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De início era apenas e tão somente uma única pessoa extremamente comum olhando para cima. Em alguns segundos, acho, apareceu mais um tipo passante, encarou o sujeito que olhava para cima, questionou como se falasse com um poste, disse algo que não compreendi pois não leio lábios, em seguida apontou o direito dedo unhudo para o alto. Do outro lado da concorrida avenida Paulista apareceu um tipo paroara cara de boy e juntou-se à dupla de curiosos. Eram três olhando para cima, e um policial desconfiou mas não deu bandeira, não era do feitio dele. Não sondou para o alto também, mas bem que ficou só de olho, de butuca, temendo tumulto. Encafifado. Não foi nem um só instante-prosa nem nada, uma mãe obesa e peituda e sua filhinha encardida de tingidos cabelos amarelos também se chegaram, e ficaram olhando para cima, procurando o inusitado, como se num bisonho ensaio de balé algo cômico. Cinco pessoas já dão o que notar, claro. Ainda mais numa desvairada paulicéia assustada sob o domínio do pânico generalizado. Um taxista topetudo encostou o carro dublê e veio sapear com eles, temeroso, mas ainda assim buscando empreita de olhar e pleito de estima entre aquelas pessoas rueiras. Passarem-se alguns minutos, passou um executivo rico, um sujeito que mais parecia um assaltante de banco, depois um corvo empresário liberal, uma frustrada freira virgem, uma mulher bonita com cara de secretária ou advogada, e em pouco tempo havia um montinho de gente ali, na esquina da rua Augusta com a avenida Paulista – a maior e mais rica do mundo, pois só num quarteirão de Sampa corria mais grana do que na Argentina e em vários outros países da sulamérica pobre. Ao guarda civil juntou-se um esquálido membro da polícia municipal e um sargento da segurança do trânsito com seu aparelho de comunicação. Uma pequena multidão começou a cercar a banca de jornais do Joca Alemão, o espaço lotou dessa gentinha, meio escória, meio ralé, uns e outros acima da média, ou autoridades comprometidas até o rabo com a corrupção endêmica que financiava o capitalhordismo da city. Logo parecia um absurdo teatro de loucos, com mais de cem pessoas de todos os tipos, cores, jeitos, feições, olhando alopradas para cima. Bloco de carnaval não era. Ensaio de vitória do time dos sonhos do Corinthians com dos Gaviões da Fiel também não. Nem vitória de nenhum candidato político pop. Será o impossível? Mas lá estava a turba toda olhando para cima. Onde já se viu aquilo? O já precário trânsito começou a ficar caótico. Surgiram viaturas da polícia já na dúvida entre dispersar – vamos circulando, vamos circulando – ou colocar cordão de isolamento. Pois eu confesso que nem deu uma maldita hora a situação ainda piorou demais. Um quarteirão cheio de gentarada dos três lados, direito, esquerdo e no canteiro central, centenas de nervosos carros passando perto com suas buzinas importadas, reclamos com palavrões cabeludos, tiros e gritarias ao longe. Um policial resolveu pedir reforços, como o canhão de água do corpo de bombeiros, alguns tanques com gás lacrimogêneo, mais rifles especiais com balas de borracha. Houve um princípio de tumulto. Seu pedido entre camelôs clandestinos e narcotraficantes camuflados ganhou bocas, até as impróprias. Passou um senjeito sarará vendendo amendoim torrado. Acho que até alguns punguistas foram de roldão. Estava tudo ali, na globalização da miséria neoliberal: mendigos da Macedônia ou da África do Sul, traficantes argentinos e chilenos, contrabandistas informais do Paraguai – ou mesmo de Miami – fugitivos da ilha de Cuba ou das greves falsas da Venezuela, mafiosos da Itália ou Coréia, malandros da Yazuka japonesa ou alguns broncos tipos do ramo da Mano Negra Chinesa. Logo o trânsito estava mesmo engarrafado, a avenidona lotada, quando uns levantavam os braços nervosos apontando para o alto, uns e outros loquazes discutiam inexistências, um sujeito espertinho vendia cabritados canivetes suíços, outro trazia uma placona no corpo oferecendo preços ótimos para ouro e jóias roubadas, sirenes chatas se ouviram ao longe feito mugidos de vacas loucas, uma velhinha sardenta xingou a mãe da prefeita que era de esquerda, um chinês discutia com um chileno por causa do cheiro da maconha fedorenta, um empresário com carro importado e blindado ligou sua buzina comprada no mercado free em Miami, em seguida havia a serpente inusitada do caos. E o caos para aquela quarta-feira minguada de dezembro era inconcebível. Um calor de lascar, o asfalto fritando, o efeito estufa, a camada de ozônio, logo o congestionamento do dia lá se emplacava por quarteirões e quarteirões, começando na Paulista, alcançando a Consolação, a Rebouças, início do alto de Pinheiros e princípio da Lapa de baixo. São Paulo virou um baita congestionamento. Aliás, Sampa era mesmo sempre isso. Mães ligavam pras filhas marcando encontro numa esquina tranqüila, outra mais racional pediu pizzas de cogumelos transgênicos e indicou o carro chapa tal para o sarará entregador (costurando vãos com sua moto cabritada) entregar ao carro popular na esquina da Caio Prado com a Augusta. Uma mulher que dormira até tarde por causa de remédios antidepressivos viu que sua casa tinha se transformado numa enorme garagem, um pai dormiu ao lado de um cachorro vira-latas fedorento no carro com ar-condicionado estragado, quando soou o celular ele disse que veria o júnior no cruzamento da Paulista com a Treze de Maio. Um ladrão sacou um belo relógio de ouro de um bolso de couro sintético de um turista descuidado. Uma dona de pensão viu que seu quintal virara oficina mecânica, seu vizinho do Comando do Crime tivera a casa-espelunca transformada num posto de gasolina suja, misturada, a padaria de um narcotraficante (lavando dinheiro) se tornara numa funilaria, a banca de jornais era colada numa concessionária de carros, a cidade lotada se transformara não apenas numa grande metrópole de quinze milhões de habitantes entre imigrantes, migrantes, brancos, mestiços, pardos, mamelucos, trabalhadores, ladrões, mas se tornara também na maior cidade-estacionamento do mundo, e, esses mesmos espaços de carros eram as ocas-dormitórios, pois as pessoas xixizavam aqui e ali, médicos & ambulantes vinham atender nos cruzamentos concorridos, vendedores de cocaína entregavam entre um farol vermelho e outro – que não faziam sentido, pois tudo estava parado mesmo – depois, entre os milhões de carros, começaram a surgir novos nordestinos, falidos polacos, entre emergentes mendigos afros (clandestinos), chilenos contrabandistas, cubanos bizarros, ciganos doentes – a mundialização da miséria – e entre tudo isso ainda os, ai Deus!, também emergentes fugidios das roças, dos campos, das pequenas cidades. Rencas de caipiras entre tratores enferrujados faziam hortas improvisadas nos jardins, porcos fedorentos corriam entre pneus com muriçocas, beronhas e mosquitos da dengue e malária, poças de graxas e hortas-de-couve. Crianças peidorreiras, moleques cheirando cola ruim e pivetes berebentos com cara de arigós se entrincheiravam entre guardas, mendigos, operários – milhões de desempregados – (o sucesso de um plano econômico), e logo a cidade-estacionamento (dormitório) estava toda sitiada na sua periferia marginália por milhões de ex-lavradores, fugidos do novo êxodo rural do século trinta. As jibóias dos carros do metrô não andavam, e entre linhas de trens havia plantações de sem-terra como maconha, milharais, ervas, flores vagabundas. Tudo era usável, os varais de roupas sujas iam e vinham entre antenas de carros apodrecendo e enferrujados arados inúteis, logo, a cidade era uma loucura e, pior, todos olhando para cima (procurando vestígios de ausências?), não havendo espaço-lado para andar, aquele que começou a descobrir alguma coisa no céu sumiu, não foi identificado, todos procuravam o que quer que fosse. Deus? Um sinal? Um zepelin? Uma bomba atômica? Um OVNI? O cusarrrruim? O Super-Ninguém? O certo é que o próprio caos ferveu e disparou acontecenças, o engarrafamento entre horrores explodiu, o congestionamento lá de cima parecia um tapetão de ondulado relevo de aço, e as pessoas, animais, charretes, vadios, executivos, imigrantes novos, xiitas, tudo se parecia com baratas tontas se esgueirando pelos vãos, esgotos, becos, cortiços, sob pontes caídas, viadutos começados e nunca terminados como obras faraônicas inúteis. Eu mesmo era como se uma, do meu canto, lambendo um grude açucarento de chiclete vencido (diziam as más línguas que eram feitos com recicladas camisinhas usadas) e estava silente ali, numa beirada de marquise encardida de poluição e ceroto-diesel, com medo de um pássaro quase cego tossir câncer perto de mim, ao longe luzes pálidas de distantes viadutos que surgiam do nada e iam a lugar nenhum, sinais de destruídas pontes com pedágios do crime, enormes chaminés podres com ninhos de corvos, uma multidão de carros, uma procissão de lazarentos quase humanos, mais a incrível falta de água potável, de ar puro mesmo, de verde limpo, quando, por algum átimo de milésimo de fração de segundo deixei de ser uma barata (ou um rato de lixão perto, um corvo de aterro sanitário clandestino ao longe), e me vi meio mutante ente-ser no ponto esperando uma clandestina lotação que estava parada há dias perto do Masp, quando, súbito, cansado, me amaldiçoando por ter deixado há meio século a minha Estância Boêmia de Itararé lá na rabeira com o Paraná, vi, saindo do Parque Trianon, entre gatos contaminados e ratos posudos, uma enorme vaca malhada, sim, uma vaca que, abanando as beronhas verdes do ânus com o rabo todo cheio de sujeiras pertinentes, passou o canteiro central, entre pessoas dormindo na rua, pessoas mortas há meses achadas por balas perdidas, e, depois de depositar um belo pacote verde de estrume na rua a menos de cinco passos de mim, subiu a calçada cheirando a urina e sêmen velho e, parando na fila do ponto atrás de mim, perguntou-me, na boa, balançando o rabo, quase que a regurgitar palavras: – O senhor por favor, poderia me dar um cigarro? Assustado, surpreso, não acreditando, corei e, olhando-a, cobrei, meio assustado, na defensiva, meio de tromba: – Desculpe, mas a senhora fuma? Antes que ela respondesse, remendei, apavorado, coração a mil no peito enfebre, feito um louco. – Ei, você não pode falar! Ela olhou-me, balançando o rabo, meio que mugiu num tom de trombone-contrabaixo e constrangida reclamou: – Tem ou não tem um cigarro, cara parda? – (Ela quereria dizer cara pálida?) Repeti a pergunta pelo fato de ela estar falando e também respondi que não fumava. – O senhor tem horas por acaso? – ela retrucou, babando uma gosma plástica, feito gosma-lacta. Horas, vá lá, eu tinha, mas uma vaca não podia falar, pior, não devia falar – a carne iria ficar pigarrenta? – e para que ela queria saber as horas, Deus do céu? As pessoas – milhões – olhando para cima (pelo menos isso ainda reinava de acontecer) e o traste aqui conversando com uma Vaca. Benzadeus. Deus? Olhei-a. Ela parece que, meio velhaca, sondou-me, balançou o rabo (vacas só sabem fazer isso?), olhou para o ônibus que chegaria na esquina em uma hora fazendo duzentos metros, e pediu-me o favor.
– O senhor pode dar o sinal para mim? Vou para a
Vila Verde. A Vaca pediu dá licença, afastei-me, o motorista cara de estúpido depois de uns cinco minutos abriu a porta – tudo como se em câmera lenta – a bendita vaca cumprimentou o motorista e subiu tranqüilamente os três degraus do veículo com portas de sanfona e câmeras de segurança filmando a distinta. Voltei à minha realidade mais crível. E assim me aprumei melhor. De um orelhão lotado (uma fila que virava o quarteirão) depois de meia hora liguei para casa, e avisei minha mãe que iria tomar o ônibus Rio Pequeno e nele dormiria até de madrugada, que era o tempo de percurso dele, retornando à periferia abandonada. Chegando em casa depois de quase duas horas (eu residia num estacionamento de dez carros) tomaria um banho de chaleira, depois, com meu irmão com Síndrome de Dow, iria tomar café no ônibus de volta em sentido da escola, comprando tudo do camelô já por décadas lotado naquela linha. Se não desse tempo, pegaria com colegas da escola, que sempre se encontraram com o professor num cruzamento e deles receberam a ordem do trabalho, depois iria ao bar da esquina escovar os dentes, fazer xixi (tinha uma taxa – aceitavam tíquetes) e, talvez, pegasse um táxi para dormir nele até voltar para casa já no final de semana, quando encontraria peças de carro no meu quarto, a tevê em cima de um empilhado de macacos, minha mãe dormindo com o mecânico padrasto, minha irmã biscate mãe-solteira fornicando com o frentista do posto de gasolina, e assim, nesse auge sórdido de século trinta perverso vamos levando a vida, numa cidade de aço e cimento armado (gaiolas), um horrível estacionamento a céu aberto, uma oficina de lixos e depósitos de restos, um congestionamento que deve continuar pelo menos por mais uns dez anos, até que muitos velhos morram intoxicados, que a poluição destrua cérebros, que todos as crianças morram doentes, que os jovens sejam viciados em drogas, em fumaça, em lixões fétidos, que as mulheres não consigam parir mais (ou tenham filhos com água choca no lugar do cérebro), e restem alguns mutantes, feche-se o ciclo da fome, mine a violência banalizada (por falta de vítimas inocentes inúteis), prosseguindo o precoce sexismo por atacado, um infindável lixo-caos urbano, grave problema de falta de água (uma coke falsa custa mais barato do que um copo de água pura que só vendem no mercado negro) e assim só restarão os párias, metamorfoses ambulantes como eu e alguns milhares, quase sãos, ainda, na medida do possível e por algum milagre, espécies de sobreviventes do antes. A guerra mundial pelo controle de mananciais, bacias e lençóis de água potável continua. (A continuar esse congestionamento-engarrafamento monstro, de tanto estarem na verdade "imóveis", essa montoeira de carros por atacado vai acabar pagando alguma espécie assim de IPTU) Numa rádio pirata, num programa da saudade – Éramos Todos Jovens – o rock alternativo eletrônico carregado com baterias de cápsulas-vetoras – feito alcalinas nodais no refluxo do inconsciente – repete o refrão velho, muito velho: "Quem entra em buraco de rato/De rato tem que transar..." Mas isso ninguém sabe. Tento estar lúcido, mesmo num arrazoado onírico de imbecilidades coletivas, sobreviver é quase um segredo psicótico só meu, uma descoberta corpórea-instintal.
No mais, vou vegetando essa vidamorte, enquanto
fico açodando uma Maria-Cebola das ruas da amargura, aliás, mais uma
intrometida e feiçuda mulata flanelinha com cara de Maria Gasolina... |
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Acordo, Sony. O encardido rádio-relógio destilando um etílico e miserento blues melancólico, lados do Mississipi, a terra do Tio Sam que pensa que é dono desse mundão sem porteira. Levanto, Edredon. Vou me lavar, Lorenzetti. Tomo um nodooso leite Parlamat e um minicafé Nestlé. Depois, em seguida, Nike, Boss, vou escovar os dentes Gessy-Lever e o meu asseio matinal – segunda-feira é dia do Senhor Patrão – já foi Palmolive, não necessariamente nessa ordem, claro. Se vou de táxi, como a Angélica, é Ford ou Chevrolé, se vou de bus é Mercedez Bens, claro. As lâmpadas? Osram. O cigarro, além do Souza-Câncer (tem fogo numa ponta e um idiota com soda cáustica na outra) um palito aceso no ritual. Meu trampo, baby, é Bil Gates, meu ar refrigerado é Phillips (é assim que se escreve?), minha caneta é Bic, quando não meu lancheburguer é McDonald-qualquer-coisa, sabor sabonete que eles propagam como se fosse mesmo fast food. E toma Coke!. Depois, Aspirina. Ah que saudade do picadinho de minha vó negra oriunda de Angola, da Tubaína Tutti-Frutti da minha Estância Boêmia de Itararé, das limonadas com limão-rosa mais bolinho de arroz, bolinho de chuva e vai por aí fieira de acontecências de origem-raiz. Ai que preguiça! No serviço o patrão babando pose pra sirigaita da novata recepcionista loura oxigenada, a papelada-grude pra preencher bandas cambiais, a rádio FM destilando agora um tecno-pop que mais parece um bate-estaca horrível, logo vem o fax apitando cobrança (relatório), o telefone chiando uma crítica (falha operacional), um mecânico e-mail pedindo respeito a tantos vírus, e eu ali, ouvindo o papo-aranha (coloquial) sobre: 1) Big Brother Brasil. Quem assiste também é três bês. Bobo, Babaca, Burro. Sim: enchem um lugar bonito de idiotas, e torcem para que um bando de idiotas perca tempo assistindo (alguns pagam por isso!) a anta obesa cerrindo secos e molhados pra cima do coió, mais a falsa feição do Pedro Bial saranga & ególatra. Palavrões, sexo, porres e um papinho de quem já deu o que tinha de dar. Um horror. E pagamos royaltes por isso. Sai de baixo! Ai que preguiça! 2) O começo da novela. Ou o galã pestanudo. Ou o fim da novela. Tudo a mesma coisa. Todas as novelas são as mesmas novelas. A virgem rica se apaixona pelo filho do zelador, na hora do sim no altar é seqüestrada por um tarado-fã secreto, depois é devolvida embuchada, revoltada, transa com o prédio todo, o ex-quase fica rico, o pai da donzela abduzida fica pobre, e, num final feliz – e toma pagode! – eles se casam... Até começar tudo de novo, a mesma coisa, em outro canal, outra novela, outro dia, outro horário, mas a mesma historinha besta e sem graça, com novos atores, novos nomes e... vade retro! Que saudade do Dias Gomes. Ai que preguiça! 3) Fuzuê geral. O Brasil é assim. Se puser grade é hospício. Se puser lona é circo. Se puser luz neon é bordel chique, Bordel Excelência. Quem está saindo com quem na alta sociedade. Porque na baixa também é uma zona total, mas sem hipocrisia. A classe média falida pelo FHNistão, o Pai da Fome, et caterva, arrota peru mesmo comendo mortadela de terceira categoria. A revista Caras está em tudo quanto é banheiro. Aliás, tem até revista de fofocas e mentiras de bastidores. Quem é, quem não é. Vez em quando inventam um homossexual novo. Ou um chapéu de vaca prum casadinho da silva. Que vergonha, Brasil. É penta! Ai que preguiça! E a mulher mandona, na TPM, telefona querendo fazer aquela operação plástica na vaidade descascada pelo bronzeamento artificial tipo câncer dois. Quando não, poderosa, quer que eu brigue com o gerente do banco Novo Mundo pra ele aumentar o limite. Ela perdeu outro. O filhote que já tá amaciando umazinha pelos cantos do condomínio Pindorama. E a filha Maria Cebola que já foi vista dando uns tapas... Perigo. Socorro. Pai sofre e fica tenso. Stress. Mãe adora sofrer. E toma reportagens babaquaras sobre a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Guerra mesmo é outra coisa. Todo mundo sabe de tudo. E o Flamengo levando cacetada. Perdendo pra ele mesmo. E o Corinthians sendo campeão outra vez, em cima do São Paulo com seu estádio a ser batizado de Morumbambi. Ai que preguiça! Passo no barzinho, peço uma Tecate (cerveja mexicana – uma delícia!) ou uma Brahma Extra mesmo, e, encafifado, sondo o derredor. Todos assaltados. A síndrome do medo. O Estatuto da Bala Perdida. O ladrão pensando que o cidadão honesto é o ladrão, com medo de ser roubado, o honesto pensando que o ladrão é detetive, com medo de ser achacado, a polícia pesando que o doutor é da máfia pensando em molhar a mão, e o doutor achando que tudo é uma só quadrilha generalizada de narcotraficantes e contrabandistas informais. Todos a favor do liberalismo-fiasco, da globalização-nojo. E um tipo com medo de ser pego pelo Fisco que glosa. Ou seja: tudo na mesma. E toma rock alternativo e flanelinha pedindo mais que o estacionamento legal, permitido. O Rio de Janeiro nunca mais será o mesmo. E o medíocre do Garotinho achando que política de Segurança Pública é púlpito. Que tudo se resolve com um milagre federal. E São Paulo crescendo com seu esgoto a céu aberto, sua periferia S/A, seu capitalhordismo americanalhado, onde a corrupção banca tudo. Saravá, Tucanos! Os que vão sobreviver têm vergonha. Ai que preguiça! Volta pra casa. Lotação clonada, clandestina. Perigo de assalto. Farol quebrado. Lixo entulhando esquinas e canteiros secos. Logo vai nascer pé de tijolo. A rua escura. O celular que não funciona, numa outra privatização-roubo do desgoverno amoral anterior. E as cobranças chegando antes da compra. Na televisão, o lixo geral, cada programa pior do que o outro. Talvez se salvem, ainda, pelo menos, os programas religiosos. Ou mesmo alguma coisa na TV Cultura. Um livro pra ler: Mário de Andrade ou Oswald de Andrade? Pois é.
AI QUE PREGUIÇA! |
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Silas Corrêa Leite |