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Deolinda, seios arrebitados e saltitantes sob a camiseta de estampado, correu ao chamado da avó que, debaixo do frondoso imbondeiro, preparava o funje, enquanto no velho fogão herdado do sr. Henrique, o cantineiro, o óleo de dendê e os pedaços de peixe começavam a ferver, impregnando o ar de doces odores.
André, deitado, pensava nos tempos de África e na noite anterior em que estivera numa recepção de embaixada. As conversas de sempre, a mesma futilidade, os mesmos salamaleques e os mesmos canapés. Nem os bolinhos de bacalhau, feitos de farinha e imitação do nobre peixe, conseguiam escapar à sensaboria reinante.
Na busca de recordações, André lembrava-se, invariavelmente, de comidas que, de alguma forma, marcaram percursos da sua vida. Por África, pela Europa e, nos últimos anos, no Brasil.
Por vezes, apanhado na armadilha dos próprios pensamentos, interrogava-se se teria passado fome em criança, tal a intensidade das memórias, dos registros de comidas e de sabores. Lembrava agora a muamba, prato quase obrigatório nos almoços de sábado na velha Luanda, ou a caldeirada de cabrito com que se deliciava em dias de festa. Os pratos da culinária angolana, o feijão com dendê, as garoupinhas grelhadas, misturavam-se às imagens fotográficas dos encontros de família e de amigos, debaixo da imensa mangueira que enchia de generosa sombra o quintalão da casa da tia Guinhas, lá para os lados da Gajajeira.
Nem sempre as recordações eram tão boas, ou, pelo menos, tão cheirosas... Por vezes, elas traziam ao presente as imagens de uma guerra prolongada, de crianças subnutridas, de ventres inchados, por não terem comida em casa, sequer um funje.
Muitas vezes, André lembrava os tempos de uma Luanda cercada – já lá vão quase três décadas - por tropas e mercenários pagos com dólares da Casa Branca e rands do governo de apartheid de Pretória. Tempos em que o velho Avis, um dos cinemas da cidade, exibia "A Grande Farra" ou "A Comilança", no título brasileiro. Na platéia, algumas dezenas de espectadores, alheios ao estrondo do canhonheio e dos disparos de armas automáticas, nos bairros periféricos da capital, salivavam e mastigavam em seco ao verem na tela as imagens de um sem fim de iguarias culinárias. Era a grande farra, num final de semana, num qualquer castelo da Provence.
Por essa época, em Luanda, a procura de alimentos era uma prioridade do quotidiano. Uma boa informação sobre onde obter uma galinha, uma dúzia de ovos, uma lata de óleo, era paga a preço de ouro. Uma lata de sardinhas de conserva transformara-se num bem precioso. E conseguir preparar um bom almoço, dos tradicionais em tarde de sábado, tornara-se uma verdadeira façanha.
Depois de uma infância em que se repetiam as ameaças de recurso ao tristemente célebre óleo de fígado de bacalhau, "ou comes ou vou buscar o óleo", diziam-lhe, André descobriu, finalmente, os prazeres da carne. E também do peixe, ora pois! A descoberta começou quando foi estudar para Lisboa. Distante da família e dos cuidados maternos, forçado à difícil digestão das cantinas universitárias, foi rápida a revelação de tais prazeres em tascas do Bairro Alto, nas casas de pasto dos galegos da Estefânea ou nas adegas da região saloia, nos arredores da cidade.
Uma feijoada, um cozido à portuguesa, uma dobradinha à moda dos tripeiros do Porto, favas guisadas, um sarrabulho ou uns rojões à minhota eram, entre muitos outros, os pretextos para se juntar com os amigos em almoçaradas conspirativas, durante as quais o bom vinho carrascão, tirado das pipas e servido em jarros de barro, era liberalmente consumido. O regime fascista, que dominou Portugal e as
colônias durante mais de meio século, até à Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, era o inimigo jurado dos jovens conspiradores.
Mas, deixando para trás memórias que ofendem os amantes do neoliberalismo e do salve-se quem puder, André lembrou que a sua missão, nesse dia, seria falar de morte. Da morte do nobre porco, a celebrada matança em terras do interior de Portugal. E à memória vieram-lhe lembranças da região de Entre Douro e Minho, de onde eram oriundos muitos dos nossos avós, bisavós ou tetravós.
Num bloco de apontamentos em que registrava idéias e outras coisas que achava que poderiam, um dia, mudar a sua vida errante, feita de idas e vindas no triângulo atlântico, encontrou uma citação de Ramalho Ortigão.
"Manhã cedo chega o matador, com seu terrível facalhão, cuidadosamente afiado. O bichorro é, então, preso pelas patas curtas e delgadas a um banco de madeira, onde terá o seu fim. Célere e certeiro, o matador crava a faca no coração do animal que sangra abundantemente. A lavradeira lá está,
pressurosa, a arrecadar aquele líquido espesso e rubro e fumegante para um grande alguidar com vinho, que não cessa de mexer. E que rico mortório do porco é o sarrabulho! Um nunca acabar de pratos fartos e saborosos que reúnem a família e os amigos em torno de uma toalha de linho. As
travessas acumulam-se de papas, feitas com a água de preparar os chouriços de sangue; do arroz túmido de
carnes variadas; dos rojões muito quentes, a nadarem em gordura, acompanhados de castanhas e batatas loiras e macias. Também não faltam o fígado frito e o lombo assado. Que manancial de boas comezainas não é o porco (com sua licença)!".
André acordou. O sol já ia alto. Estremunhado, levantou-se e saiu de casa, quase correndo. Deolinda esperava-o no aeroporto. Os seios já não eram tão arrebitados, mas era a mesma Deolinda. Afinal, também ele não era mais o mesmo. Não voltaria a comer "nouvelle cuisine", nem bolinhos de bacalhau de embaixada.
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