Três poéticas da coletânea "Araguaris (Narrativas Poéticas)" dada aos olhos dos outros no Museu Nacional de Belas Arte do Rio de Janeiro, de 21 de fevereiro a 25 de março de 2001

 

 

 

O Sabor do Pão

 

No terreiro do chalé amarelo,
Era tanto o que fazer,
Tanta novidade o mundo punha nos meus sentidos,
Que o dia infinito custava a deixar a tarde chegar.
Mas de repente, no calor das três horas ensolaradas,
Blem, blem! Era o sino do padeiro;
De todas as casas, largando tudo que estavam fazendo,
Acorriam, velozes, punhados de meninos descalços,
Agora, o mundo era feito de pão doce e pão-d'água!

Paciencioso, o seu Benedito sofreava o cavalo castanho,
Batia para trás o chapéu de feltro marrom,
Olhava em volta, apreciando a expectativa da meninada,
E descia devagar para abrir a tampa da carroça.
A visão daquelas gostosuras todas dava água na boca da gente,
E o aroma dos pães transformava a tarde em pura alegria!
Atônito, o padeiro procurava pôr alguma ordem
No enxame de meninos que fervilhava ruidoso,
Parecendo abelhas atraídas pelo creme amarelinho do pão doce.

Três pães envoltos em papel pardo,
Preso nas pontas pelos hábeis dedos do padeiro,
Volteavam rápidos no ar seguidos pelo vaivém do meu nariz.
Sem desmanchar as orelhinhas torcidas do papel,
Minha alegria corria com os pães para o chalé amarelo.

Na chapa do fogão de lenha,
O bule, com descascados escuros no esmalte verde,
Largava no ar, num frouxo vapor, o aroma do café.
Sobre a mesa nua, a nossa saborosa singeleza,
A manteiga para lá, o leite para cá, os pães no meio,
E as nossas chávenas de louça branca, ajeitadinhas
No retângulo familiar que era distribuído assim:

O irmão mais velho ficava numa ponta,
Eu e minha irmã nos lados, um defronte ao outro,
E na outra ponta, com as mãos derramando amor,
A suave mãe da gente, com vestido ramado,
Esquecendo agruras da viuvez,
Olhava, enternecida, a filharada barulhenta
E dividia o seu afeto em pedaços de pão!

     

 

 

  Estiolada
 

É tarde e ela já tomou as providências para a noite,
Passou a tranca de madeira na porta dos fundos,
Pôs veneno para o despitismo de baratas
Que deu de aparecer debaixo do rabo do fogão de lenha, 
Lugar quentinho onde elas gostam de ficar.
Antes do escuro corredor dos quartos,
Lá na sala de jantar, 
No oratório de Santo Antônio,
O monte de vela derretida
Já quase se apagou.
Pressurosa, ela acende outra,
Que a sua esperança ainda não se acabou.

Com a casa adormecida como ela gosta,
Ela agora está a postos. 
Pela fresta aberta da veneziana,
Na escuridão de seu quarto de solteira,
Ela olha a rua, espreita os pecados alheios.
Vigia quem chega com quem,
Uma batida de porta de carro,
A deixa em sobressalto. 

Maligna, 
Sua boca saliva os prazeres dos outros
Que tanto flagela em si:

- Homem nenhum não presta mesmo!
- Uai... - pondera a fina ironia de minha mãe;
- Então, decerto você já experimentou algum!

Com um remoque de irritação,
Ela arrasta, sonoros, os seus chinelos,
Pela estreita calçada de cimento do seu jardim.

Por entre flores e ervas para chás,
Recolhe, com amargor, o despeito 
No escuro silêncio de sua casa.
O seu sexo emurchecido,
Há muito tempo gotejou por alguém,
Mas gotejou tanto e à toa,
Que, sem nunca sentir um gozo, secou.

 

 

 

 

 

  Rosas Brancas

 

Junto ao velho muro de taipa avermelhada,
Carcomido pelos látegos das chuvas,
Com todo o cuidado e desvelo,
Minha mãe fez o canteiro de rosas.
Esterco, casca de ovo moída,
Terra afofada e bem regada;
E nada! 

Por um capricho misterioso,
As roseiras encruadas, estéreis,
Recusavam-se a nos dar as suas flores
Para enfeitar nosso quintal.
Só uns poucos botões mirrados...
Ingratas roseiras!

Um dia, mudamos do velho chalé amarelo.
E então, quando já nem nos lembrávamos delas,
Das roseiras encruadas,
Soam batidas na porta da rua e... 
Ei-las! Um lindo buquê de rosas brancas!
De onde vinham?! Ora.... nem era preciso perguntar!
Pelas mãos de quem as trouxe, não havia dúvida,
Eram de lá, do quintal do chalé amarelo!

Finalmente, as roseiras floresceram com gosto!
Mas floresceram pelas mãos de quem tantos espinhos
Cravou na alma de minha mãe!
Com uma pontinha de despeito, ela as recolheu:
- .... Como são lindas! Mas antes, não gostaram 
[dos meus tratos!
As rosas, que tardiamente agradeceram 
[os cuidados recebidos,
Agora, eram mensageiras de velhas mágoas!

 

 

 

Um Modo de Olhar

 

Um dia, os seus olhares se cruzaram
Daquele modo muito particular;
O modo era o modo de se gostar.
Irrefletidamente, deram trela aos sentimentos,
E sob o mesmo teto foram morar.

Encostaram suas intimidades,
Trocaram seus cheiros e sumos,
E vieram os filhos,
- Com a graça de Deus - dizia ela.
Mas os janeiros se foram indo...
Os filhos cresceram e tomaram seus rumos,
A vida deslustrou-se nas mesmices,
E de repente, cadê ele, o modo de se gostar?
Aquele sentir gostoso,
Que servira de tempero,
Na massa agora insossa de suas vidas,
Perdera-se entre as agruras
Nunca sequer suspeitadas nos começos.

Agora, o olhar brilha sim,
Mas é do ódio de todas as horas do dia,
Que amaldiçoa aquele instante lá atrás,
Quando seus olhares erraram de rumo.

Sai o cortejo levando o corpo dele,
Do outro lado da rua, adiante da sapataria do Zé Alvim,
Lá da janela, incontida, ela urra:
- Eh! Desgraçaaa! Vai, vai levando carne pro capeta!
Ela grita sua infelicidade louca para a rua,
Que não a compreende e não pensa
Que tudo começou com um certo modo de olhar!

 

 

Carlos Rodolfo Stopa
Seu universo de criação é marcado profundamente pelas cenas das ruas e praças da cidade natal, Araguari-MG, e da antiga Fazenda Barreirão de propriedade de seu tio Nicolino Caetano, localizada às margens do Rio Paranaíba, limiar dos mundos de Goiás. O autor fez seus estudos (Física) na Universidade de São Paulo, e completou sua formação nos E.U.A. onde recebeu o grau de PhD (Física Nuclear). Atualmente, além das suas atividades tecnocientíficas no Centro Técnico Aeroespacial de São José dos Campos, cumprindo o "sonho de criança - ser um escritor - do qual fora desencaminhado pelas tantas escolhas que fez", escreve poesias e contos. 

stopa@uol.com.br