Era um lugar estranho. Precisavam criar fatos para que tivessem a sensação de vida. Tudo parecia caminhar em câmera lenta. Não havia surpresas, magias, fofocas. Nada. Era um lugar-quadro, diria. Parado.

Naquela tarde, um vendedor de pirulitos passou pela rua e causou um rebuliço. Todos correram para comprar. Eram em forma de chupetinha.

Não demorou muito para que as pessoas saíssem à rua, vomitando, gritando que estavam morrendo. Tiveram tempo de pedir a um motorista de ônibus que as levassem ao hospital mais próximo. Eram vinte e cinco pessoas, mas diante do fato o motorista não titubeou. Levou-as.

Ficaram toda a tarde em observação, devido à intoxicação por anilina contida nas chupetinhas, tão encantadoras, tão vermelhinhas...

Quando chegaram, estavam alvoroçados, felizes por terem tomado soro pela primeira vez na vida. Sequer sabiam que algo pudesse entrar pelas veias. Achavam que só saía. O sangue...

E lembraram quando em uma corrida que planejaram na rua, justamente para sair do marasmo, um dos participantes teve a idéia de abrir um canivete exatamente na hora que outro passava à sua frente, cortando uma artéria de seu pulso. Foi um fato marcante... A morte, os companheiros carregando o caixão pelas ruas, o padre rezando, as donas puxando o terço, o sepultamento.

E agora as chupetinhas... Fato insólito!

À noite, naquele mesmo dia, quando se preparavam para dormir, um dos meninos, afogueado pelas emoções, pegou um pedaço de gelo e levou-o à boca, entalando-se com o mesmo. Não houve tempo para socorro. Asfixia, com direito a sepultamento concorridíssimo.

Não sei o que ocorreu naquele dia. Quem seria aquele vendedor de pirulitos?

Nunca mais as pessoas foram as mesmas, embora a mesmice ainda continuasse a imperar no lugar. Preferiram assim.

Acomodaram-se com a situação de lugar-quadro.

 
 


 
     
   
   

 

 

Sempre fora conservadora. Lembro que, em plena juventude, usava roupas da mãe, achando que ficaria mais elegante e distinta. Chamava atenção justamente por esse contraste. Enquanto as amigas abusavam nas modernidades, ela fechava-se à moda antiga. Uma verdadeira senhora, aos dezesseis anos. Assim era Gisela.

Há muitos anos não a via e esta semana surpreendi-me, quando entrava em um shopping para trocar uma sandália que não correspondera às expectativas. Gisela mantinha-se conservadora, porém bastante expansiva.

Aos quarenta e cinco anos, ainda não encontrara o homem de sua vida, disse-me a princípio. Perguntei o que fazia na vida. Ela narrou uma série de atividades. Trabalhava como consultora de marketing, no Rio de Janeiro. Amava seu trabalho. Nos finais de semana ia a teatro, cinema, shows, restaurantes finos, entre outras coisas. Ganhava muito bem. Vivia com conforto. Todo ano viajava para o exterior. Nada a reclamar sob esse aspecto.

Senti, no entanto, um olhar nublado, como se escondesse coisas que julgava inconfessáveis. Ela, então, convidou-me para ir a um café, situado em uma livraria badalada aqui da cidade.

Sentamos e ela narrou-me o segredo. Quando adolescente, apaixonara-se por Manoel de Oliveira, filho do dono de um grande comércio da cidade. Namoraram durante oito meses, quando ele optou por fazer curso universitário em Portugal, dizendo que assim poderia planejar um futuro melhor para ambos.

Após um ano e meio cursando medicina, conheceu uma moça e apaixonou-se, casando antes do término do curso. Isso vinte anos atrás. Nunca mais tiveram contato. Soube do casamento através de uma carta, na qual Manoel falava de sua felicidade e de seu amor pela noiva, pedindo a ela muitas desculpas e desejando que um dia encontrasse também um grande amor.

Um baque para ela, a família e os amigos.

A paixão nunca se extinguiu, e, hoje, mesmo ele morando em Lisboa, casado e com cinco filhos, ela ainda aguarda o reencontro.
Pergunto como pode nutrir essa esperança se está casado, com filhos e tanto tempo se passou. Ela diz que todos que vão a Lisboa trazem notícias dele, e quando isso ocorre ela tem um forte pressentimento de que ainda ficarão juntos. É como se através das notícias viesse um pouco do espírito de Manoel. Coisa de Deus mesmo!

Levanto, olho seu rosto, ainda muito belo, mas a tristeza o vincou como a dizer que era sempre um falso sorrir... um sorriso cansado de tanta espera.

O que poderia dizer à Gisela, tão certa sobre o reencontro e a concretização de seu sonho de amor com Manoel de Oliveira?

Beijei seu rosto, dei meu telefone e pedi que me ligasse, pois eu também adorava teatro, cinema, shows e restaurantes finos...

 
 


 
     
   
   

 

 

No subúrbio onde vivi minha infância, pairava mistério. Em uma casa que tinha presa à porta a imagem de uma asa em louça branca, vivia um cidadão estrangeiro que se chamava Edward Home. Vivia solitário. Saía apenas nas noites de sexta-feira. Essas noites eram por si sós apavorantes, pois após as vinte e três horas começávamos a ouvir os uivos que pareciam vir exatamente do local da residência de Mr. Edward.

Certa noite, eu e meu irmão decidimos ficar espreitando, por uma fresta da janela, a saída dele. Observamos que usava um sobretudo um tanto fofo na altura das omoplatas. Tinha um chapéu grande que cobria quase todo o rosto, mas sabíamos que era ele, pelo andar sempre rastejante. Não levantava os pés.

Ao chegar à esquina, onde tinha uma ponte, ele tirou o sobretudo, e, estupefatos, vimos o homem voar. E o uivo vinha crescente... Compreendemos, então, que não vinha de sua residência, e sim se tornara uno com a atmosfera do bairro.

Continuamos, trêmulos, esperando seu regresso.

Quando passou, por azar, Toffy, nosso cãozinho levantou as orelhas, saiu correndo e começou a latir em direção a ele. Mr. Edward, agora já próximo à nossa casa, arreganhou a boca e com caninos pontiagudos abocanhou um pedaço de Toffy, e saiu voando.

Toffy foi levado a uma clínica e constataram a presença da toxina botulínica nele. Explicamos tudo aos veterinários. Falamos com os repórteres, mas disseram que era tudo fantasia. Coisa de criança. E não deram importância ao fato.

Após o ataque a Toffy, que morreu uma semana depois, Mr. Edward desapareceu e nunca mais ouvimos falar nele.

O pior de tudo é saber que nada é ficção.

Eu podia ter onze anos, porém lembro como se fosse ontem...

E o caso ficou como mordida de cobra.

 
 


 
     
   
   

 

 

Leila conseguia transtornar qualquer ambiente por onde transitasse.

Primeiro, porque vivia a falar mal de Nelson, seu marido. Os comentários que tecia eram os mais desairosos. Roubos de peças íntimas dela, que supunha ser para suas amantes, falta de companheirismo, arrogância... Cultivava o desejo ardente de ver o homem morrer. De preferência de um enfarte agudo do miocárdio, como dizia de forma decorada.

Vivia em cartomantes que, previamente contatadas, lhe diziam da iminente morte de Nelson, para sua alegria.

Era uma mulher difícil. Tinha suas preferências em matéria de parentelas. Amava uns e odiava outros, sem qualquer explicação, tanto para o amor quanto para o ódio.

Sua personalidade era certamente contraditória. Era o tipo de mulher que ria e chorava ao mesmo tempo. Nunca vi ninguém igual.

No dia sete de setembro, o telefone tocou às seis da manhã. Assustei-me. Não podia ser nenhuma notícia alvissareira... Era minha amiga Nilcelena informando que Leila havia morrido, vítima de enfarte.

Nelson saíra como louco pelas ruas a pedir socorro, dizendo que ela apenas lhe pedira companhia, mas ele optara por jogar paciência. Ao voltar ao quarto a esposa estava morta. Vestia um camisolão e tinha bobes no cabelo. Ele ainda pensou, em sua ingenuidade, que Leila poderia ter se produzido melhor, já que certamente a cartomante teria previsto sua morte para breve... Ouvira falar sobre cartomantes um bom tempo de sua vida.

O dia sete de setembro foi chuvoso e, no sepultamento, fiquei pensando como as cartomantes podem enganar tão grotescamente.

Lá estava o "morto", assistindo, estranhamente aliviado, a partida de sua mulher... Quanto a ela, não sei como se sentia tendo sido ludibriada e roubada em suas ilusões pelas veneradas mulheres.

Olhei-a pela última vez. Usava roupa típica de senhora da década de sessenta. Não evoluíra em nada. Senti pena. Senti tristeza por ela ter desperdiçado belos anos da vida, correndo em busca de ilusões, comprando-as e esquecendo-se de viver.

Saí do cemitério vertical aliviada. Nunca mais ouviria as histórias sobre os possíveis acidentes de Nelson, profetizados tantas vezes, nem sobre seus enfartes agudos do miocárdio.

Hoje, ele está namorando firme a Iracema, uma viúva que mora no mesmo prédio onde ele sempre morou com Leila. Elas não se davam. Brigaram, certa vez, por causa de incompatibilidades em relação a gatos no prédio. Leila odiava felinos...

Será conquista nova? Quem pode dizer?

Que ao menos Leila, agora, deixe o marido sobrevivente respirar em paz. E nós também!

 
 



 

 

     


 

 

Belvedere Bruno
É cronista e reside em Niterói.