2                                                                                 Seo TH
 


Sentou-se defronte à tela branca. Apesar de uma boa parte do mundo estar ensolarada, naquela hora percebeu-se como o único homem acordado no planeta. Ao seu alcance, o imprescindível aparelho de som. Escolheu ao acaso. Debussy, "Clair de Lune"... Acordes de suavidade. De resto, tudo quieto, dormente. Assim gostava de fazer. Por um lado, sentia-se o único ser presente. Silêncio reconfortante, afastando-se qualquer interrupção desnecessária e perturbadora. De outro, forma solta de colocar-se na tela, deixando escorrer pelos dedos as letras, as palavras. Poderia até falar, depois. Mas naquela hora, daquele jeito, ninguém veria o movimento de suas mãos, quando distantes do teclado, nem, tão pouco, por onde andariam. Ninguém sentiria sua respiração, seus involuntários gestos. O sentar, o levantar-se, o mexer-se eram inexistentes... para o mundo. O escutar da música, pungente. A cada hora só, perfeição de momento, doía-lhe, apenas, o esforço para preencher a tela branca, a ser transformada em outro mundo de sensações, imagens pretendidas, outras histórias, contatadas e vividas pelo mesmo homem e por ele costuradas. Viu-se, então, em pleno sábado, de madrugada, como ladrão de sonhos, começando a maquinar uma singela ação. Iniciou por despojado caminho de corredor estreito, com pequenas bananeiras e antúrios floridos, de pedras sob os pés; aqui e acolá, estrategicamente colocadas, mas com certo jeito de largadas, peças de barro. Envolveu-se em sombras, atmosfera ardente, de que ele precisava. Andando, com passadas de andar interno, alcançou o final de funil de corredor que avistara no início. Ultrapassou uma soleira e novo espaço se abriu, com mesas e cadeiras, sobriamente dispostas sob a luz de uma luminária de alabastro, presa com finas canoplas de cobre envelhecido. Espaço de penumbras, ainda mais amortecido com pequenas velas acesas que, pelo frágil brilho, faziam sóbrio contraste com os mosaicos de mármore branco e preto do chão, de polimento rude do constante andar. Escolheu um lugar, próximo a uma janela. Sentou-se. Absorveu a música, recolhendo-se em desejos. Imaginou, então, um cálice, cristal luminoso, com frágeis traçados. Contra a luz, apareciam embaçadas gotas de orvalho. Sentiu o frescor de folhas de hortelã, olhando o pequeno brilho. Insatisfeito, procurou mais. Os acordes da música trouxeram-lhe a doce brisa sentida pelo corpo calorento. Nas pétalas minúsculas de miosótis, de suave azul, quase lilás, satisfez um pouco a lembrança. Olhou pela janela e sentiu frio. Fechando os olhos pôde ouvir o estalar da madeira, nas pequenas fogueiras, barulho mansinho do vento sobre coqueiros, como se transportado à beira do mar. Quase satisfeito, quis sementes da terra, das mais variadas formas, para, apenas, senti-las em seus dedos. Sentindo-as, seus dedos foram escorregando em palavras que escreviam, costurando, sempre, o seu interno sentir.

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Adriana Gragnani

Paulistana, nascida na Maternidade Matarazzo - de tão triste fim. Os títulos acadêmicos não me incomodam. Assim, pode colocar algo do tipo ativista da cidadania. Minha cédula de identidade contém como nome Adriana Maria Carbonell Gragnani, mas assino só Adriana Gragnani. Como pejorativamente começaram a "pejorar" as mulheres que freqüentam a net como mulheres da net, assumo, sem pudor, que sou uma mulher da net.