BICO DE CHALEIRA
 
 
 
para  Virginia Wolf, Sylvia Plath
e Ana Cristina Cesar.
Discretas, escolheram sair de cena
em nome de todas as transparências.
 
 
Vapores de seda chinesa 
 

Sedas chinesas  
e Sylvia  
compõem minha Vista de Delft.  
Nenhum navio.  
Ninguém à espera  
nesse cais abandonado.  

Que havia sobre o fogão  
no ano de mil novecentos e sessenta e três?  
Que incerteza a fez tão certa  
em anunciar o destino   
de Ana Cristina?  

Proust foi ao museu  
buscar as luzes de Delft.  

Nunca mais saiu de casa.  

Mas não delirou sozinho  
nos últimos delírios de febre:  
Cèleste foi ao mercado, à feira, à floricultura.  

Ninguém registrou se sonhava   
sonhos de seda chinesa  
enquanto aquecia as mãos  
numa xícara quente de chá.  

Haveria uma chaleira ao fogo  
-- impossível tea for two --  

no dia em que Sylvia cansou-se  
de sedas chinesas?  

no dia em que Ana voou  
sem suas luvas de pelica?  

no dia em que Virgínia guardou-se  
no vasto mar   
sem palavras?  

Um fog londrino,  
o Central Park deserto.  
Curitibas ensangüentadas,  
e um rumorejar   
de subterrâneos vapores  
em Paris.  
 

  
 
 
 
 
Visão entre vapores 
 
 
A bico de pena
revela-se
sem pressa.
Transparências
resvalam
essências.
Luminescências.
Róseos de aurora,
vertentes.
Vértice fugaz, 
vertigem.
(Entre humores
O poeta arfa.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sampa
Friday, September 26, 1997
16:14:40
 
 
poemas || contos || crônicas || artigos || artes || culinária || frases || trívia
 
   menu