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Apesar dos contratempos na região, a comunidade científica árabe procura tocar a vida acadêmica de alguma maneira possível, e isso explica porque eu fui convidado,junto com outros colegas do Canadá e da Espanha, para fazer uma conferência em Bagdá, a segura e pacífica capital do Iraque. Devido a pequenos problemas com companhias aéreas internacionais, os organizadores do Congresso consultaram-me sobre a possibilidade de eu adquirir o bilhete no Brasil, para ser ressarcido ao chegar lá. Nenhum problema, imaginei. Procurei saber o preço da passagem telefonando para uma conhecida agência de viagens, especialista em África e Ásia. Fui atendido ao primeiro toque. – Bom dia, agência Africásia às suas ordens. – Desejo saber o preço da passagem para Bagdá em classe executiva. – Pode repetir, senhor? – Eu perguntei o preço da passagem para Bagdá em classe executiva. – Um momentinho... Alô, senhor, posso informá-lo de que Bagdá é no Iraque? – Eu sei muito bem. – Certo. Um momentinho... ahn, sim, senhor, digo, o senhor quer ir mesmo? Tem que ser Bagdá? – Mas qual é o problema, senhorita? É proibido ir lá? – Não, claro que não. Mas não é comum uma pessoa querer ir ao Iraque nos tempos atuais... é assim como querer passear na Favela do Cantagalo, certo? – Certo coisa nenhuma. Não cabe a você opinar para onde vou. – Correto. O meu negócio é vender, mas eu também faço plantão no CVV e sinto certa tristeza em sua voz. Eu posso ajudá-lo de alguma outra forma? Por que essa insistência em ir para aqueles lados? O senhor pode estar apenas com uma depressão passageira. Não quer conversar a respeito? – Quero conversar sobre o preço de uma passagem de ida e volta (espero) para Bagdá. Se a senhorita não puder me informar, ligo para outra psicóloga, digo, outra agência. – Calma, senhor... senhor...? – João – inventei. – Pois é, senhor João, eu sou a Nizolete, gerente de vendas, às suas ordens. – Minhas ordens são para a senhora ver o preço rápido e não questionar as razões da minha viagem. – Perfeito. Acontece que para Bagdá não podemos incluí-lo no seguro. Por outro lado, vou fazer um roteiro especial para o senhor, passando por Paris. Lá será recebido pelo psiquiatra da nossa companhia, doutor Bergerac, especialista em suicídio. Muito bom. Ele irá atendê-lo na sala de consultas Vip e em trinta minutos o senhor estará curado do desejo de morrer em Bagdá e com retorno assegurado para Natal ou Sauipe, como quiser. Não é legal? – A senhorita é maluca e deve aproveitar o psiquiatra da empresa. Escute, eu vou fazer conferência, não vou me matar. – O senhor não, claro, os outros é que o matam. O senhor não prefere o Marrocos? Sabe, Casablanca, o Clone, Jade... Por acaso o senhor não confundiu Marrocos com o Iraque? – Confusa é a senhora. Vai ou não vai dar o preço? – Senhorita. O senhor tem duas opções. Paris-Bagdá, que já lhe falei, ou Paris-Viena-Bagdá. Recomendo o trajeto via Viena, onde outro nosso psiquiatra, tetraneto de Freud, estará lhe esperando, caso falhe o de Paris. Com o nosso cartão-seguro o senhor não paga a internação. Imagine só, Viena, Danúbio, os bosques, valsas, cerveja... tudo incluído. Só que nesse caso o senhor tem que voltar via São Paulo, não pode ser para o Nordeste. Quero deixar isso bem claro. – Você se incomoda se eu for aí para enforcá-la? – Ah. Eu já desconfiava. Eu sei reconhecer um terrorista só pela voz. Quero lhe dizer que essa conversa está sendo gravada e o senhor não tem como escapar. E o seu nome com certeza não é João, deve ser um Abdul qualquer, um homem-bomba ou um homem-antraz. Pensa que eu não sei que vocês fazem bombas de vírus? Eu não quero ser acusada de ter colaborado com um terrorista e além disso... Desliguei. Passei um e-mail para a Comissão Organizadora: "Aceito o convite desde que me mandem as passagens". |
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Heitor Rosa |