Sentou-se
defronte à tela branca. Apesar de uma boa parte do mundo estar ensolarada,
naquela hora percebeu-se como o único homem acordado no planeta.
Ao seu alcance, o imprescindível aparelho de som. Escolheu ao acaso.
Debussy, "Clair de Lune"... Acordes de suavidade. De resto, tudo quieto,
dormente. Assim gostava de fazer. Por um lado, sentia-se o único
ser presente. Silêncio reconfortante, afastando-se qualquer interrupção
desnecessária e perturbadora. De outro, forma solta de colocar-se
na tela, deixando escorrer pelos dedos as letras, as palavras. Poderia
até falar, depois. Mas naquela hora, daquele jeito, ninguém
veria o movimento de suas mãos, quando distantes do teclado, nem,
tão pouco, por onde andariam. Ninguém sentiria sua respiração,
seus involuntários gestos. O sentar, o levantar-se, o mexer-se eram
inexistentes... para o mundo. O escutar da música, pungente. A cada
hora só, perfeição de momento, doía-lhe, apenas,
o esforço para preencher a tela branca, a ser transformada em outro
mundo de sensações, imagens pretendidas, outras histórias,
contatadas e vividas pelo mesmo homem e por ele costuradas. Viu-se, então,
em pleno sábado, de madrugada, como ladrão de sonhos, começando
a maquinar uma singela ação. Iniciou por despojado caminho
de corredor estreito, com pequenas bananeiras e antúrios floridos,
de pedras sob os pés; aqui e acolá, estrategicamente colocadas,
mas com certo jeito de largadas, peças de barro. Envolveu-se em
sombras, atmosfera ardente, de que ele precisava. Andando, com passadas
de andar interno, alcançou o final de funil de corredor que avistara
no início. Ultrapassou uma soleira e novo espaço se abriu,
com mesas e cadeiras, sobriamente dispostas sob a luz de uma luminária
de alabastro, presa com finas canoplas de cobre envelhecido. Espaço
de penumbras, ainda mais amortecido com pequenas velas acesas que, pelo
frágil brilho, faziam sóbrio contraste com os mosaicos de
mármore branco e preto do chão, de polimento rude do constante
andar. Escolheu um lugar, próximo a uma janela. Sentou-se. Absorveu
a música, recolhendo-se em desejos. Imaginou, então, um cálice,
cristal luminoso, com frágeis traçados. Contra a luz, apareciam
embaçadas gotas de orvalho. Sentiu o frescor de folhas de hortelã,
olhando o pequeno brilho. Insatisfeito, procurou mais. Os acordes da música
trouxeram-lhe a doce brisa sentida pelo corpo calorento. Nas pétalas
minúsculas de miosótis, de suave azul, quase lilás,
satisfez um pouco a lembrança. Olhou pela janela e sentiu frio.
Fechando os olhos pôde ouvir o estalar da madeira, nas pequenas fogueiras,
barulho mansinho do vento sobre coqueiros, como se transportado à
beira do mar. Quase satisfeito, quis sementes da terra, das mais variadas
formas, para, apenas, senti-las em seus dedos. Sentindo-as, seus dedos
foram escorregando em palavras que escreviam, costurando, sempre, o seu
interno sentir.
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