlos Penna Filho, que viera do infinito para fazer borbulhar através da mão do mestre espírita de Uberaba o vigor de sua poesia. Viera, mais ainda, para minar a resistência da minha falta de fé naqueles assuntos do encantado e do post-mortem. Mas, à medida que fui avançando na leitura, percebi logo que se tratava de mais uma presepada do Tejo. Como não pudera me vencer no tabuleiro, vingava-se com aquela história de sonetos psicografados. Não demorou muito para que eu visse que estava diante de mais uma obra-prima do meu amigo. Uma obra-prima composta de seis sonetos, cuja característica, a que primeiro me soltou aos olhos, é que o último verso de um era o verso de abertura do próximo. Mas
o que interessa aqui é o primor que são estas poesias, cuja
transcrição vai a seguir:
Sonetos ditados pelo Poeta Carlos Penna Filho e psicografados pelo Médium Francisco Cândido Xavier, em Uberaba, MG, em 02/08/83 I
Sua
mestria, digna de áureas sagas,
Entanto,
Mestre é Mestre. E o Mestre Tejo,
E
quem é grande assim, sem sobressalto,
II
Seus
lances, que são mágicos, divinos,
E
vai nessas azuis veredas flóreas
Pois
que, sem o mais ínfimo obstáculo,
III
Sagrou-se
Professor no Vaticano
E
o próprio Papa, em sua santidade,
-
O Professor Orlando, por seus dotes,
IV
Em
Brasília, esse incrível campeão
Mais
outros e outros tantos, inclusive
Com
o Mestre Orlando é que não tem pirreps;
V
Este,
que se dizia surpreendente,
Autor
de um livro incólume, completo,
Jogou
com o Mestre Orlando, mas perdeu,
VI
Trata-se,
pois, de ilustre pedagogo
Este
Mestre, este Lente ínclito e nobre
Pode
bater no peito com vontade
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