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sobre Brasília, da janela de um quarto de hotel
(o caixote)

"Eu caí na realidade, e uma das realidades que me surpreenderam foi a rodoviária, à noitinha. Eu sempre repeti que essa plataforma rodoviária era o traço de união da metrópole, da capital, com as  cidades-satélites improvisadas da periferia.

É um ponto forçado, em que toda essa população que mora fora entra em contacto com a cidade.

Então eu senti esse movimento, essa vida intensa de verdadeiros brasilienses, essa massa que vive fora e converge para a rodoviária. Ali é a casa deles, é o lugar onde eles se sentem à vontade.

Eles protelam, até, a volta para a cidade-satélite e ficam ali, bebericando. Eu fiquei surpreendido com a boa  disposição daquelas caras saudáveis.

E o "centro de compras", então, fica funcionando até meia noite... Isto tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali  legitimamente. Só o Brasil... E eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isto. Eles estão com a razão, eu é que estava errado.

Eles tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Foi uma bastilha. Então eu vi que Brasília tem raízes brasileiras, reais, não é uma flor de estufa como poderia ser, Brasília está funcionando e vai funcionar cada vez mais. Na verdade, o sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mais bela. Eu fiquei satisfeito, me senti orgulhoso de ter contribuído." 


Lúcio Costa
30/III/87

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 publicação autorizada pela
 arquiteta Maria Elisa Costa,
 para L. C. Cruvinel

 

     
(in "Brasília, cidade que inventei"
Arquivo Público do DF - DePHA)
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