Tudo,
bem devagarinho, deveria ser escrito pela moça. Como se acompanhasse
com as pontas dos dedos os desenhos que iam se formando com as palavras
que iam saindo, bem devagarinho, do funil do dicionário que havia
montado em sua cabeça.
Ordenadamente,
ia colocando no papel, sem pressa, mas sempre ansiosa, as idéias,
as coisas, os fatos, a vida que girava ao seu redor.
Tudo bem devagarinho
para não errar uma palavra, para não trocar as letras, para
não afrontar as regras que, devagarinho, havia aprendido e apenas
de mansinho se lembrava.
Cha, che, chi,
cho, chu, ja, je, ji, jo, ju, fa, fe fi, fo fu, va, ve, vi, vo vu, co,
go, ia soletrando, mentalmente, confrontando o som, a forma, o sentido.
Tudo bem devagarinho
teria de ser escrito pela moça. Forma de ordenar seus gestos e jeitos,
tornar calma a vida, sob o segundo olhar do interpretado coração.
Bem devagarinho
ia brotando, enfim, o reverso do mundo da moça que escrevia lentamente,
pausadamente, corte abrupto da vida da moça que, encantada, esquecia
da rudeza do olhar que não vê, da tristeza do não comer,
do desespero do impossível fazer, do desencanto com a fraca memória,
do desalento com a causa não ganha, do fragmento da vida em comum.
Bem devagarinho
ia escrevendo a moça, soltando seus sonhos de coletiva beleza, de
harmonia plausível, de justiça viável, construindo
em si mesma, bem devagarinho, o reverso do mundo.