A ti que monstros ameaçam

 
  É a ti que monstros ameaçam.
E a mim que atacam.
Tens teu sossego invadido,
Eu, meu paraíso destruído.
Tomas todas as decisões cabíveis,
E eu admiro e aceito,
Tolero, compreendo,
E choro.

E um dia depois do outro
Me debato inutilmente.
Te quero, e não digo.
Te espero, e nada faço.
(nada pode ser mais contra minha natureza)

Nenhum gesto.
Como se nada houvesse.
Como se eu não gritasse.
Como se a cada momento não faltasse...

Sou a contenção
E a civilidade.
Nada em exagero,
Nada sem nexo,
Nada que extrapole limites.
(além dos quais só eu sei).

Nada que escandalize,
Ou chame a atenção para as chamas.
Nada visível.

E enquanto me perco
No desejo sem paradeiro,
Enquanto choro lágrimas
Que não vês,
Enquanto chamo, murmuro,
Meu gemido no escuro,
Fazemos de conta todos
Que era apenas um jogo.

Como se não fôssemos pessoas.
Como se não fossem afetos.
Como se não fosse tesão
E minh'alma não estivesse contra o muro
(ah... o pelotão de fuzilamento...)
 


 

    Adélia
    Ô Adélia...
Me diz... como se faz poesia assim...?
Com a alma e o coração?
Com a boca do estômago,
O cérebro, muito muque?
E as palmas das mãos estendidas?
Assim...
Generosas...?

Ensina pra gente,
Como é que se faz...?

02/06/99

 

A sparkle    
A sparkle. Just a sparkle.
Uma faísca.
It's all that takes
To light a fire.
Acende-se o encanto da alma.
E súbito, 
Perde-se a calma...

Surge este brilho no olhar.
Paira um sorriso,
Uma certa falta de ar,
Inédita ansiedade
Entre todas.

E uma porta se abre...

Move-se o mundo todo,
Invertem-se ordens e fatores.
Sorrio feliz...
(And it was just a little sparkle)

Rio 06/01/00
   

 

  Borbota  


Borra botas...
Borboleta...
Borrifa...
Perfume estranho
Que amedronta
E tenta...

Derrama
O pranto ungido
Por beijos ausentes,
De calor duvidoso,
Lágrimas azuis...

Estremece,
Extrema angústia.
De felicidade e medo,
Tesão e ânsia...
Tremula,
Bandeira rubra,
Desejosa e aflita,
Coração de mim. 

Rio 14/04/99
 

 

   

Gostava às vezes de ser outra

   

 

Gostava às vezes de ser outra.
Outra mulher a sussurrar sem medo
Gostava de ser uma, assim, calma, paciente.
Que levasse a vida devagar, sem agonia.
Assim, como quem não sente.

Gostava de ser outra a descansar,
Tranqüila...
Consciência em paz, sossegada,
De quem não se atira à vida.
Uma assim que não sofresse,
Não parasse, pra pensar...
Não se arrependesse.

Mas não. Tenho o espírito 
Em constante rebuliço.
Sempre perguntando o porquê
De tudo isso.
Ora apaixonada,
Ora em desgraça,
Ora alegre, triste, irada.
Danço e brigo,
Vou e volto.

Gostava bem de ser outra,
Às vezes...
(A poesia me abandonava?)


Rio (noite alta) 03/03/2000

 

Triste

Spirituals

Escuridão

Sinto meu coração molhado,
de lágrimas...

Meu espírito
é formado de muitas marcas,
spirituals,
hinos de tristeza e fé...

Mão nenhuma se estende.
A noite é muda, surda, e
cega.

 

Rapto

Agudo

Trânsito

Nem nos meus mais loucos
sonhos,
sonhei...

Seu grito me estala
na cara.
E corta.

Em meio ao trânsito,
buzinas.
Por entre um blues,
lágrimas.

 

Busco

Meu olhar

À queima-roupa

Soluções, caminhos novos
mas como?...
Se ainda piso em ovos?

Quer se estender
e te abraçar,
pra isso faz-se mar...

Esse rumo incerto
me tira do prumo,
acerta meu peito,
qual tiro de perto...

 

     
 

Carioca, mãe de três filhos, psiquiatra com formação em psicanálise, tardiamente escrevendo essas bobagens, gostando demais de ler, e da vida.

schueire@uol.com.br

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