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Era manhã de segunda-feira e Orlando Tejo invadiu minha sala num aperreio que não era de seu costume. - Berto, tô encalacrado. Não sei se vocês sabem, mas Orlando Tejo é o sujeito mais calmo e descansado desse mundo, incapaz de se aperrear até dentro de uma casa em chamas. Mas naquela manhã, o homem estava mais agoniado do que bacorinho em caçuá. A tranqüilidade habitual, emoldurada pelas serenas baforadas no cachimbo, fora substituída por um avexamento que, francamente, deixou-me curioso. E largou o seu problema sem mais demoras: - É o seguinte: o novo gerente da Caixa Econômica é meu leitor e se tornou meu amigo. Assumiu a agência e me deu um cheque especial na sexta-feira. Resultado: já estourei o limite em trinta mil cruzeiros neste fim-de-semana. Conhecedor da total inabilidade de Orlando para gerir suas finanças, para mim não foi surpresa o estouro no limite do cheque especial. Surpreendente era a velocidade com que isso se dera. Recebera o cheque na sexta-feira e na segunda já estava pendurado. Em verdade, suas habilidades aritméticas limitavam-se à soma das mais alegres lembranças, à subtração de tristezas, à multiplicação da imensa legião de amigos e à divisão de uma ternura e de um lirismo que só mesmo pessoas encantadas como Tejo estão autorizadas a ter. Expliquei-lhe
que estava duro e não poderia ajudá-lo no momento. Estava
sendo tão franco quanto, com a mesma franqueza, lhe arranjaria imediatamente
a miserável quantia, caso a tivesse, para não vê-lo
naquele sufoco. Funcionário público só vê a
cor do dinheiro no fim do mês e, por infelicidade, estávamos
ainda no início da segunda quinzena. Tentei explicar-lhe isso com
tranqüilidade, mas ele parecia insensível a qualquer argumento.
Expliquei-lhe que pessoalmente não podia fazer nada. Mas lembrei-lhe que, como em toda boa repartição pública, a Câmara tinha o seu agiota de plantão para socorrer os desesperados naquelas precisões agoniosas. O anjo da guarda dos necessitados, acudidor de precisões prementes, tão injustamente malhado pelas pessoas gradas, mas capaz de salvar um vivente de um sufoco sem fazer fichas, preencher cadastros, telefonar para o SPC ou exigir promissórias registradas em cartório. E dei a indicação ao Tejo: - É só você procurar o Canindé. Meu amigo João Canindé Tolentino Ribeiro entrou nessa história como Pilatos entrou no Credo. Tão lascado quanto qualquer um de nós, apenas estabelecia o contato entre o agiota e os possíveis fregueses, não ganhando nada com isso, salvo o fato de se beneficiar com um juro mais baixo quando também precisasse de dinheiro. Orlando Tejo não sabia quem era Canindé, mas já tratou-o com uma familiaridade que era bem do seu estilo. -
Então ligue logo para esse filho-da-puta desse Canindé, e
diga que eu preciso de trinta.
- Ligue logo para esse filho de uma égua, pelo amor de Deus. Canindé mandou dizer que, se o dinheiro saísse, só sairia no dia seguinte. terça-feira. Transmiti o recado ao Tejo e ele desesperou-se. - Explique a esse filho-da-puta que desse jeito vai ser tarde demais. Os cheques que emiti devem entrar hoje à noite. Desolado com o drama do meu amigo, acompanhei com o olhar a sua saída nervosa, pitando furiosamente o cachimbo e maldizendo a sorte. A aura de lirismo que marcava sempre sua figura estava seriamente arranhada pela agonia que transpirava dos seus poros. Pobre Tejo, necessitado de trinta neste vasto mundão de meu Deus e ninguém para acudi-lo... No dia seguinte, quando cheguei à minha sala, já o encontrei de plantão, sorrindo, esperançoso. - Acabei de me informar no banco: nenhum cheque entrou ainda. Ligue logo para esse miserável desse Canindé. Liguei.
Canindé informou que só à tarde. Transmiti a informação
ao Tejo.
Na
primeira hora da tarde volta Tejo avexado.
Liguei
e Canindé disse para ligar dai a meia hora. Transmiti a informação.
Tejo deu uma puxada no cachimbo e caminhou um pouco pela sala sem falar
nada. Ficou de costas para mim, olhando um ponto indefinido na parede em
frente. Sentou-se numa poltrona.
Levantou-se
e me passou umas folhas naquela sua caligrafia miserável que eu
já estava habituado a decifrar. A letra de Tejo, qual moderna Pedra
da Roseta, exige as habilidades de um novo Champollion para trazê-la
ao entendimento dos mortais comuns. Comecei a ler e me dei conta da preciosidade
que tinha em mãos. Aquilo, realmente, era uma obra de Tejo e ali
estava o seu espírito paraibano, nordestino, poético, moleque,
imprevisível por inteiro. Dar uma trégua ao aperreio para
parir um negócio daqueles, só mesmo vindo dele.
LOUVAÇÃO A CANINDÉ Estando
sem um tostão
E
toca a telefonar
E
eu que necessitava
Eu
já podia notar
O
cabra fuma e não traga
Por
capricho do destino
Não
sei como Luiz Berto
Antes
quero outro "pacote"
Corri para a máquina de escrever a fim de botar em letra de forma a tradução dos garranchos e, quando comecei a datilografar, o telefone tocou. Fiquei incomodado com o toque da campainha. Atendi a contragosto , com a esperança de que a conversa fosse breve. Era o Canindé. - Diga ao seu amigo que o dinheiro saiu. Pode vir apanhar. Ai eu ri gostoso! Depois daquela "louvação", eu queria ver qual a reação do meu amigo diante da liberação do dinheiro. Acabaram-se os aperreios. O mundo voltava ao normal e tornava a correr nos eixos. Dei a notícia ao Tejo e ele me olhou morrendo de alegria. Parecia um menino. - Saiu? Então me dê ai outro papel que eu vou escrever de novo. Mandei
alguém ir buscar o dinheiro enquanto Tejo se ajeitava num canto
e começava a escrever novamente. Parece que a boa noticia fazia-o
escrever mais ligeiro. A caneta deslizava sem interrupções
sobre o papel. Até as baforadas do cachimbo boiavam coloridas. Olhou
a sua obra, deu um sorriso maroto e me passou a papelada. Saiu o seguinte:
NOSSO AMIGO CANINDÉ Um
sujeito despeitado,
Tenho
dito e sustentado
Sei
que o Papa tem razão,
Canindé
- nome decente!
Canindé
pra ser beato
Mas
sabem por que razão
Nesse
chão onde ele pisa,
Santo
Agostinho, dos santos
E
mais não disse e nem lhe foi perguntado.
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