Todos os meus sábados
no sol desta tarde.

Todos os meus sóis
na tarde deste sábado.

Todas as minhas tardes
no sol deste sábado.

Toda a minha vida
no sábado desta tarde de sol.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Não sou ou
sou e

Dual nem atual
sou plural

Não sou sim ou não
meu teto é a felicidade.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

A Carlos Drummond de Andrade

 
     
     
 

No meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do caminho.
Tinha uma perda.
No meio do caminho tinha uma perda.

Primeiro a irmã depois o pai.
Não sabia que no meio do caminho
tinha a perda do paraíso
que me fez bravo.
Fui só, fui eu,
fui vida a partir da perda
que me estava destinada
no meio do carinho
de minha mãe solitária.

Fui perda de mim mesmo
procurado por toda a vida
até que achado no poema
do meu hoje encanecido.

Tudo porque
no meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do carinho.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Sou o que fui falado
A gente é
o que foi falado
ou o que aprendeu a calar
no momento (qual?)
em que se perdeu de si.

Salvar-se é descobrir
o trágico e derrisório instante
em que a criança se perde de si mesma,
para ser o que dela os demais pretendem.

Missa de Réquiem
para o que poderiam ter sido
A elas, como a nós,
ternura e compreensão.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Não quero ser faca ou espelho
antes vidro, varado, transparente,
pretendo nada significar, só ver.
Talvez nem isso: sorver.
Ou apenas estar, como aquela folha de couve
parte do real e não seu juiz ou cantor.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Fabrico o polietileno
na unidade de separação
etano, propano, eterno.

O tédio.

Busco, aflito, a unidade
de pirólise e polímeros.
Sou dipirólise ou simbiose.

Gnose.

Preciso de empréstimo
pois sou carência
de cinco a dez anos.

De amor.

Meu pólo de transformação
é diferencial de alíquotas
em parcerias bi-unívocas.

Do ser.

Preciso regularizar urgente
áreas interiores desapropriadas
Urge arrecadar meu ISS.

Imposto sobre salvação.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Passeio-me o eu
pelas calçadas da memória
onde a decadência não chegou
e aquele rapaz amoroso e bom
ainda faz serão e vestibular
para viver a vida ou morte
mas desafiar interrogações
básicas do ser.

Passeio-me o mim
deambular fugidio
de tanta vida não vivida
exceto nas paralelas
onde o ser se revela
e faz o que não viveu
ser memória ram
oculta no computador biografia
mas impressa no cine saudade
e na pulsação esta
que agora me asfalta o peito
e povoa o estro ordinário.

 
     
 
   


 

           

 

 

Paulo Alberto Artur da Távola Moretzsohn Monteiro de Barros
Carioca, nascido em 3 de janeiro de 1936, o advogado, jornalista, radialista, escritor e professor Artur da Távola tem também uma longa trajetória política, tendo sido deputado, senador e líder do PSDB. Editou a revista trimestral de comunicação, arte e educação, Contato que era distribuída graciosamente para as instituições culturais de todo o Brasil e destaca-se como articulista e cronista em diversos órgãos de imprensa no Brasil.
www.arturdatavola.com/