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Desça daí, vai quebrar a cabeça. Não corra, não brigue, não corte o rabo do gato, não limpe o nariz na blusa, não isso, não aquilo Era aquela peleja o dia todo, a semana toda, o ano todo. Li, aos quinze anos, a vida de Isadora Duncan. Ela achava que a mulher devia ter um filho de cada homem que amasse. Eu já sofria do complexo de independência, com mais esta influência, veio o resultado: mãe solteira de dois filhos. Os pais estão por aí. O primeiro, Maurício, fisicamente perfeito, foi a criatura mais carinhosa que conheci na vida. Atencioso, cavalheiro, tão educado que controlava até os seus ciúmes. Nunca comi tanto bombom na minha vida. Devia ter contado as flores que recebi. Milhares. Tome flor, tome carinho, bombons, revistas, beijos. E resista a uma relação amorosa e íntima! Até que ele pretendeu casar-se comigo quando fiquei grávida. Mas eu estava com 21 anos e tinha acabado de reler Isadora Duncan. Além disso, não admitia a hipótese de comprometer os meus sentimentos “até que a morte nos separasse”. Como é que eu poderia jurar um amor eterno, se amo as criaturas e o mundo com a dosagem de amor de cada dia que renasço? Há dias em que venho mais abastecida. Noutros, estou bem rasa desse sentimento. Existem semanas melhores, outras piores. Meses maus e bons. Como poderia me comprometer, então, para todos os dias, meses e anos seguintes? Não, eu tinha de ser livre. Pelo menos, a liberdade particular de ficar só, quando me desse vontade, amar, quando para isso estivesse animada. E a barriga foi crescendo. Quando estava de sete meses, aquele barrigão pontudo, aquela deselegância no andar e no vestir, Maurício começou a viajar. Viagem de mentira, é claro, mas eu fingia acreditar porque queria “curtir” o meu filho que ia nascer. Minhas colegas de trabalho foram maravilhosas. Sapatinhos, camisinhas, fraldinhas, cobertas, lençóis, tudo bordado com o maior carinho. Tudo lindo. Eram todas encantadas com o que chamavam de minha personalidade e coragem. Quando entrei de licença, senti um pouco de solidão O meu filho, dando pontapés na minha barriga, avisava-me de que estava chegando para fazer-me companhia. E um dia, chegou mesmo. Feiozinho, coitado, todo esmirradinho. Tive raiva de Maurício não ser bom reprodutor. Mas, depois, me arrependi de ter cometido mentalmente essa injustiça. O meu filho, Bernardo, foi ficando tão lindo, tão lindo, que não entendia de onde teria vindo tanta beleza. Que delícia, acordar de madrugada com seu choro! Que gostosura, o toque do seu corpinho no meu. Suas mãozinhas, seus pés, seus dedinhos pareciam de brinquedo. Seus olhinhos me acompanhavam, como se me reconhecessem, me soubessem. Ah, quanta ternura não é retida e guardada! Quantos pedacinhos de eternidade existem nesses primeiros contatos com o mundo que renasce em cada criança! O primeiro passo é a ameaça de uma longa caminhada. Então, ele retrocede, pára e pensa um pouco. Sente medo. Que instinto, meu Deus. Como já sabe? Aos poucos, com a insistência da mãe, vai tornando coragem e assumindo os passos. Maurício veio conhecer o Bernardo quando ele completou um mês. Tive pena dele. Já havia perdido tantos momentos lindos, tantos minutos eternos! Mas não deu demonstração de nenhum remorso de ter perdido esses instantes. Então, deixei de amá-lo. Só não fiquei sozinha porque ninguém sente solidão na companhia de uma criança. É aquela luta o dia inteiro. Acorda cedo, faz mamadeira, leva para tomar sol, torna a pôr para dormir, vai providenciar almoço, a criança acorda de novo, torna banho, almoça, dorme, come, acorda, chora, acaba o dia. Quando tive de voltar ao trabalho, quase morri de saudade e aflição. A minha empregada, Ilda, era ótima. Adorava o Bernardo e sentia por ele a maior ternura. Eu não tinha preocupação, mas aflição de perder para Ilda os carinhos, o afeto e os olhares de meu filho. O outro filho, Carlos Alberto, veio de uma aventura linda. Bernardo tinha três anos e, às nove horas da noite, já estava dormindo. Passei a sentir solidão, à noite. Lia jornal e tinha vontade de comentar com alguém as notícias. Lia um livro e as minhas emoções ficavam paradas ali, por não ter com quem dividi-las. Sentia necessidade de alguém, além dos amigos e das colegas, com quem conversar coisas sem importância. Alguém a quem pudesse transmitir as emoções diárias, constantes. As certezas, as ilusões, os sonhos, o ideal, os fracassos e as fossas. Conheci Henrique em casa de um amigo. Discutia política com tamanha lucidez, veemência e lógica, que me encantei. Amo a inteligência e a cultura. A inteligência, principalmente. Aquele janelão, aberto para o mundo, percebendo tudo. O homem inteligente vê, sente, focaliza, dá sua interpretação clara, lúcida, brilhante. Henrique é assim. Uma mistura de tudo que um homem pode ser: inteligente, culto, idealista, místico, generoso, humano, solidário, amigo. Era a companhia mais agradável deste mundo, e o melhor amante. Quase morri de paixão quando ele me deixou. Foi tão sincero e verdadeiro o tempo todo, que nem pude deixar de amá-lo. Já era casado quando nos conhecemos. Sua mulher era bonita, ótima mãe de seus filhos, boa companheira, bom tudo, mas... e há sempre um mas... era inferior a ele intelectualmente. Daí, a necessidade de uma mulher inteligente para contrabalançar: eu. Não queria que eu tivesse um filho seu. Dizia abertamente que tinha medo de se prender a mim, definitivamente. Ora, essa! Desde quando um casal precisa de um filho para se unir? Ele deixa de se separar por causa do filho, ou dos filhos? Então? Qual é a lógica? Só dizíamos a verdade um ao outro. Por isso, quando garanti que jamais o aceitaria como esposo, mesmo que ele pretendesse, aceitou o filho. Bernardo ia fazer cinco anos quando Carlos Alberto nasceu. As roupinhas já não eram bordadas, eu já não tinha aquele cartaz de “mulher independente e de personalidade”, já me consideravam um pouco irresponsável, segundo homem, solteira; que louca! irá criá-los, como? Funcionária pública, vai deixar os meninos com a empregada, a pobre coitada é quem vai ter a trabalheira toda, não teve a parte boa e vai ter que dar o duro. Filho de homem casado, nem vai poder registrar a criança. Filho ilegítimo, o pobrezinho. Vai levar essa marca por toda a vida. Mulher irresponsável, louca varrida. Já quase não conversavam comigo. Falavam o necessário, conversas funcionais. Não me incomodei enquanto tive, à noite, a companhia de Henrique para me amparar. Os nossos assuntos eram tão inteligentes e variados que nunca contei a ele a reação de minhas colegas. Acharia graça, com certeza. Sempre achou hilariante a estupidez humana. Quando acabamos o nosso romance, Carlos Alberto tinha três anos e Bernardo oito. Henrique se apaixonou por outra mulher inteligente, mais nova do que eu, com assuntos novos e menos repetidos. Entrei na maior depressão. Tive ódio de mim e da Isadora Duncan. Já se passaram dois anos. Ele ainda vem, dois domingos por mês, levar as crianças para um passeio. Ambos o tratam por tio Ico, nenhum deles sabe quem é o pai.
E eu voltei para minha vida só de criar menino, desça daí, não quebre a
cabeça, não caia, não faça isso, não faça aquilo. |
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Como é que eu poderia jurar amor eterno, se amo as criaturas e o mundo com a dosagem de amor de cada dia que renasço? Não, eu não deveria me casar com o Leandro. Amava-o, muito. Mas quem garante que o amaria assim, com essa força, durante meses e meses, anos e anos? Viria a rotina, com certeza. Os assuntos ficariam muito repetidos e eu tentaria inventar alguma história nova para contar-lhe, evitando aquele olhar desanimado de quem escuta histórias repetidas. No início seria ótimo. Descobertas de pintinhas na coxa, nas costas, que corpo lindo, que mulher deliciosa, que isto, que aquilo. Noites e noites de encantamento, o acordar feliz e encontrá-lo a meu lado. A vontade de ficar abraçada assim, não ir ao trabalho, só ficar juntinho, fazendo amor e falando bobagens e achando graça. O mundo lá fora se danando e a gente ali, naquele amor particular. Ele me amaria sem pressa, saberia dosar o amor e transformá-lo num acontecimento normal, como se amar fosse a coisa mais natural do mundo. E eu ficaria pensando ser aquele o homem da minha vida, em quem poderia confiar sempre, sem censuras, sem freios. E lhe confiaria todos os meus anseios, as inseguranças e os medos. O tempo passando, os gestos se repetindo, a monotonia assumindo. Ele passando a reclamar do arroz, dos legumes mal cozidos, da camisa mal-passada, da batata gordurosa, já não gostando de quase tudo que adorava, antes. Leandro se interessando por outra mulher mais jovem, eu percebendo os olhares com ondas, dos dois, e fingindo não entender, morta de ciúmes. Ele se deitando na cama com um livro desinteressante só para não ter que me acariciar, naturalmente pensando na outra. Eu me fazendo de idiota, com medo de perdê-lo. E, quanto mais apavorada, mais desinteressante eu me tornaria. E teria aquelas dúvidas idiotas de quem não tem coragem de trilhar novos caminhos: será? Não estarei enganada? Que ada, que nada. Quando a gente começa a achar, é porque já é. Tentaria reconquistá-lo e aí é que a coisa ficaria trágica. Ele com aquele olhar distraído fitando longe, além de mim, e eu ali, perturbando o seu sonho. Leandro sairia para jantar sozinho, aniversário de um colega solteiro, essas desculpas tolas. E eu fingiria acreditar, com receio de saber da verdade e ter que assumi-la, separando-me dele. No meu trabalho, os colegas ficariam espantados com a minha metamorfose. Aquela mulher simpática, alegre, inteligente e engraçada encolhida num canto calada, triste e suspirosa. Eu inventaria uma cólica qualquer para ir para casa chorar, com pena de mim. Chegaria a um ponto que Leandro, não suportando a minha humildade e falta total de personalidade, pediria o desquite. E eu sofreria meses e meses sem parar. E choraria tanto que até me desidrataria. Depois, mesmo que ele pretendesse voltar, mais tarde, um dia, tudo seria diferente. Cada momento de angústia seria cobrado. Eu passaria a usar um freio para impedir as emoções, já agora censuradas. E passaria a conter as alegrias, na preocupação de ter de devolvê-las, mais tarde, no sofrimento. Pensava tudo isso enquanto esperava o Leandro na noite em que me pediria aos meus pais, em casamento.
Aceitei, naturalmente. |
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Vera Brant |