Danças e Bailes

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por Intérprete

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Havia um reino localizado às margens plácidas de um riacho chamado Ipiranga.
Os habitantes viviam felizes, se requebrando ao som de um ritmo a que chamavam “samba”, e fazendo premonições no futuro através de uma espécie de loteria que denominavam “jogo do bicho”.
 O calendário do reino era quadrienal, pois ali o tempo era contado de quatro em quatro anos, em função de um evento que eles adoravam, a “copa do mundo”.
 De formação eminentemente católica, os habitantes haviam desenvolvido seus próprios ritos e costumes e, ao invés de “amém”, usavam a palavra “saravá”.

 Um dia surgiu uma tenebrosa nave, vinda de um lugar chamado “os-interesses-do-hemisfério-norte”.  Trazia uma ditadura-militar-truculenta, e de dentro dela saíram milhares de homenzinhos-verdes, que dominaram o reino e passaram a exigir que os habitantes pensassem exatamente como eles queriam que eles pensassem.
 Devidamente ameaçados e amedrontados, os habitantes passaram a obedecer cegamente aos homenzinhos-verdes, e quanto mais obedeciam, mais obediência lhes era exigida.
 Mas existiam homens corajosos no reino.
 Um deles, um representante do povo, a quem chamavam deputado, resolveu dizer abertamente o que pensava da ditadura-militar-truculenta. 
 O deputado foi ao congresso nacional do reino e fez um discurso conclamando os habitantes a mostrarem todo o desprezo que sentiam por ela.  Entre outras coisas, pediu que as moças, quando fossem a bailes, não aceitassem convites para dançar com os homenzinhos-verdes.
 A idéia nem era tão brilhante, mas o deputado era valente.  Apesar das várias voltas dos ponteiros do relógio do tempo, seu nome ainda é lembrado.  Chamava-se Márcio Moreira Alves.

 Ao saber do discurso, o general-presidente, que era o representante oficial da ditadura-militar-truculenta, ficou fulo de raiva e resolveu processar o deputado.  Mas, para processá-lo,  precisava de uma autorização do congresso nacional.
 Num arroubo de coragem(1), o congresso negou.

 Aí o general-presidente ficou mais fulo ainda, e só não ficou vermelho de raiva porque a cor, à época, comprometia.  Dizendo que o discurso do deputado colocava em risco a segurança nacional do reino, mandou o exército cercar o congresso, como forma de transformar o não em sim, naquele momento e para todo o sempre.

 Daí em diante, todos os generais-presidentes, porque a ditadura-militar-truculenta os substituía a cada seis anos, mandaram o exército cercar alguma coisa, sempre sob o argumento do risco à segurança nacional do reino.
 O exército, ávido por cumprir ordens superiores, saía às ruas e cercava tudo o que encontrasse pela frente:  trabalhadores, padres, membros da OAR(2), sindicalistas, estudantes, jornalistas, donas de casa; enfim, qualquer um cuja cara não lhes fosse simpática.  Dizem até que alguns deles, depois de cercados,  desapareceram e nunca mais foram vistos, havendo a crença popular que tenham se mudado para o reino da Dinamarca, onde havia algo de podre.

 O relógio da longa noite do tempo deu várias voltas, até que um dia, a ditadura-militar-truculenta amanheceu morta.
 Morrera de velhice e desatualização, e ao seu redor viviam vários políticos.  Uns eram a favor, outros eram contra e outros fingiam que eram contra, mas todos se locupletavam do eterno banquete político que era oferecido pelo reino.
 Com a ditadura-militar-truculenta morta de velhice e seus herdeiros mortos de vergonha, os homenzinhos-verdes voltaram para os seus quartéis, com seus óculos ray-ban e suas primeiras-damas peruas(3).

Os habitantes, como sempre é dado aos habitantes, saíram às ruas para festejar. Dançaram seus sambas e jogaram desbragadamente no jogo do bicho, apostando no burro.  Com isso adquiriram o direito de escolher quem bem entendessem para lhes governar ou desgovernar.

 Dispostos a recolocar o reino nos trilhos(4), resolveram escrever uma nova constituição.  Nela, definiram o que era e o que não era segurança nacional; e o que o exército podia e o que não podia cercar.  E para que ninguém fizesse confusão novamente, diferenciaram exército de polícia.

 A alegria voltou a reinar no reino(5), com os habitantes animados, esperando a próxima copa do mundo e cumprimentando-se com os seus “saravás”.

Mas, um dia...

 Um dia, um grupo de aldeões contaminados por um perigoso vírus, identificado pelos cientistas sociais como o-vírus-da-reforma-agrária-reprimida, invadiu as terras do filho de um homem poderoso e influente, que até os havia ajudado a escrever a constituição.

O homem era agora o sociólogo-neo-presidente, e achou que a invasão era provocação demais para a sua vã ideologia.  Achando que a invasão colocava em risco a segurança nacional das terras do filho, o sociólogo-neo-presidente telefonou para o general-que-não-era-presidente-mas-estava-louco-para-ser e mandou que ele pegasse o exército e cercasse os aldeões.

 O exército, sempre ávido para cumprir ordens superiores, foi lá e botou pra correr aquele bando de aldeões babando ideologias exóticas.  E para garantir que eles não voltassem, acampou nas terras por uns dias.
 E já que estava lá sem fazer nada, aproveitou para praticar umas manobras de pisoteio à constituição.

 O relógio da longa noite do tempo ainda não deu a próxima volta, mas todos já sabemos o que acontecerá se um Márcio Moreira Alves disser à moça para não dançar com sociólogos.


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(1) Não confundir com roubo, furto ou assalto.
(2) Ordem dos Advogados do Reino
(4) Não seria neste momento que criariam a ferrovia norte-sul
(5) Apenas força de expressão.  O reino não era uma 
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