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Encravado na montanha, o bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, é povoado por seres especiais. Artistas de todas as tendências convivem, ali, na mais pura harmonia, com seus atêlieres e suas artes. Bares, restaurantes, botequins, tudo tem um sabor especial. Santa Tereza é o século XIX, com seus casarios, castelos e ruas de paralelepípedos. Seu bondinho, o único no Rio, está entre os melhores passeios para quem quer descobrir a verdadeira alma carioca. Como já dizia Machado de Assis, em uma crônica de 1877, “... mas inauguraram-se os bonds. Agora é que Santa Teresa vai ficar na moda...” Então... resolvemos apresentar a vocês, neste número, um de seus habitantes: o brasileiríssimo artista Zé Andrade, baiano-carioca e morador de Santa Teresa desde que chegou aqui, vindo do sertão da Bahia. Conheci o Zé lá pelos finais dos anos 1970. Eu e alguns companheiros tínhamos um jornal de humor, O Pingente, que abria espaços para HQ e ilustradores. Até aí nada demais. Um dia o Guidacci me chega com esse baiano arretado com uma caixa cheia de esculturas em barro. Tímido, barbudo e de poucas palavras, foi logo mostrando a que veio. Como um mágico tirando o coelho da cartola, o Zé foi colocando na mesa seus filhotes. E se revelando um puta ceramista, como diriam meus amigos paulistas. Como nosso povo, suas esculturas transpiravam uma vida de sofrimentos sem fim. Apesar de nada ter mudado no Bananão, o Zé evoluiu com sua arte, sem jamais esquecer suas raízes, e partiu para personagens de nosso dia-a-dia. Pessoas que nos fazem orgulhar de nossas raízes. Hoje, conhecido no Brasil e no exterior, o Zé mostra aos leitores d'O Caixote seus bonecos. Desculpe, Zé... Personagens. Duayer |
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Você acredita em gnomos? Esta frase cada vez mais divulgada nas cidades faz com que muita gente acabe se tornando um ferrenho admirador dessa criatura minúscula que, segundo a lenda, habita as florestas e o interior mais profundo da terra, a guardiã das minas e tesouros subterrâneos jamais descobertos. Outros, mais graves na escolha de uma religião alternativa, vão mais longe ainda. Não só colecionam os pequenos duendes, como montam em casa um local especial para colocá-los a serviço da sua guarda e proteção espiritual. Esperam assim ser reconhecidos como um daqueles que merecem como prêmio a indicação de um tesouro, ainda que não seja material, algo que possa tornar a existência espiritualmente mais generosa. Quando o artista plástico Zé Andrade resolveu tomar para si a iniciativa de homenagear grandes figuras da humanidade, particularmente do Brasil, o fez – mesmo sem assim o desejar – sob o signo dos gnomos, ou seja, fazendo-os se representar através de pequenas esculturas de terracota, unindo dessa maneira a religiosidade milenar do barro aos anseios mais contemporâneos. Não é à toa, posto que os gnomos foram assim batizados também em virtude de serem possuidores de uma rara inteligência, sempre aliada à razão e à proposição de verdades morais definitivas (gnomas), que são as raízes de todos os provérbios, os adágios sentenciosos, os ditados que transformam a filosofia do povinho.
O que Zé Andrade faz ao juntar à sua coleção de
Da mesma forma Zé Andrade mostra que não é impossível se juntar ao caráter universal deste trabalho tão brasileiro que Burle Marx nos legou, às idéias de Einstein, cujo pensamento materialista sobre a relatividade das coisas aproximou a alma humana da eternidade possível que tanto os pobres mortais almejam e juntar toda essa sopa ao pensamento apaixonado de Nietzsche, que torna indistintas as fronteiras da razão e da loucura, mas acaba por defini-las como inexistentes. Sem se fazer de rogado Zé Andrade nos dá a chance de juntar num só altar a expressividade da prosa de Machado de Assis, iniciador da fase familiar de nosso romance, incorporando não só a despensa e os hábitos caseiros, como também as mazelas espirituais bem domésticas, ao personagem picaresco de Mário de Andrade, que com Macunaíma importou das lendas indígenas o caráter que milhormente expressa a expressão brasileira, agregando toda essa feijoada à grandiosidade sertaneja com que Guimarães Rosa emoldurou suas narrativas, trazendo-nos uma visão cinemascópica do nosso interior mais remoto. São eles, pela própria razão da existência, os seres gnômicos modernos que justificam a etimologia (a expressão é grega gnomikos, vinda pelo latim dos feiticeiros gnomicus), justo as entidades possuidoras de outros poderes além da inteligência marcante, são seres escolhidos por Deus para melhorar a existência terrena. Ou, em outro degrau espiritual, aqueles raros que os alquimistas reconheciam a um primeiro olhar como trazendo dentro de si o ardor da sabedoria, a flama existencial, o poder da genialidade. São fragmentos da inteligência que vaga pelo universo, matéria-prima da alma humana, que de outra forma seriam esquecidos ou, em outras palavras, pílulas de memória, como prefere o próprio Zé Andrade.
Na criação de Zé Andrade, a poesia se faz presente de forma contumaz, pois não tem apenas Fernando Pessoa, que não é apenas uma, mas várias pessoas, cuja heteronímia o aproxima intimamente dos gnomos. Tem também Manuel Bandeira, cuja longevidade era-lhe insuspeitada mercê da tuberculose com a qual sempre conviveu desde a mocidade, fazendo-o passar cada dia como se fosse o último e assim expressar esse estado espiritual em todas as suas poesias, para não falar de Ferreira Gullar – vivo e entre nós – autor do Poema Sujo, sem dúvida alguma o texto mais representativo do éthnos brasílico dos tempos atuais. São estrelas da vida inteira e merecem sem dúvida freqüentar o mesmo altar... Zé Andrade nos faz transitar pelas mesmas trilhas tortuosas da imaginação que povoam as plantações de girassol de Van Gogh, enquanto que o seu Picasso parece imaginar o que foi aquela Guernica dolorosa, sem cores, negra e branca, cujo sangue impensado borraria todas as telas do mundo. Traz-nos também as figuras de personagens que superaram seus criadores, sobrevivendo como seres eternizados, Carlitos, Dom Quixote e o nosso Barão de Itararé, que ainda irão alegrar a existência humana por séculos vindouros, enchendo-a da paz necessária para suportar toda a tragédia da bomba.
Para participar da coleção criada por Zé Andrade não basta ter um nome famoso, ter estrela na calçada da fama, pois, além disso, a personalidade figurada há de possuir algo de afinidade com os gnomos, em outras palavras, com a sabedoria, a religiosidade, o dever e a obrigação de ter tido uma existência estelar, fortemente associada a benefícios em defesa daquilo que mais prezamos: nossa tão amada casa, a Terra e seus habitantes. Deste mesmo modo as mãos do artista de Zé Andrade nos dão através do barro e da essência sempiterna, o calor das novas vidas de Groucho Marx, de Alfred Hitchcock e de Woody Allen, magos que levaram às telas dos cinemas gravações de passagens de nossas vidas passadas, presentes, futuras, componentes de nossos medos e temores, mas semeadores de sonhos. São membros de uma mesma equipe, gloriosos plantadores de esperanças, iguais a Sigmund Freud, a Mahatma Ghandi e ao nosso Sobral Pinto, sonhadores de um mundo melhor, filósofos da incompreensão e por isso mesmo simplesmente necessários. Esses são os gnomos de que a vida atual necessita, não aquela coleção de corujinhas, tartarugas ou gnomos europeus e nórdicos. Estes já têm muita preocupação em preservar as florestas e as riquezas dos solos daquelas terras. Precisamos ter a companhia de gnomos modernos, gênios que nos encaminhem para uma existência espiritualmente rica, que nos abram a cabeça para novas idéias. Mestres que espicacem nosso espírito para a aventura, que façam do risco desconhecido uma vitória e sábios que nos dêem coragem tanto para enfrentar os maus corações, para nos encher de força e tesão para lutar por aquilo que sonhamos. Almas sensíveis que sejam inspiração para selecionar as flores e ervas que escolhemos para nosso jardim, que sejam sementes para as árvores, os frutos que queremos para nossa mesa. Faça um conjunto conforme suas personalidade e... incense-o. É essa a ocasião que Zé Andrade nos dá e que não podemos perder. |
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