3                                      Bem devagarinho...
 


Tudo, bem devagarinho, deveria ser escrito pela moça. Como se acompanhasse com as pontas dos dedos os desenhos que iam se formando com as palavras que iam saindo, bem devagarinho, do funil do dicionário que havia montado em sua cabeça.

Ordenadamente, ia colocando no papel, sem pressa, mas sempre ansiosa, as idéias, as coisas, os fatos, a vida que girava ao seu redor.

Tudo bem devagarinho para não errar uma palavra, para não trocar as letras, para não afrontar as regras que, devagarinho, havia aprendido e apenas de mansinho se lembrava.

Cha, che, chi, cho, chu, ja, je, ji, jo, ju, fa, fe fi, fo fu, va, ve, vi, vo vu, co, go, ia soletrando, mentalmente, confrontando o som, a forma, o sentido.

Tudo bem devagarinho teria de ser escrito pela moça. Forma de ordenar seus gestos e jeitos, tornar calma a vida, sob o segundo olhar do interpretado coração.

Bem devagarinho ia brotando, enfim, o reverso do mundo da moça que escrevia lentamente, pausadamente, corte abrupto da vida da moça que, encantada, esquecia da rudeza do olhar que não vê, da tristeza do não comer, do desespero do impossível fazer, do desencanto com a fraca memória, do desalento com a causa não ganha, do fragmento da vida em comum.

Bem devagarinho ia escrevendo a moça, soltando seus sonhos de coletiva beleza, de harmonia plausível, de justiça viável, construindo em si mesma, bem devagarinho, o reverso do mundo.


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Adriana Gragnani

Paulistana, nascida na Maternidade Matarazzo - de tão triste fim. Os títulos acadêmicos não me incomodam. Assim, pode colocar algo do tipo ativista da cidadania. Minha cédula de identidade contém como nome Adriana Maria Carbonell Gragnani, mas assino só Adriana Gragnani. Como pejorativamente começaram a "pejorar" as mulheres que freqüentam a net como mulheres da net, assumo, sem pudor, que sou uma mulher da net.