Terça-feira, 23 de setembro de 2003, 15h30. O criminalista Álvaro Quintanilha, 60 anos, divorciado, solitário, apressado, assistente de acusação num caso de latrocínio, deixa o Fórum Criminal de São Paulo. No Páteo do Colégio, um irmão do réu desfere um tiro de 38, que lhe esmigalha a cabeça do fêmur direito.

Um comprimido pequeno faz com que Álvaro, às 7h00 do dia seguinte, já chegue delirante à sala de cirurgia, no Hospital Sírio Libanês, na Bela Vista, para implante de prótese de titânio. No delírio, Álvaro se vê aos 19 anos e revive madrugada fria de junho de 1962, em que ele e mais três colegas da Faculdade de Direito, no Largo São Francisco, tentavam descarregar de uma caminhonete a escultura O Beijo, inexplicadamente desmembrada, décadas atrás, do Monumento a Olavo Bilac na Avenida Paulista. Após longo confinamento em depósito da Prefeitura, O Beijo fora instalado no Largo do Cambuci, mas puritanas senhoras, alvoroçadas com aquele casal nu se beijando em praça pública, conseguiram sua expulsão para o Viaduto Nove de Julho, sob a Avenida Paulista. Incansáveis, os amantes mantiveram sua apaixonada homenagem a Bilac em meio à fuligem, até serem salvos pelos quatro cabeludos à Castro Alves que os desembarcavam no Território Livre do Largo, para emoldurar novas lutas libertárias e inspirar trovas acadêmicas. Só que a operação não era fácil. Suando sob o peso do bronze, Álvaro estava a ponto de desmaiar, quando um improvável anjo de olhos negros o socorreu, impedindo que a escultura lhe caísse dos ombros. As mãos delicadas da bela colegial de 13 anos, a caminho da comunhão no convento dos franciscanos, foram fundamentais para o sucesso do resgate. Comovido e grato, Álvaro acompanhou a menina à missa. Notou quanto ela estava feliz por participar da aventura, mas, ansioso, só ficou com seu nome – Luísa –, e foi encontrar os amigos no Centro Acadêmico XI de Agosto, para a grande bebedeira comemorativa. Nunca mais vira a menina linda. Nem nunca mais a esquecera.

 

Já de volta ao quarto do hospital, Álvaro só desperta de vez às três da tarde. Mas o devaneio parece não ter fim, pois continua a ver os olhos negros de Luísa, a mesma Luísa de 13 anos, ali, contida no rosto e no corpo da bela médica que pergunta se está tudo bem com ele. Incrédulo, o coração a mil, lê no bolso do jaleco branco da cirurgiã, bordado em azul: Dra. Luíza Marcondes. Olha para as mãos fortes e delicadas e não tem mais dúvida. O anjo voltou para salvá-lo. Salvar seu corpo, e, talvez também sua alma da solidão, da angústia, de anos de desamor!

“Lembra de mim?”, ele pergunta. “Não a vejo desde uma missa na Igreja de São Francisco, em 1962!”

“Engano seu”, responde Luíza. “Naquele mesmo dia, horas depois, nós nos encontramos na rua Riachuelo. Você tinha bebido demais, por isso esqueceu. Mas disse, ao despedir-se, que esperaria eu crescer, e um dia me ensinaria a beijar como os amantes da escultura!”

Ela lhe afaga os cabelos brancos e sorri:

“Acho que ainda posso aprender...”

(São Paulo, novembro de 2003)

 
 


 



 

     


 

 

Ruy Fernando Barboza
60 anos, é psicólogo clínico e colunista da revista Cláudia ("Relações Delicadas"). Dirigiu em São Paulo o Centro Oncológico de Recuperação e Apoio (Cora) e a Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética. Foi advogado criminalista e assessor, por concurso, da Presidência do Tribunal Regional Federal. É jornalista profissional (chefiou as redações de Playboy e Nova, foi editor de Veja e Realidade e editor-chefe e apresentador de telejornais na TV Globo e na Abrilvídeo). Como músico e humorista, integra o grupo Conjunto Nacional, ao lado dos irmãos Paulo e Chico Caruso e de Luís Fernando Veríssimo. Em 2002, foi vítima de uma bala perdida de fuzil no Rio de Janeiro, fez oito cirurgias (no fêmur, na musculatura da coxa, no nervo ciático e na uretra), mas sobreviveu e leva vida praticamente normal, numa praia de Florianópolis, Santa Catarina.