![]() |
|
Era uma vez um Príncipe que escrevia um diário. Dito assim pode parecer estranho, mas houve um tempo em que os príncipes eram vaidosos e escreviam diários, mais ou menos na mesma época em que os animais falavam. Só muito mais tarde é que os diários dos príncipes passaram a ser escritos por outras pessoas, assim como os discursos, os artigos na folha etc. Os súditos que assumiram esse papel apreciavam ser chamados de intelectuais, davam aulas nas principais universidades do Reino e serviram a príncipes, generais, oligarcas do nordeste, socialites emergentes etc. Vaidosos, no entanto, os príncipes continuariam para sempre... Então: o Príncipe vaidoso escrevia um diário e toda noite, na solidão do seu quarto, depois do banho de sais, investido em robe de chambre, sentado naquele banquinho envolto por tecidos florais que todos vocês conhecem, em frente à penteadeira real, ele perguntava, assim como quem nega: – "Querido Diário, existe neste Reino alguém que escreva um diário tão bem quanto eu? Que seja tão observador, que construa frases tão inteligentes, que conte fatos tão interessantes, que use a escrita de um modo tão castiço quanto o meu?" E o Diário respondia, na bucha: Pedro Nava, Simone Weil, Carlos Sussekind e até mesmo uma menina, Lori Lamby, escreve melhorzinho – e num caderno mais bonito... Aí o Príncipe se enfurecia, pegava as páginas que já tinha escrito e rasgava!, jogava no lixo!, usava no banheiro... Dia seguinte, como se tudo tivesse acontecido, lá estava o Príncipe diante do diário com a mesma cantilena, depois de escrever três ou quatro frases que, no máximo, valeriam um real: – "Querido Diário, existe alguém neste – ou em qualquer outro – Reino, que coloque tão bem os travessões num diário, quanto eu?" E o Diário respondia sem pestanejar (como só eles sabem fazer): Perry White, Edélsio Tavares, Ibrahim Sued, D. Edelmar Barbosa, Campos de Carvalho... Depois de gritar possesso: "Mas: Campos de Carvalho não são os dois pontos?!", tome riscos de caneta!, rasgões e amassos de papéis!, pontapés na cesta de lixo real!, páginas semiescritas no vaso sanitário (real)!, espirais retorcidas!, sensíveis canções românticas de Ângela Rô Rô, Julio Iglesias e Amado Batista em razoável volume no toca– discos... * ... Aí o Príncipe, que já andava muito reticente, foi ficando cheio!, com aquela história diuturnamente repetida pelo Diário (sempre à noite), de que no Reino havia alguém que escrevia melhor do que ele. Por isso, embora prezasse o bom uso da língua, se viu obrigado a convocar uma "força– tarefa", compor um conselho para lhe ajudar a "pensar grande"... Chamado a opinar, o primeiro conselheiro lhe disse, curto e grosso, como não costumam fazer os assessores reais de todas as Cortes em todos os tempos: – "Vossa Alteza não escreve bem o diário O Príncipe nem esperou as aspas se fecharem: chamou os guardas e mandou jogar o ex– conselheiro no Calabouço. Ato contínuo, chamou o segundo conselheiro (já naquela época os príncipes tinham muitos assessores prontos, ou melhor ávidos, para serem chamados... " convocados para uma missão", como eles gostavam de dizer) que lhe falou, ofegante, mãos esfregando– se sofregamente: – "Vossa Alteza, para escrever de forma ainda mais refinada esta inigualável e maravilhosa peça literária que é o seu diário, precisa apenas não ter medo. Eu não acredito, mas sussuram nas tabernas deste Reino que Vossa Alteza não escreve ainda melhor porque tem medo do ridículo." O Príncipe bradou, numa altura tal, que os berros reais ecoaram por todo o castelo e adjacências (naquela época elas ainda existiam, embora já experimentassem certa decadência...) e até hoje se comenta ali da gritaria do Príncipe: – "Tragam aqui este Ridículo!, tragam aqui esse Ridículo!, tragam aqui esse Ridículo, que vou mostrar a todos que não tenho medo dele, que lhe cubro de porradas!" Aí o Príncipe (esse mesmo), chamou os guardas, que sempre estão por perto para salvar do ridículo, nos momentos críticos, os príncipes e quem conta suas histórias e ordenou, ainda em gritos: – "Saiam agora mesmo, procurem por todo o Reino esse tal de Ridículo, tragam– no aqui a ferros (como se diz nas melhores histórias do ramo) que vou mostrar se tenho medo dele!..." e se retirou para a Academia Real onde se pôs a malhar... Toda a guarda do Palácio foi mobilizada para procurar o temível adversário do Príncipe – e da literatura intimista de modo geral... Procuraram, procuraram, procuraram a manhã toda... a tarde toda... no fim da noite chegaram ao que lhes pareceu ser a décima milésima taberna. Para vocês terem uma idéia do tédio que reinava ali, havia mais tabernas naquele Reino do que Belo Horizonte tem bares hoje em dia. Na última, a cena que os fatigados guardas reais haviam presenciado (guarda real não apenas vê, vai além, presencia) inúmeras vezes aquele dia: um monte de caras cheios da cana... quer dizer, da uva, da pêra, da cevada, mais prá lá que pra cá... jogados em toras de madeira que se passavam por mesas e num tronco deitado tido por balcão. Aí, repetiu– se quase exatamente o mesmo diálogo das outras tabernas: – "Quem é Ridículo aqui?" E os guardas ouviram quase a mesma resposta que tinham recebido durante quase todo o dia: – "Aqui ninguém é ridículo!" O chefe da guarda quase fez o mesmo comentário: "Ah!, bem!"... e quase volteou sobre os calcanhares para ir embora (como nas mesmas melhores histórias do ramo), quando percebeu uma voz quase inaudível vinda de um penumbroso rincão tabernal, como era chamado pelos acadêmicos de então um canto escuro no fundo do bar: – "Ridículo... aliás, os ridículos de um modo geral, nunca vêm aqui... pelo que se diz, eles ficam quase o dia todo na academia, malhando"... Com essa dica, que lhes pareceu preciosa, além de ponderada, os nossos heróis rumaram sem perda de tempo para a academia, pegaram o primeiro cara que encontraram envergando um jogging azul– turquesa (essas roupas assim as pessoas não simplesmente vestem, mas se deixam vergar sob), tênis luminescente com tarjas fosfóreas, boné coruscante "de marca", e lançaram o não tão pobre assim homem e seus coloridos petrechos, com a habitual delicadeza real, no Calabouço. Criou– se a maior expectativa, o Príncipe enfim ia mostrar a todos que não tinha medo... Foi logo no dia seguinte: ridículo, daquele mesmo jeito trajado, baixou a porrada no Príncipe, que saiu olho roxo, hematomas por todo o corpo, três costelas quebradas, baixou à real enfermaria mas satisfeitíssimo!, tinha mostrado que "Deus o havia privado do sentimento do medo" do Ridículo. Este, por sua vez, achou aquilo tudo e o que se seguiu muito estranho, já que passou a ser apontado nas vielas por dedos e comentários orgulhosos – "aquele ali é o verdadeiro ridículo!", "todos nós nos sentimos um pouco como você, ridículo!" – , passou a receber frutas e verduras de quebra na feira, a ser saudado com deferência incomum nas comunas, só porque tinha baixado o sarrafo em Vossa Alteza, um pouco mais apenas do que fazia como aperitivo dominical antes da janta Tomires, na defesa do Flamengo. Diz– se até que, por causa desse episódio, um desenhista criou uma HQ "O Príncipe Valente". Mas isto, não nos deixemos cair em tentação, é outra história... * Três longos meses se passaram, o Príncipe afinal saiu da enfermaria. Voltado ao Castelo, refeito, logo na primeira noite o nosso herói sacou de sua Montblanc, escreveu meia dúzia de quatro ou cinco frases e tacou a indefectível pergunta: – "E agora, Diário, depois que demonstrei publicamente que não tenho medo do Ridículo, me responda, com sinceridade (os príncipes sempre gostam de respostas sinceras, paciência): existe neste Reino alguém que escreva um diário tão bem quanto eu?" O Diário, num átimo, observou: – "Vossa Alteza hoje não me chamou de 'querido"... – "... Bem...sabe como é...três meses de hospital e tal... esqueci dessa parte mas, Querido Diário, o importante é que você...desculpe a intimidade, me tire logo dessa contínua, inescapável e angustiante dúvida: existe afinal, neste ou em qualquer outro Reino, alguém que escreva num diário tão bonito quanto eu?" O Diário não pensou muito e mandou: – "Se Vossa Alteza continuar escrevendo dessa maneira, breve estará na lista dos dez mais vendidos, junto com Lair Ribeiro, Roberto Campos, Jô Soares, Sidney Sheldon..." O Príncipe, a essa altura pavoneado, emendou: – "Quer dizer então, que estes três meses não foram em vão! O quanto que estudei de "Metodologia da Escrita Cotidiana, por Correspondência", do Instituto Universal Brasileiro; a leitura do diário de Monsieur Jourdan, injustamente difamado por Moliére; nada disso foi tempo perdido, quer dizer que em matéria de diário sou o maior, "The Best"? Aí o Diário rebateu de primeira, como só Píndaro e Pinheiro na década de 50, Brito e Fontana na década de 60, Moisés e Abel na década de 70: – "A sua escritura é uma boa merda!" Quando o Diário acabou de pronunciar estas palavras se ouviu, vindo do aposento real ocupado por Sua Alteza, aquele inconfundível som de trovejantes gemidos, algo como explosões de engasgos, seguidas de muita baba, uma agonia de gritos primais tipo peidos de grunhidos, espécie de réstias de RÁ!, emitidas por uma inesperada Baby Consuelo de caxumba, cujo epicentro foi o Castelo, de onde expandiu– se sulfuroso e barulhento Planalto Central afora e, qual esquadrilha de boeings desgovernados, por todos os verd'amarelos cantões... O único que o Príncipe conseguiu fazer de prático, além de trocar as calças, foi lançar– se marreta em punho ao aposento vizinho, com entusiasmo digno de quem adentra tapete verde no Pacaembu e, naquele insuportável dilema sobre a qualidade de suas garatujas, mandou ver no espelho do quarto de sua mãe, de onde foi expulso aos berros (mas como berrava a família real!) pela matrona, saltitante entre os cacos, sete anos de azar pela frente: – "Desastrado!, você entrou na história errada!... agora como vou encontrar Branca de Neve?!...". E tome mais Julio Iglesias, mais Angela Rô Rô, mais Amado
Batista, mais Luiz Melodia em nova fase, mais epocler... zeca |