A folha branca jaz à minha frente. Pouso a caneta em sua superfície. A mão insana não escreve: está paralisada. O olhar fixo na parede. Nenhuma idéia, nenhum pensamento. É tudo tão branco, hoje.

A caneta chora e cai uma gota de tinta. O papel não é mais virgem.

Então eu choro e cai uma lágrima salgada. Olho com atenção a página rasurada, irremediavelmente estragada. Era tão bonita, quando ainda intocada.

Mais uma lágrima da caneta. Choro. Outra gota de sal me escapa. Enxugo a caneta, seco minhas lágrimas, amasso o papel e jogo-o no lixo. Guardo a caneta. Recomponho-me dessa tristeza.

Hoje definitivamente não é dia de escrever.

E assim enterro minha obra-prima, antes mesmo que ela nasça...

20/06/04
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Repasso os olhos sobre meus textos. Linhas soltas, formando um conjunto fechado de idéias. Um círculo. Vicioso, odioso, enfadonho. Fico ansiosa, pois essas linhas não me levam a parte alguma. Ao contrário: incide sobre elas algo de minha vivência que nelas imprimo, subestimando uma solidão vazia, idéias inerentes a todo cérebro pensante. Aí fico imaginando: e se, finalmente, eu conseguisse publicar um livro, ganhar um concurso, ser notada? O que me valeria? Só para ter quinze míseros minutos de fama? E depois? Eu pararia de escrever?

O tempo urge! E minha vida ruge! Como um leão a fazer várias vítimas por dia: enforco, desloco, entorto as letras ao meu bel prazer! Faço-as vítimas de minhas linhas; reféns de meus textos. Ao término do crime, sinto-me um assassino vazio. Um oco me preenche as lacunas íntimas. Vazio dentro do vazio. Nada envolto em brumas. Tudo se esvaindo por entre as veias pulsantes.

Concluo, satisfeita com tal pensamento, que a Internet é, de fato, o paraíso dos pretensos escritores, pois ambos os vícios (escrever e navegar) são emoldurados pela solidão.

Corre pulsante a vida exterior, da qual não faço parte: concha alucinada, voz de falsete, atriz de quinta, não brilhei a estrela que em mim agora jaz.

Vida que se apaga em cada esquina, perco em cada dia meus sonhos de menina. Endireito as costas. Uma lágrima cai, ao olhar para o monitor: escrevo pra quê?

Simplesmente para provar a mim mesma que não sou inútil, que sou um ser pensante, que não apenas mais uma madame do monitor?

Hoje me deu saudades da vida. Aqui dentro um frio cortante; lá fora vejo, pela janela entreaberta, um dia caloroso de sol. Quero viver além da escrita! Quero existir além da banalidade diária do “texto de hoje”!

27/04/04
(Reflexões após ler A suavidade do vento, de Cristóvão Tezza)

 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Fechou as cortinas com calma, prestando atenção em cada prega do tecido fino, em cada mancha-mácula-marca do amor que se foi.

Trocou a roupa de cama, lavou o corpo esfregando cada curva, cada ruga, cada lembrança, na tentativa de tirar totalmente do quarto e de seu corpo qualquer resquício dele. Não queria mais sentir o seu cheiro, não queria se deparar com um fio sequer de cabelo dele. Ocupou a parte que era dele no guarda-roupa com seus “apetrechos descartáveis”, como ele dizia: bolsas, sapatos, a caixa de fotografias. Os livros, acomodou-os na mesa de cabeceira dele que era bem maior que a sua, claro, pois ele sempre escolhia o melhor para si.

Passou a casa em revista para ver se ele havia esquecido algo e o que teria levado que não fosse de seu, além do amor próprio, da vaidade e do amor que ela sentiu, o qual ele mesmo despertou e ele mesmo destruiu.

Ele simplesmente levou as toalhas de banho novas, que ela comprou, e largou os trapos felpudos velhos do seu enxoval de chegada. Ela não tinha mais condições de ficar nervosa com nenhum desaforo. Dele, tudo se podia esperar. Quem sabe até uma pensão pedindo “honorários” pelo sexo, ou “danos morais”, ou qualquer coisa que algum advogado desumano achasse que por lei lhe daria direitos de acabar de vez com ela.

Voltando à realidade, viu que ele levara todos os cds. Alguns ela salvara, pois já tinha escondido. Mas ele esqueceu os livros. Se viesse buscar ela trocaria pelos cds pessoais dela, que ele levara. E se não viesse, haveria de queimá-los, só de raiva.

Olhou a casa vazia e ficou pensando o que fazer com aquele espaço tão grande. Chegou a pensar em abrir algum negócio.

Súbito, uma idéia. Resolveu que venderia a casa, mudaria de cidade e iria não sei pra onde. Recomeçaria a vida onde e como quisesse. Afinal, agora era pássaro livre.

Subiu, voltou ao quarto, sentou-se à beira da cama e começou a chorar. Ela sabia que estava certa em fazer o que fez, mas não gostava da solidão. Na boca, o gosto amargo do amor que se foi, deixando-a vazia e murcha de vida.

25/04/04
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Falta um pedaço no bolo que está na geladeira. Falta um pedaço de mim, quando meu filho sai à rua. Falta um pedaço da carne que assei ontem. Falta um pedaço de meu sobrinho, desde que o pai se divorciou da mãe. Falta um pedaço na história de nossas vidas. Falta um pedaço da conclusão da minha vida. Falta um pedaço do meu cérebro: uma fatia importante, que me faz ser desligada, desatenta, agressiva, afoita, burra e acho que até um pouco atrasada mentalmente. E todos se dão o direito de apontar minhas faltas, pois sabem que falta um pedaço no meu semancol, da mesma forma que me falta um pedaço de vergonha. Falta um pedacinho de nada pra eu encher a minha paciência e não ter mais onde estocar estes pedaços de lixo que os outros vivem querendo me empurrar! Também me falta um pedaço de coragem pra mandar todos à merda.

29/10/03
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Após a III Guerra Mundial, a raça humana manteve-se no subsolo. As comunicações foram restabelecidas entre os povos através de contatos via computador. Os antigos países aliados uniram-se anos antes da grande explosão que aniquilou a superfície do planeta e desenvolveram cidades subterrâneas com provisões, baterias gigantescas e um sistema de comunicação através de computadores, utilizando satélites que, conforme suas previsões, continuariam em órbita normalmente. Os medidores de radiação forneciam, além de sua tarefa primordial, suporte aos jornalistas para que as notícias sobre a superfície fossem passadas a outros locais. Não havia dinheiro: apenas trocas.

Após décadas, a atmosfera ainda continuava contaminada. Cientistas uniram-se aos agrônomos e biólogos e desenvolveram formas de cultivo de alguns tubérculos em alguns lugares. Porém o solo era diferente, dependendo da região e da época do ano. Tudo foi alterado, gerando mudanças nos calendários, nos hábitos, na alimentação. Onde havia superpopulação, a procriação foi proibida. Após centenas de anos a raça humana tinha, inclusive, aspecto diferenciado e hábitos totalmente diferentes dos antigos “povos da superfície”, como eram agora chamados. A pele era totalmente pálida, os olhos puxados, não tinham mais os caninos — pois agora eram vegetarianos —; as mulheres readquiriram o hábito de trabalhos manuais, desmanchando e tecendo novamente trabalhos em lã (artigo raro) e outras matérias-primas, bem como do cozimento do que era produzido, pois as provisões eram controladas para que não acabassem antes que as pessoas pudessem voltar à face da Terra. Os animais (as espécies que se adaptaram à nova vida) também sofreram mutações genéticas. Os dejetos e cadáveres eram levados ao exterior, onde a massa de radiação e alguns animais sobreviventes, como uma espécie de urubu evolutivamente modificado, acabariam com seus restos. O mundo, agora, tinha apenas um idioma e um governo único centralizado, na antiga América do Sul — área que possuía o menor índice de concentração radioativa na superfície — que controlava os estoques e produção de todas as áreas ligadas através da rede de comunicação. No entanto, algumas regiões e povos nunca foram contatados pela rede de comunicação inter povos.

Resolveram fazer um reconhecimento da superfície, até onde fosse possível. A missão seria como que um novo reconhecimento, uma nova era de descobertas pois — concluíram —, agora, a geografia devia ser diferente daquela que os antigos conheciam. Os povos se uniram e resolveram fazer um mapa utilizando os satélites, que foram programados para a execução de um novo “mapa-múndi”. Foi da esquerda para a direita, começando pelas Américas. As primeiras imagens deixaram a todos perplexos e intrigados. Sábios, historiadores e arqueólogos foram chamados, bem como os estudiosos de semântica. Via-se uma mulher com olhos hipnotizadores, que batizaram de Helena de Tróia, pois as inscrições, dentro das pupilas, estavam em grego. Ambas se complementavam: “Olho por olho / dente por dente”. Quando o satélite chegou à boca da imagem, na região do antigo Oriente Médio, ela abriu-se mostrando uma bomba atômica de alta potência e nova explosão aniquilou definitivamente a vida e o planeta.
 
 

 
       

 

     


 

 

Thaty Marcondes
30/11/54 – Jundiaí/SP. Me chamo Thais – nome presenteado por meu pai, que não era France ou Massenet, mas por admiração a estes assim me registrou em cartório. Mais conhecida como Thaty – apelido de infância. Autodidata, aprendiz da escrita e da vida, meio nômade, meio cigana, resido atualmente no interior do Paraná. A escrita é sina, impulso, pulso. Me agarro às linhas e vou desenhando letras, abrindo a alma, rasgando sentimentos. Nas frases que monto, remonto meus eus, meus dias, minha vida
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