Vamos dançar um blues
no salão pintado de azul
na rua das Desilusões Amorosas Nº. 13?

Haverá uma orquestra esquentando o ambiente.
Tomaremos um ou dois champanhes
e falaremos do amor como quem fala da morte
num desencanto cruel de quem sofreu
a ambigüidade do tema universal.

Vamos dançar um blues
na rua das Desilusões Amorosas Nº. 13
e já tarde da noite falaremos
do mito desastrado, faminto
que jorra aos nossos pés
um sangue tocante
que não ousa coagular
no profundo da carne e das carícias.

No salão azul pintado de blue
dançaremos ao som romântico
dos instrumentos musicais
e no sussurro de nossas vozes
e na paz sensível
(de memórias difíceis)
arrastaremos a carne no salão
sob o som de um blues
da rua das Desilusões Amorosas Nº. 13.

 
 

   
         
   
 

         
         
   

Meu primo daltônico morreu atropelado
Atravessando um sinal (ou seria um semáforo?) na Geremário Dantas.
Não me importo com essas nuances da língua.
Me importo com as nuances das cores que ele não via.

 
 

   
         
   
 

         
         
   

Pelo canto de minha cama
onde navega meu medo
onde murmuram meus pecados

pelos cantos de meu corpo
onde esfarelam os discursos, os dízimos e os celeiros vazios.

Pelo canto de cada palmo que percorro
Onde rolam seixos
que corroem a terra
onde finco a raiz de meu passado
vejo pelos olhos ásperos que Deus me deu

algumas paixões inacabadas
de amantes fugidias em desabalado cinismo
tios, avós, primos, bisavós, parentes pregados na parede
de um prumo cego e incerto
posta que não é humana
apenas um ruído caiado de cal
um risco de alguma porrada irreal.

Ninguém nasce em Minas impunemente
carregando nas costas o rococó de suas igrejas
o canto dos padres que só me fazem
mais triste e com uma inexplicável
vontade de partir no primeiro tiro que escuto
dado que a histeria é geral

queimar o fumo e deixar uma ternura inacabada
tomar conta de mim
nesta manhã de Tombos que é uma
saudade sossegada num canto qualquer
de meu coração
um monte longínquo, uma cachoeira em quedas
que me lembram meus tombos pela vida

Ah, se tomo a cachaça Minha Perdição
irão dizer que minha suavidade
é maior do que a impressão que viram
quando meu avô-coronel matou o prefeito e assumiu
a cidade na beira do rio Carangola
se bem que não tenho nada com isto

e se minhas lágrimas escorrem
é porque sonho com algum mistério
que ressurge
quando você passa por mim
e deixa um cheiro d’eau belle azzaro

O luar foi embora,
azar o que sempre digo:
você não me vê
e os becos ficam cheirando
a esperma
de amantes sem motéis

e se me
posto em seu caminho
o frio que sinto passar por mim
é o mesmo que sinto
sem o marulho de
suas pernas em minhas virilhas
confusas, azuladas e doloridas
Então acho melhor dormir
e esquecer isso tudo.

 
 

   
         
   
 

         
         
   

Eu me afogo aos largos de minha vida
Sem deixar sequer um sonho vagabundo
um desejo de partida
neste fastio que é estar vazio.
Pra quê?

Quero dormir como um vadio
Um filho da puta qualquer antes do vôo
– simplesmente num delírio sem rastro –
para que ninguém saiba se este rumor
                                                             se este respiro
a uivar pela noite
seja a sensação absoluta
de não conter nesse corpo que me deram
a raiz subordinada à terra
a equação que é estar vivo
e não saber a engrenagem de cada momento.

 
 

   
         
   
 

         
   

Ainda
buscando o sentido que é estar vivo, difuso e contraditório.

Ainda
no fastio das sobras, dos gestos e das exceções.

Ainda
sentindo a febre. A impaciência de supostos sonhos.

Ainda
na clara manhã

Ainda
na luz de seus olhos

Ainda.

 

 

   
         
     
 

 
         
         
   

Vagar
(amar)
Navegar em suas águas
e submergir.

(amar)
Navegar
Vagar e em seu fluxo
me perder.

Navegar
Vagar
(amar)
Esquecido da terra
onde piso.

 
 

   
         
   
 

   
         
   

Meus sapatos estão gastos
gastos de andar pela vida
e sem encontrar
um porto
um porto para deitar âncoras e dormir
dormir um sono tranqüilo
e não acordar.

Vejo aquela senhora tocando clarineta
um sonho oblíquo
raiando sobre mim
minhas entranhas
– estranhas extensões –
vastas e esdrúxulas tremulam como bandeiras de simbólicas
                         sig
nificações.

Pensando nisso é melhor não ter compromissos
ou quando der vontade
talvez comprar um cigarro e sair por aí
como se a vida fosse só comprar cigarros
um
                                                                           destino
                                 indefinido.

Uma viagem
                                                                           sem rota.
Sem ré.
                                 Mapa ou volante.

Nada de injunções (Meus sapatos estão gastos)
Nada de obrigações (Gastos de andar pela vida)
Somente um nada
– a vida –
indefinidamente abstrata
como o som daquela senhora tocando clarineta.

 
 

   
         

 

     


 

 

Duayer
Nasceu em Tombos, Minas Gerais e reside no Rio de Janeiro. É jornalista e hoje trabalha como assessor de imprensa. Começou na Rádio Jornal do Brasil, depois foi para O Pasquim e lá ficou como ilustrador, cartunista, fotógrafo e redator bissexto. Teve trabalhos publicados nos jornais Última Hora, Diário de Notícias, Jornal do Brasil, A Crítica; em revistas nacionais como Playboy, Status, Mad, Ficção, Revista do Faustão, Visão e em revistas internacionais como Free Press na Holanda, Liberation, na França, World Press Review, nos Estados Unidos; possui algumas premiações em fotografia e cartuns.
Bibliografia
1. No País das Maravilhas – Editora Codecri, 1981 – Cartuns e Charges
2. Viajante – Editora Callis, 1998 – Infantil
3. Minha Casa – Editora Callis, 1989 – Infantil
4. Obras Coletivas:
Zensur in Brasilien – Suécia
Brasilien, der Proteste der Polischen Gefangenen – Alemanha
Enciclopédia Latino-Americana de Humor – Colômbia
Nuestro Siglo – México
Enciclopédia Brasileira de Humor – Brasil