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Poderia não
ser desse jeito. Poderia ser outro meu destino, minha tarefa de mestre-de-cerimônias
num ritual que conheço de cor. O pensamento me passa rápido,
é só um flash espocando sobre nossos corpos que já
começam a arfar, Peter e eu ajoelhados, ele meio arrancando meio
rasgando o vestido que se cola em mim como uma segunda pele e resiste em
curvas e reentrâncias. Mas não, assim não, protesto,
afastando-lhe a mão e obrigando-o a deitar-se de costas no
carpete branco e macio, nesta brancura que me envolve vinda de paredes,
sofás, até dos quadros com suas pinceladas mínimas
de cinzas e azuis e rosas evidenciando ainda mais esta sala inacreditavelmente
clara a emoldurar nossas silhuetas enlouquecidas. Meu vestido é
agora uma mancha de sangue no chão, ao lado, enquanto vou deslizando
sobre Peter -- chamo-o de Peter sem saber como chamá-lo, com seus
cabelos de trigo e pálidos olhos azuis postos em mim baços
de desejo, as mãos ensaiando o gesto de alçar-se e segurar
meus seios. Não deixo. Prendendo-lhe os quadris com força
entre minhas coxas, balanço um pouco, ondulo, faço com que
sinta a maciez de minhas nádegas achatando-lhe o sexo, empurrando,
luta ferrenha entre carne e rigidez que busca seu natural destino. Ergo
lentamente os braços, no caminho levantando os cabelos, que ele
me coma primeiro com os olhos, que veja bem os mamilos rijos apontando
para seu rosto, depois me inclino para a frente e brinco, esfregando-lhe
ora um ora outro seio nos lábios, mas não permitindo nunca
que dentes me prendam, que a língua ávida toque a carne.
Rebolo mais, ele geme, então concedo e me arrasto para trás,
para que perceba meus líquidos, para que se umedeça em minha
fonte e também para que seu pênis massageie cada centímetro
de meu sexo incandescente. Ainda não quero a penetração.
Acaricio-o, empunho sua arma orgulhosa, manuseio-a, e vou me afastando
mais, deixando que agora meus seios substituam as mãos, e é
ali, no regaço de meu busto, que mais entendo a urgência de
um homem, a luta titânica para adiar um prazer que não posso
desperdiçar. Seu jorro poderia vir neste exato instante, penso,
escorrendo em minha pele, atingindo-me a boca, o pescoço, os cabelos.
Eu depois espalharia lentamente cada gota de sêmen pela face, me
lambuzaria de sexo, desceria as mãos pela barriga, pelo púbis
e iria untar desse modo o clítoris ante o sôfrego olhar de
Peter. Poderia ser assim. Mas então Peter teria uma história
a contar amanhã, o alvorecer viria surpreender-me enrodilhada em
seus braços neste apartamento branco com toques leves em tons pastel
e nada mais haveria a fazer e ele seria outro qualquer, não Peter,
não este que me escolheu esta noite e que por isso foi por mim escolhido.
Não. Endireito-me, torno a sentar-me em sua barriga, dou-lhe tempo
de se refazer, sorrio e estendo o braço para o esquecido drinque
na mesinha. Ai, ele suspira, a mão em minha coxa, traçando
a firmeza do músculo que ainda o imobiliza. Não faça
assim, não me enlouqueça, doçura. Ele ainda não
provou meu gosto, não suspeita que se equivoca. Balanço de
novo os cabelos, sei o efeito que esta minha flamejante cabeleira causa,
o fogo que acende quando se reflete em meus olhos verdes. Finjo que beberico
o uísque, rebolo, traço uma trilha úmida agora para
a frente, em seu peito bronzeado de sol tornando-me ainda mais translúcida.
Ele cerra os olhos, geme, mas já rompi a trégua, apoio os
joelhos em ambos os lados de sua cabeça e desço. Agora faço
uma lenta dança do ventre, para frente e para trás, para
frente e para trás, é seu rosto que vou fodendo, seus lábios,
a língua incerta que ainda não achou o compasso. Lamba, depressa,
assim, isso, ahnnn. Com uma das mãos para trás tateio, quero
retribuir, ali é , impossivelmente rijo, impossivelmente aço.
Correnteza de pura delícia, Peter agora alterna entre açoite
e roçar de asas, lábios e dentes. Me imobilizo um segundo,
aqui, vê?, pode morder um pouquinho, chupar, enfie a língua
agora, tire, e sublinho as palavras com o pulsar de meus dedos da glande
até a raiz. De novo se aproxima o momento da lava, mas não,
segure, prolongue, como se possuísse só este instante e nenhum
outro, nunca mais, contenha-se, respire, nenhuma gota podería seperder,
nenhuma gota, pois cada uma será amanhã uma batida de meu
coração. Você não sabe, Peter, nem saberá.
Por isso tem de chegar ainda mais alto, ainda mais fundo, ainda mais intenso
para perder-se num delírio do qual não verá o fim.Por
isso venha agora, me acaricie, lamba meu corpo inteiro, coma, explore.
Caio ao lado e puxo seus braços, aceito seu pênis tateando
meu rosto o pescoço os seios o umbigo o púbis as coxas. Aceito
quando me deita de bruços e repete a trilha da nuca ao estreito
caminho entre nádegas, permito que espie o ânus e busque o
outro ninho, que chegue até o limiar e se agite na urgência
de irromper num recinto que por enquanto é apenas alvo, sonho, objeto
de um desejo que incha como um animal alucinado. Não fico passiva,
ajudo, numa louca coreografia me tornando serpente e cavalo bravio,
corcoveando e ondulando, e não grito quando seus dentes se cravam
em minha nuca, túmida projeção do que virá
logo mais, a criatura se contorcendo dentro da criatura, meu semelhante,
meu irmão, meu outro que habita todo ser humano. Ele entrou em meu
jogo, e as espirais vão acontecendo, elipses, rotação,
em que chegamos perto e nos afastamos do descontrole total. Sim, me foda,
me trepe, me sinta, realize cada fantasia, Peter, você a quem chamo
de Peter na falta de um nome para sua face de dono-do-mundo. Você
que me trouxe para este apartamento em sua Mercedes prateada, desfiando
histórias galantes e de antemão se congratulando pela boa
sorte de mais uma conquista, mais uma noite a arquivar na galeria de eventos
extraordinários. Enquanto isso eu sorria e fingia não ver
os dedos casualmente pousados em meu joelho, sorria acompanhando o fio
de seus pensamentos, sorria como agora, neste momento em que você,
com sua impaciência, enfia as mãos por debaixo de minha barriga
e me puxa, você quer ir até o fim, já não suporta
mais, e se mostra até um pouco desajeitado, sei que preciso
de novo agarrá-lo pelos cabelos e tirá-lo do rodamoinho,
e então escapo, deixo-o até arfante abraçando o nada,
ainda num ritmo que não pára de crescer. Respiro também,
de olhos fechados vou incursionando por cada uma de minhas veias, sentindo
o tamborilar que se enfraquece nas têmporas, quase sem perceber toco
dois dedos no pescoço e sei então que tenho poucos minutos,
talvez segundos, e me agito inteira, a força poderosa se irradiando
do útero, percorrendo fibras, aquecendo de antecipação,
latejando na vagina enquanto Peter me olha, de joelhos outra vez, o pênis
teso que aponta o inacreditável teto de vidro por onde poderíamos
ver as constelações se São Paulo ainda mostrasse suas
estrelas. Com gestos de gato vou chegando, abraço-o, mordo-lhe a
orelha, umedeço de saliva o pescoço, subo com a boca e prendo
nos dentes seu lábio inferior, sufoco seus gemidos com um beijo
e o empurro de novo para trás. Não precisamos de mãos
desta vez, sinto a glande e depois o resto de seu pênis se regozijando
em meu túnel estreito, sinto quando me toca no fundo e como parece
pulsar a cada movimento meu em que subo e desço cavalgando este
homem que é agora meu homem, meu supremo prazer, este homem que
viverá em mim por toda a eternidade. Nossa cadência torna-se
única, e se acelera, se agita, se recompõe com nossos gritos
misturados, nossos sussurros, nossas frases de sim, agora sim, vai fundo,
quero mais, você é; incrível doçura, quase nunca,
há quanto tempo, mais, ai como você sabe foder minha linda
e de repente quero que se cale, que não empane este ritual que não
precisaria ser assim, que poderia não ser o último para você,
como você não precisaria ser este Peter que me escolheu e
que por isso foi por mim escolhido para alimentar esta minha sede, esta
minha fome, este avassalador momento em que atingimos o orgasmo e te sufoco
o berro de macho porque acabei de cravar os dentes em tua jugular e estou
e bebendo o sangue, deixando que teu sangue e não teu sêmen
me inunde o rosto, o pescoço, os seios, uma orgia de morte para
que eu possa continuar vivendo minha vida de noturna criatura das sombras.
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red
cat
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