I

Para contar um sonho,
eu preciso dos teus dedos
e do toque do vento.
Relembro um traço mais tênue
que a silhueta das árvores,
e recorto teu rosto na saudade
da memória.
Para contar um sonho,
eu preciso de teus olhos
e do tremor do vento.
Tomo do mais novo tom
no crepúsculo inventado
e retoco o céu amendoado
de um suspiro.
Para revelar meu sonho
eu preciso dos teus lábios
e do murmúrio do vento
Então, as mãos em concha,
ecoo o som do sono
no teu nome
e sopro o teu pensamento
que viveu o sonho em mim.

Há uma dança macabra
de palavras, esta noite,
todas mortas, revivendo vozes,
todas claras, revolvendo a lua,
todas redivivas e fugazes
nos lindes da música.

(É a hora da mímica do passado:
rememoro os papéis,
as partituras que deixaste
nas palavras ditas,
as canções da ante-aurora,
e os braços de luar vestidos
nos tateios do amor.)

Há uma dança noturna,
      de palavras graves,
gravadas nos teus dedos
desfloridos.
Sombras de dizeres reescritos
nas volteios infinitos
da memória.

De ti, indolente, fiz
retalhos de carinhos
rebordei as margens
da estrada maltrapilha,
inventei segredos
de ser.
Tu, remanso sem sono,
mantéu de mãos
em sã demência

Tu, minha preguiça
de orvalho sem noites
irreverência minha
nos lençóis suaves
do poema.
Tu, inevitável vida,
Tu, inesquecível morte.

[próxima]

  
 

Lilia Silvestre Chaves

Poeta, professora de Literatura Francesa, autora de ensaios sobre teoria literária e do livro de poemas E todas as orquestras acenderam a lua.

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