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Coração afoito, residente e domiciliado em peito nem tanto, de qualificações já conhecidas de Vossa Ternura, vem, mui esperançosamente, requerer o que se segue: A vossa cumplicidade para embalar o sonho de sua doce paixão. Em
anexo, do arquivo de sua cabeça, junta certidões que embasam
os seguintes desejos:
Requer muito? Crê que não. E mais deseja: Que seja dispensável, exceto mais acurado juízo, que vosso coração se apaixone por ele, mas que ele possa recolher marotamente a finura, a brandura e a doçura de tudo isto que está sentido por vós. E mais ainda: Que seja dispensável que namoreis com ele, mas que lhe seja permitido saber que consentis ser ele vosso namorado. Outrossim: Que se possa alardear que ele será um namorado terno, diligente, cuidadoso e preocupado com a vossa paz e o vosso bem-estar. Preocupado, sobretudo, em não constranger-vos e nem permitir que este enredo venha criar-vos constrangimentos. Com discrição cumprirá as datas e deixará discretas rosas sobre vossa mesa. Que permita-lhe amar-vos e admirar-vos, sem que necessariamente Vossa Ternura, em contrapartida, se sinta na obrigação de amá-lo. Muito embora, talvez, viesse a ficar desapontado se não tentasse, pelo menos, admirá-lo. Quando
nada, admirar esta lezeira de se apaixonar assim tão bestamente.
Que vos seja permitido cobrá-lo e exigi-lo. E que Vossa Ternura finja que está tendo ciúmes dele. Permitindo-lhe amar-vos - e dando-lhe ciência disso - haverá tanta paz e tantos cuidados ao vosso redor que um longo tempo de vida cobrirá vosso destino, e fará felizes todos os pensamentos que irão aflorar na cabeça de Vossa Ternura. Que,
enfim, em sendo este favoravelmente despachado, lhe seja permitido voar
seu amor de passarinho com a mesma descomunal alegria do menino que recebe
o "sim" da menina. Com a mesma inominável felicidade que só
aos corações apaixonados é dado pressentir.
Nestes
termos,
ansioso,
pede
e espera
deferimento.
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