Górgona

Logo quando o feitiço se desfez, Medusa vagueou de metrô pela cidade, a princípio com uma touca rastafari, depois de tranças, por fim desistiu e resolveu ser ela mesma, cobras ao vento, levemente desalinhadas. Em nenhum lugar, seja nas ruas, nos restaurantes, nos shoppings ou nos cafés, ninguém ficou petrificado, todos continuavam como sempre estiveram. Jogada de um lado para outro da cidade, impotente e sentindo-se alijada de sua significância, Mé - era assim que os vizinhos passaram a lhe chamar - procurou um psicanalista. Dez anos depois, ela era outra vez uma monstruosidade, em pedra, em praça pública, invisível aos transeuntes.



Nóia

As persianas parecem iguais a muitas persianas, verticais, flexíveis, com um cordão para fazê-las deslizar pelos trilhos e uma corrente para alterar o ângulo das faixas. Qualquer pessoa diria que elas estão emperradas por força da ferrugem e da umidade do ar, despercebendo as causas reais.
Procuro não tocá-las, pois podem ter alguma função que ainda desconheço, além da que descobri desde o momento em que o instalador as fixava pelo teto: uma barreira eletrônica com micro-sensores instalados na fibra sintética do tecido e dínamos lasers capazes de vaporizar um fugitivo sem deixar indício de existência. Agora, todas portas e janelas estão sob vigilância, o quarteirão também incluído em um sistema de segurança máxima e existem muitos deles disfarçados de garçons, caixas, balconistas e vizinhos que cuidam de mim.
Enquanto penso em um plano de fuga é importante o esforço para manter-se dentro das regras e não atrair nenhuma atenção extraordinária, mas às vezes perco a esperança, pois eles estão a cada dia diminuindo o raio da corrente eletrônica. Pelo que entendi, a cada pessoa, ou melhor, a cada elemento, corresponde uma área de confinamento diferente, com algumas aparentes interseções. Muitos, ignorantes dos seu limites, estão sumindo. Agentes encarregados da operação de limpeza de vestígios atravessam a cidade a todo momento, vestidos de entregadores de pizza e refeições, em motos ou bicicletas.
Acho que este texto foi monitorado.
A campainha toca.
É o zelador.
É o fim.


 

Artifício

Há milênios Sísifo já havia percebido que todos esforços de arrastar o tempo, monumental monolítico cubo de pedra negra, gerava fraqueza e cãibras. Mas só recentemente decidiu fingir os esforços que Zeus lhe impusera e passou a escrever ficções. Astuto, nas primeiras linhas, constatou que o tempo, quebradiças justapostas lâminas de vidro, bem prestava-se a demonstrações de autodomínio e soberba desconsideração pelas coisas, podendo ser estilhaçado, partido, triturado, preservado, pulverizado, derretido, colado, separado, isolado, testado, renomeado, reinventado, recuperado. Foi assim que Sísifo fragmentou o bloco que arrastava e passou a ganhar a vida mastigando vidro em praça pública.

 



Poltergeist para Ginsberg

Quando o último beatnik parou a motocicleta em um posto de gasolina, a loja de conveniência resplandecia no meio do nada. Logo que tocou na porta de vidro as cores já saltaram, agudas, lancinantes, em um fluxo interminável de toques e vozes, as garrafas de refrigerante e cerveja batiam surdamente contra seu peito, os pacotes de congelados e os sanduíches frios alternavam-se ritmicamente, caixas de chicletes, guloseimas e charutos irrompiam cortantes, davam voltas no ar e pancadas de sacos de salgados de batata e milho surgiam, reconfortantes, para depois sumirem por trás das prateleiras. O ritmo voltava a crescer gradativamente, as garrafas de água mineral expandiam-se aos pares, os vidros de condimentos tremiam, os sacos de farinhas se sacudiam e por fim, as latarias se batiam transtornadas, levando as mercadorias ao clímax. Mais alguma coisa? O velho pagou o conjunto de aparelhos de barbear e saiu pensando se estava mesmo indo para leste ou para oeste.



Playback

Mesmo com o cérebro sobrecarregado de chips e circuitos bio-eletrônicos, os neurônios do Robocop se reagruparam formando novas sinapses e ele conseguiu recuperar totalmente as lembranças de sua vida anterior à condição de ciborgue. Algum tempo depois, com ajuda de um software comparativo e de uma rede corporativa de bancos de dados, ele constatou que seus antigos sentimentos e pensamentos: a) não eram próprios; b) tinham origem difusa e impessoal; c) eram compartilhados por milhões de contemporâneos. Data desta época sua corrosiva crise de autopiedade.


 

   

Júlio Lira

Nasceu em Fortaleza e costuma dizer que é deformado em sociologia. Recentemente seu trabalho tem ficado mais evidente: publicou em algumas revistas e sites, teve o seu livro infanto-juvenil A História Inacabada de Maria Rapunzel editado pela Fundação Demócrito Rocha e ganhou o prêmio Domingos Olímpio na categoria contos. Faz meses que dá os últimos retoques nas Pequenas e Quase Inocentes Histórias de Horror, um livro de narrativas curtas.

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