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Existia em Palmares um sujeito ardiloso, baixinho, sempre de paletó sem gravata e chapéu na cabeça. Era jogador profissional e tirava seu sustento das roletas e dos jogos de azar. Ladino, matreiro, calejado, exercia aquele ofício com espertezas tais que só aos vocacionados é dado cumprir. Ele deslocava-se por toda a região e estabelecia sua banca nas feiras e nas festas de padroeiros, além de manter um ponto fixo no centro da cidade. Era um tipo curioso, de olhos vivos, que parecia viver em permanente mau humor. Lembro-me muito bem de suas feições, como lembro também dos enormes anelões com pedras coloridas que trazia nos dedos. Doutor Guerra Barreto, de saudosa memória, antes de se tornar Desembargador, passou um período de sua carreira como Promotor em Palmares. Resolveu esta autoridade por um fim à jogatina desenfreada que já se tornara tradicional na cidade, uma atividade ilegal que era exercida abertamente. Cercou-se o zeloso promotor de um destacamento policial e o primeiro ponto que resolveu fechar pessoalmente foi o cassino de Paquinha. Os homens fardados, em total surpresa, entraram no lugar com a habitual civilidade policialesca: virando mesas, quebrando cadeiras, derrubando portas, rebentando roletas e destruindo tudo que encontravam pela frente. No meio da confusão e do corre-corre, o Promotor fez figura e deitou toda sua autoridade com um grito: - Quem é o dono disso aqui? Paquinha, que observava tudo serenamente num canto do salão, respondeu com tranqüilidade: -
Oxente! Pra entrar quebrando tudo desse jeito, o dono deve ser o senhor
mesmo...
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